O anônimo Mr. Robot

 

Por Phillippe Watanabe

 

A paranoia poderia/deveria ser uma sensação constante hoje. Eu e você poderíamos estar pensando infinitas vezes antes de colocar nosso login e senha em algum site e apertar o “enter”. Eu e você não fazemos isso. Somente ligamos o computador, o celular, o tablete ou qualquer outro aparelho que consiga aparentemente expandir os nossos sentidos e mundos, e nos entregamos às belas interfaces bem acabadas que tanto facilitam nossas vidas. É por isso que eles sabem tudo sobre nós. Hello, friend; talvez seja hora de acordar.

A série Mr. Robot (Sam Esmail, 2015) circula por todos os assuntos relacionados à internet que poderiam nos incomodar, mas não o fazem. O protagonista Elliot Alderson (Rami Malek) é uma pessoa aparentemente simples que trabalha em uma empresa de tecnologia especializada em segurança de sistemas empresariais. Alderson, contudo, seguindo os modelos da cultura hacker já mostrados em filmes como Matrix, por exemplo, possui uma vida dupla. As ações conduzidas de modo discreto durante o dia tornam-se ainda mais sutis e imperceptíveis durante a noite, mas, dessa vez, no mundo virtual, em operações de vigilância de conexão, e invasões de e-mails e celulares. Ele precisa saber de tudo das pessoas que o cercam.

O modo de ação e a vida dupla de Alderson revelam a visão que temos – ou que uma parcela considerável tem – atualmente sobre o assunto. Os hackers são novos heróis. É exatamente dessa forma que o protagonista se comporta. Não à toa, logo no início da série, ele, em um encontro com o dono de uma cafeteria, começa a revelar coisas aterradoras sobre a pessoa que está à sua frente. O homem é responsável por uma rede de pornografia infantil. As tentativas de subornar Elliot são inúteis – não é disso que ele está atrás, não é isso que o interessa – e, ao mesmo tempo em que ele sai da cafeteria, a polícia entra. Uma pessoa perigosa a menos no mundo.

Elliot é um antissocial. Sua fobia é claramente vista em seu modo de se comportar – ele se esforça para se desviar de todos – e em seu isolamento. O único contato humano que possui parece ser com a psicóloga (Gloria Reuben) – que já teve sua vida completamente esmiuçada pelo protagonista – e a amiga de infância Angela (Portia Doubleday). Essas, além de seu vício em heroína, são as únicas companhias de Elliot.

A grande reviravolta na vida do protagonista ocorre com a aparição da misteriosa, mas visualmente comum, personagem Mr. Robot (Christian Slater). É nesse momento que Elliot assume de vez a figura do herói moderno. Sua missão, que dura toda a primeira temporada, é clara: derrubar a maior empresa do mundo digital – Evil Corp.

Os nomes, personalidades e comportamentos deixam claro que a série não tem medo de usar associações simples, lógicas, estereótipos e até mesmo clichês. Contudo, em nenhum momento isso chega a ser um fator prejudicial à condução do enredo ou à apreciação por parte do público. Tudo funciona muito bem e pontos como esses, que poderiam se tornar problemas, pesam a favor do seriado. O último episódio é marcante nesse sentido. David Fincher e seu Clube da Luta (1999) aprovariam Mr. Robot.

O misterioso casal Tyrell e Joanna Wellick fecham o conjunto de personagens principais. Suas motivações, em grande parte, permanecem misteriosas durante toda a primeira temporada. Tyrell é tão inteligente quanto Elliot, e parece frustrado em ter que crescer devagar na profissão – mesmo já ocupando um cargo de destaque na Evil Corp. Mas os reais motivos da frustração, que parece ir muito além desse ponto, e suas verdadeiras intenções não são reveladas. Seu destino, no fim da temporada, aumenta ainda mais o mistério em torno dele. Por fim, Joanna parece ter total controle sobre seu marido, como se possuísse um plano detalhadamente traçado sobre suas ações, frases e comportamentos. O laço afetivo entre os dois, se é que um dia existiu, deu lugar a uma cadeia de comando.

Mr. Robot é sobre privacidade, controle, manipulação, dinheiro. Mr. Robot é sobre o mundo que vivemos atualmente. As máscaras que os hackers usam para se pronunciar em vídeo na série lembram muito as de V de Vingança, que, por sua vez, são as mesmas do grupo de hackers Anonymous. Os protestos mostrados na série não foram encenados. As imagens são reais; levantes populares que se espalharam pelo mundo. Mr. Robot é sobre a realidade. Por isso, a realidade responde.

Por que Mr. Robot é importante? Algo que nos incomoda está sendo dito ali. Elliot sabe o que nos incomoda.

– Será que é porque nós pensamos que Steve Jobs era um grande homem, mesmo sabendo que ele fez bilhões às custas de crianças? Talvez porque pareça que todos nossos heróis são farsas e o mundo um grande hoax. Todos entulhando uns aos outros com seus comentários de merda disfarçados de insights. Nossas redes sociais e sua falsa intimidade. Ou será que é porque votamos por isso? Não em nossas falsas eleições, mas votamos com nossas coisas, nossas propriedades, nosso dinheiro. Não estou dizendo nada novo, nós todos sabemos o motivo de fazermos isso; não é porque Jogos Vorazes nos faz felizes. É porque queremos estar anestesiados. Porque é doloroso não fingir, porque somos covardes! Foda-se a sociedade!