As Garotas do Prédio

por Álvaro André Zeini Cruz

Jane (Kirana Pipityakorn) tem aulas de direção na camionete de Tong (Pakor Chadborirak), enquanto a melhor amiga Ann (Fatima Dechawaleekul) os acompanha na carroceria do veículo. A amizade entre essas adolescentes vive dias escorregadios desde que ambas passaram a sentir uma atração oculta entre testes e inconfissões até culminar num beijo (não mais entre os cílios, como elas brincavam, mas entre as bocas). Tong, um policial por volta dos 30, se intromete sem querer nessa relação, compondo uma triangulação em que a solidão dele as atrai de alguma forma, por motivos diferentes e não evidentes. Esse subtexto todo encontra síntese no olhar de Jane, talvez o mais complexo visto num melodrama desde que Gwyneth Paltrow nos olhou — apesar da sombra e dos cabelos sobre o rosto — em Amantes, de James Gray. Jane para no semáforo e brinca de cutucar Tong; “você tem bochechas macias”, ela diz a ele, enquanto a câmera muda a distância focal para borrá-los, destacando o olhar desconcertado de Ann não em direção a Tong, mas a Jane. Não, por mais dolorido que seja, não é esse o olhar ambíguo, que suspende para sempre a verdade daquelas relações. Ele vem no contracampo visto da carroceria (provável subjetiva de Ann), quando Jane vira o rosto para ver Tong, mas o mantém no limiar do “rabo de olho olhar para trás”, como se um vetor invisível partisse de sua visão lateral para convocar Ann. Na denotação, ela olha para Tong, mas a mise en scène nunca é pura denotação; pelo contrário, vive das brechas, dos limiares, dos subtextos. Nesse nosso vislumbre sobre Jane, podemos flagrar — se nossos olhos estiverem abertos — a tentativa dela de espiar Ann para saber se é retribuída, se também é olhada. É o último lampejo dessa adolescência compartilhada num slice of life cuja música melodramática soa, por um bom tempo, intrusa.

Então, o melodrama irrompe, pondo abaixo os dias em que a quadra de badminton — enfiada entre edificações precárias — recebia alguma luz do sol. Jane, Ann e Tong habitam esse condomínio de pixações e puxadinhos, destinado a policiais e suas famílias. Cada qual tem seu drama, mas o de Ann é basilar: órfã de pai, ela, a mãe viciada em apostas e os irmãos vivem sob a ameaça de despejo. Contam com a intercessão da mãe de Jane, uma espécie de agiota da vizinhança, cujo marido policial, ao que tudo indica, mantém um esquema clandestino de apostas no local. Esse pai quase completamente ausente é o contraponto ao honesto Tong, que se deixa levar pela amizade com as adolescentes, talvez porque diante delas (e só delas) pareça um herói.

Instala-se uma disputa de pequenos poderes, em que a luta de classes invade a mesma vizinhança e toma maternidades não tão distantes assim. A crise, obviamente, atinge os afetos e afazeres negociados entre as garotas, que, ao deixarem de se reconhecer, são lançadas a um coming of age forçado; não é à toa que a intriga adolescente se transforma numa bola de neve de gente grande, que levanta névoa acerca da natureza daquelas relações (o interesse de Jane por Tong envolve descobrir ou recalcar sua sexualidade? Ann chega a ter com ele uma relação romântica ou nutre simplesmente uma projeção pragmática de garantir um teto?). No alicerce das crises, ou seja, invisível, há uma falência das masculinidades, que vai abrindo as rachaduras entre essa vizinhança, fazendo com que as mães desmoronem sobre as filhas a ponto de sabotarem a ancoragem que elas construíram entre si.

Entre sacadas de cobogós modestos, fios que correm em meadas à vista e parabólicas que despontam petulantes entre o vão dos blocos, a cineasta Jirassaya Wongsutin tece, tijolo a tijolo, essa trama de amigas geniais que perdem um amor possível na tessitura desse bloco de dias em que o céu da adolescência é tragado pela vida adulta. Ann desconta nos vasos, o pouco que há de decorativo naquele ambiente de mulheres suspensas à margem dos companheiros; homens promotores da ordem que, ironicamente, só progridem e saem dali quando agem à beira da lei. Tong nota que esse é seu único caminho quando descobre que o piano da filha existe não por conta dele (e só inexiste quando está no extracampo da chamada de vídeo). Já Jane, quando cai em si, agarra no pulso de Ann e é puxada para a Disney que lhes é possível (numa cena que remete ao final de Projeto Flórida). A bordo de um barco luminoso, tenta retomar a mais brilhante das alianças com um pedido de casamento simbólico. Descobre que vão-se os dedos e ficam os anéis: fecham os olhos juntas, mas quando Jane os abre, Ann, a amiga das cicatrizes ocultas, não a olha mais. Torna-se literalmente invisível nesse filme sobre ver e não ver.