The Bear, a tragédia

por Álvaro André Zeini Cruz

Boa parte do episódio 7 da quarta temporada de The Bear acontece debaixo da mesa de doces de um casamento. Isso porque a filha de Richie (Ebon Moss-Bachrach) se enfia ali para se desvencilhar da dança na festa da mãe e do padrasto; a tentativa carinhosa dos adultos de desvelarem a menina acaba se tornando uma terapia coletiva, onde todos abrem seus medos sob essa inesperada redoma de pano.

Seguindo uma tradição de outras temporadas, o episódio é uma espécie de longa que retira os personagens de The Bear da cozinha do restaurante, obrigando-os a confrontarem uma comunidade estendida de familiares e amigos que escapam à gastronomia. Antecipa e ecoa o season finale, onde essa verbalização dos medos se torna promessa de ação e coloca esse microcosmo de regras, procedimentos e sacrifícios em fervura.

Adeus — nome do episódio — começa com Syd (Ayo Edebiri) às voltas com a notícia de que Carmy (Jeremy Allen White), com quem mantém uma relação de sociedade e mentoria mútua, pretende deixar o restaurante. Ela própria cogitou deixá-lo ao longo da temporada, mas a lealdade a fez ficar e a faz, agora, sentir-se traída. Carmy não demora a aparecer nesse galpão dos fundos, confinamento áspero bem diferente das paredes feitas de toalhas de mesa no episódio 7. Inicia-se então o confronto vococêntrico em que as vozes — as tentativas de cobrança e de explicação — se sobrepõem, numa tensão que assombra toda a cena. Mais do que nunca esse é um episódio de atores e da energia que eles dispõem ao encontrar/encarar o outro (ator e personagem), às vezes, esvaziando-se a si mesmos.

Os planos se alongam e se despojam de qualquer meticulosidade composicional, deixando para trás o voyeurismo clássico e a estilização maneirista. A mise en scène se dá na busca pela ação bruta — às vezes brutal, ainda que nas palavras —, permitindo entender que olhar não significa ver o todo, e que o extracampo não significa ausência; pelo contrário, contém e promete presenças. A câmera oscila em correções orgânicas nessa disputa entre argumentos e rostos, nesse espaço em que nada é degustado a não ser o amargor do cigarro, que, em algum momento, fará Syd tossir.

O drama escala e a ação se redistribui numa marcação triangular quando Richie entra em cena e recebe a notícia. O caldeirão de mágoas faz emergir um trauma da vida pregressa desses dois primos, enquanto Syd se resigna a ouvir, olhar e digerir, mesmo de estômago vazio, só com esse cigarro com o qual não sabe lidar. Enquadrada sob uma angulação de 45°, ela é sempre a face mais exposta da cena, talvez porque — como reconhece o próprio Carmy — seja um ser mais humano, um humano melhor do que ele. Tanto Carmy quanto Richie são rostos ao meio durante boa parte da ação, perfis que entregam o mínimo para que se saiba que se tratam de sujeitos eclipsados, repletos de esconderijos internos (e é desconcertante ver a expressão de Syd, mesmo desfocada ao fundo de Carmy, sublinhada pela nuca dele, que ativa um jogo de velar e desvelar). O diálogo se dilata a ponto de Carmy confessar o que Robert McKee colocaria na esfera do indizível, isto é, o impronunciável encerrado nas profundezas do personagem — ele não sabe quem é para além da persona que perfoma como chef de cozinha.

O entorpecimento de Carmy é contraposto à fúria/frustração de Richie e à sensibilidade de Syd neste episódio árido, de culminância das verdades — cozinhar camufla, cansa e consome. Nesse sentido, dom e esforço se conjugam numa única farsa de alienações, que apontam pequenas tragédias cotidianas, num tempo (ou a uma geração) em que não há promessa de mundos futuros, tampouco louros de dias passados. A pergunta que se instala é: é possível fazer arte, atingir em cheio o sensível alheio, quando não se sente nada? A resposta vem de Syd, que, em sua demanda para seguir — ela não quer, ela precisa de Nat e Richie —, rebate Sartre: o inferno são os outros, mas outros são precisos para que sobrevivamos ao inferno de nós mesmos. Num de seus episódios menos palatáveis, a comédia The Bear lembra que existir é engolir o amargo de cada dia, digerindo-o a palo seco.