Os outros

Voltamos. Depois de um hiato de quase 5 anos. Talvez porque há pouco mais de um ano, vivemos num hiato.

Voltamos por uma vontade egoísta e contraditória, já que é uma vontade que parte das individualidades para ir ao encontro da escrita como partilha, que resulta nesses amontoados de peças que se enroscam. Os textos – esse emaranhado de ideias postas em letras ordenadas (aparentemente) – nos enroscam a outros, sejam eles os outros dentro das telas (que são várias), sejam os outros que leem e/ou escrevem esses jogos de palavras que se lançam nas imagens e sons.

Voltamos porque assistimos (e como nunca, isso tem sido inevitável), e “assistimos” pela duplicidade do verbo, como sugere Christian Metz: como seres que olham e como sujeitos que auxiliam a sobrevivência das imagens em movimento. São imagens que nos iludem, pois encontram um denominador comum entre nós (de carne e osso) e os outros traçados na luz: o fato de que todos nos movemos entre espaços e tempos. Quer dizer, no caso do tempo é ele quem se move, mas esse movimento relativo é ambíguo; mumifica o presente para se esquivar da inevitabilidade do futuro incerto (que, inevitavelmente, virá noutras imagens). Mas esse decalque ilusionista em que as imagens se apresentam como se fossem agora, também lida com o passado, uma vez que há sempre algo de morto; a morte de uma ação, de um movimento, de uma voz (movimento invisível das cordas-vocais), de um corpo que vive como luz, mas cujo referencial, muitas vezes, inexiste no hoje (ou existe de outra forma, com outras marcas).

Voltamos porque, nessa arte dos vivos-mortos e das cápsulas do tempo, o outro se multiplica, se torna outrem. Se o cinema é a arte da alteridade, da natureza do outro, a crítica é a extensão dessa arte e, consequentemente, a renovação dessa alteridade, com a potencialização dos contraditórios, das complexidades. Nesse sentido, a crítica é a vontade de falar com o que está na tela, mas que rebate na superfície bidimensional e acerta outrem. As palavras ricocheteiam no brilho e nos movimentos das imagens. Às vezes, rebatem noutras – nas dos outros ou dos outros que temos em nós mesmos – e se estilhaçam. Mas, de novo, se refazem e se relançam contra as imagens e as crises, porque desejam ser mergulhadoras, ainda que as belas imagens sejam constantemente bravias e as cuspam de volta. E de volta. E de volta…

Voltamos por conta desse movimento vivo dos mergulhos em conjunto, sabendo (e desejando) que os esbarrões, encontros e contatos serão inevitáveis. Porque ampliar as superfícies de contato nos parece uma forma de sobreviver em tempos de distanciamentos que vão muito além dos pandêmicos. Porque, para ir às profundezas, é preciso cruzar o limiar das superfícies, das imagens que ondulam, dos sons que reverberam. Porque é preciso soltar as palavras para que haja alguma possibilidade de que elas se tornem redemoinhos nesse mar das imagens.

Voltando em movimento, Pós-créditos se propõe ao nado livre, sem braçadas pré-definidas e sujeita às barrigadas. Voltamos sem edições fechadas, tateando uma crítica coletiva e aberta à sede e ao fôlego desses nadadores que brigam contra o sedentarismo (mas que estão sujeitos a cãibras). Os editoriais surgirão esporadicamente e de maneira retroativa, tentando dar algum alinhavo às crises, ainda que saibamos das dificuldades da costura com tecidos fluidos, que escorrem entre os dedos. As críticas continuarão transitando do cinema a outros audiovisuais, mas sem as sessões separadas que antes havia; todos os textos estarão numa mesma sessão, que será reorganizada de tempos em tempos. A arqueologia da 1ª fase da revista (2014-2016) pode ser encontrada na sessão “edições anteriores”.

Explicados esses pormenores, resta fazer aqui uma retirada estratégica das palavras, para que elas ressurjam (talvez menos estrategicamente e mais pelos impulsos) nas críticas em si. Inclusive, talvez uma única palavra – um verbo! – bastasse a este editorial:

Voltamos.

Álvaro André Zeini Cruz, Felipe Cruz e Liene Saddi