Morte e vida no jogo das eliminações

por Álvaro André Zeini Cruz

Vivência: 1 O fato de ter vida, de viver; existência. 2 Algum fato ou situação pelos quais se passou e dos quais se tirou algum conhecimento; experiência. 3 Tudo aquilo que se viveu, que faz parte da vida de uma pessoa. 4 Manifestação de vida. 5 REG (N.E.) Conjuntura, costumes ou modo de vida.
Convivência: 1 Ação ou efeito de conviver; familiaridade, intimidade. 2 Reunião de pessoas que convivem em harmonia. 3 Relacionamento entre indivíduos que vivem em comunidade ou em grupo; sociedade. (Michaelis, 2026)

O Big Brother é um reality de con-vivência, ou seja, de manifestações de vida compartilhadas, de “seres-aí” cujo advérbio de lugar se refere circunstancialmente a uma casa-estúdio televisionada. E se a dramaturgia nos diz que não existe personagem sem situação — assim como o existencialismo ensina que não existe indivíduo descolado de circunstância, de “estar no mundo” —, esse “aí” é a força-motriz do programa, afinal é justamente a situação de confinamento regrado que promete friccionar essas vidas e gerar aquilo que nos entretêm e pode, inclusive, nos ensinar — os conflitos.

Há mais de uma década, no entanto, o Big Brother Brasil desconfia desse motor fundamental e inventa uma série de aditivos para que a combustão se dê em “modo turbo” (e para remediar castings ruins). Cabe ao espectador uma fidelidade folhetinesca para entender as regras do jogo, que mudam de semana a semana ou ao sabor do Big Boss. Ah, sim, tudo isso envolve publicidade massiva, seja em videografismos, banners cenográficos ou, mais recentemente, na transmutação constrangedora dos jogadores em influencers de tubos de ensaio, obrigados a laurear a marca que ora os presenteia, ora os assola em provas criativamente — às vezes, eticamente — duvidosas (a assinatura sonora do IFood repetida em looping durante uma prova é inimaginável até a “Eles Vivem”, filme de John Carpenter que faz uma crítica mordaz à onipresença publicitária). 

Recentemente, um outro segmento entrou no campo do BBB: as Bets passaram a deixar uma pequena fatia de seus lucros exorbitantes ao reality, fazendo com que os glamourosos eventos da casa mais vigiada do Brasil sejam, de alguma forma, realizados às custas do endividamento de milhões de outras casas. Em comum às casas — a televisionada e as invisíveis, mas sintonizadas — está o sonho do milhão, esse imaginário de riqueza que, desde que a TV é TV, move games e, depois, realities shows. Num país em que as desigualdades convivem intimamente, a cifra pavimenta a utopia, materializando-a como o sonho da mudança de classe, o trânsito da sobrevivência à vivência. O prêmio é a capitalização financeira, mas também o capital simbólico, capaz de retroalimentar o econômico. No princípio, a jornada a ser superada para tal merecimento envolvia, primordialmente, a convivência entre confinados; agora está alicerçada na competição.

Sim, a competição é do jogo e sempre esteve nele: em provas ou paredões, a confrontação é o limiar que estende ou encurta convivências, relações e autoexposições. A causalidade continua, mas, hoje, os beats que estabelecem ou reforçam concorrências prevalecem sobre os episódios de cooperação; e os esforços para que haja essa prevalência também. Desta forma, o reality se estrutura para expor diariamente pequenos clímaces capazes de incitar microcatarses, desconfiando, portanto, dos atritos orgânicos, das privações afetivas e espaciais (é preciso também privar a nutrição, o sono), dos sintomas provocados pela falta e pelo tédio. É um cenário em que as regras do jogo mudam o tempo todo para que as alianças se tornem escorregadias, eternas enquanto o jogo desejar que elas durem. Os participantes, por sua vez, entram ultracodificados e com certa autoconsciência (esculpida nesses 26 anos) em performances que tentam se torcer entre a persona (da publicidade) e a personagem (da narrativa).

Nesse sentido, se Ana Paula Renault protagoniza o BBB 26 é porque é uma equilibrista que não teme tirar o pé da corda; aliás, sabe que, para o público, jogador equilibrado é aquele que se arrisca, que ora flerta com o perigo, ora com o autosacrifício. Da passagem polêmica em edição anterior para cá, sustentou o capital simbólico adquirido para, agora, reabastecê-lo, aproveitando para também inchar a conta. Por essas e outras, é a personificação dessa década (talvez mais) de BBBs em que a vivência entre diferentes e diferenças deixa de ser o cerne orgânico do programa em prol da competição das coexistências confinadas: de difícil convivência, Ana Paula é a franca favorita num país de jogadores, onde o mito da meritocracia vai incorporando o risco e a audácia como características dessa persona auto empreendedora, ilusão fresquinha a uma turba de iludidos. Quem vê Ana Paula a partir da direita, admira o gênio singular e a jogadora hábil e ignora o fato de que a moça encampa um discurso à esquerda, em defesa do Estado e das minorias; quem vê Ana Paula da esquerda, abraça a pauta e ignora a obviedade de que se trata de uma pessoa privilegiada. Entre contradições, a jogadora desponta de ponta a ponta, e o BBB se consolida como um reality de personas moldadas mais pelo reality do que pela realidade.

A mudança de chave que subordinou a convivência dos brothers à uma competição entre Caim e Abel é demarcada pela saída de Pedro Bial e as entradas de Tiago Leifert e Tadeu Schmidt, dois jornalistas vindos do esporte; e ainda que o formato seja gringo, a crise fraternal se encaixa bem a um Brasil em que os indivíduos se ressentem com os próprios irmãos de classe. Novatas no jogo, as Bets coroam esse tabuleiro em que as peças magnéticas — aquelas que atraem o telespectador e resistem a todas as viradas da tábula — são aquelas que se arriscam numa jornada cartográfica, abrindo os próprios caminhos entre razão e intuição, ainda que conheçam bem os mapas anteriores. Vence o BBB a vida que melhor se torce entre cálculo e autenticidade — valores na boca de 10 entre 10 coaches —, forjada nesse microcosmo quase impermeável de uma realidade moldada, modelada, fingida entre anjos, sincerões e informações privilegiadas. Uma ficção, portanto. Mas, às vezes, nem as ficções são imunes aos fatos.

Em 2026, a morte despontou por duas vezes não em campo, mas em extracampos próximos à casa em Curicica. Primeiro em 17/04, quando faleceu Oscar Schmidt, ícone do basquete brasileiro e irmão do apresentador Tadeu Schmidt. Naquela noite, Tadeu — que, ao contrário de Leifert, nunca quis ser ou se portou como jogador do BBB — decidiu seguir à frente dessa realidade em redoma e homenagear o irmão ao vivo, em rede nacional. O luto real perpassou a modulação das palavras do apresentador — ora firmes, ora embargadas — que justificaram a permanência à frente do jogo: segundo Tadeu, o irmão o ensinou a nunca deixar o time na mão. Principal rosto desse time (composto inclusive por sujeitos sem-face, os dummies), Tadeu cometeu o paradoxo de justificar-se por um bem coletivo num instante que, ainda que televisionado, lhe é individual (afinal, o luto é único). A volta no parafuso é que se trata de um jogo em que as convivências se esquecem do prefixo e seguem como vivências individuais, vividas por figuras que não são como existem no mundo porque 1. estão diante das câmeras; 2. performam a partir do conhecimento de performances anteriores, codificando-se a partir de anos de decodificação do reality. São menos pessoas do que imagens; talvez por isso mesmo encarem o outro não pela alteridade que os une nos dias de confinamento, mas pelo erro fatídico que eliminará a diferença inaceitável da imagem mal lapidada no paredão (a ideia de “paredão” violenta por si só). 

A perda do apresentador — sujeito que sintetiza o jogo, as regras, o Big Boss — somou-se a da jogadora favorita, velha conhecida do público. A dois dias da final, Ana Paula Renault perdeu o pai, e a notícia lhe foi dada minutos antes da última eliminação. Tadeu abriu o programa informando o público de casa com o peso de quem vê a morte invadir com teimosia o entretenimento, palavra cuja etimologia remete a “manter a atenção”. Mas a morte é aquilo que desconcerta, que desconcentra, que desvia a atenção do que está a volta para o único ponto que nos é um futuro em comum. Não há entretenimento possível diante da realidade que une todas as diferenças, tampouco há imagem que lhe faça jus, porque a morte na imagem é sempre transmissão ou reapresentação, portanto, delay ou farsa. Mas a morte no BBB veio de soslaio, no extracampo, aparecendo factualmente como reflexo nos rostos enlutados, que estampam esse outro sentimento/consciência universal. Antes de chegar a nós, a morte se aproxima, nos cerca, e essa foi a verdade mais genuína que o BBB transmitiu em muito tempo.

É verdade que em 2020, a pandemia cercou o Big Brother, mas, na ocasião, televisionou-se mais a perplexidade e a desorientação do que a perda, o luto, a dor; nesse cenário, o reality despontou como um escapismo ao real, uma vez que tornara-se uma realidade paralela e controlada quando tudo, do lado de fora, nos escapava ao controle. Em 2026, a história culmina na perda de um pai (imagem arquetípica) e de um irmão (figura pública), assolando tanto a personagem quanto o intermediário dessa narração cada vez mais intrincada em engrenagens. Não à toa, quando Tadeu Schmidt confessa a Ana Paula seu luto, a câmera faz um zoom para que ele deixe de ser mero corpo mediador naquela tela verticalizada em meio à sala, tornando-se um rosto com o luto estampado. Como nunca antes, o close ocupa aquela tela para mostrar os olhos marejados do apresentador e todas as titubeações musculares. No contracampo, o rosto da jogadora se arreganha nesse fino limiar entre o choro e o riso dolorido, que talvez ria da farsa sustentada até ali, talvez doa pela vida que se esvai fora, mas também dentro. O jogo é suspenso e as performances implodem. O reality encontra um átimo de realidade.

Na noite seguinte, Tadeu deixou de ser rosto para voltar a ser corpo não no telão de LED, mas no sofá da casa, entre Ana Paula, Milena e Juliano, o trio finalista. A queda da barreira entre apresentador e participantes, o luto compartilhado, os abraços, os toques trouxeram uma materialidade rara a esse programa que foi se tornando um avatar de si, um maneirismo, uma distorção que, por si só, carrega pequenas mortes em vida, principalmente através de pequenas torturas (a dinâmica do quarto branco a principal delas, mas não a única) que visam a morte maior no programa — a eliminação. Como resultado, um dos únicos momentos de comoção pela convivência (e não pela competição) e de catarse genuína desta 26ª edição, tão movimentada quanto cansativa, porque sempre havia algo parecendo excessivamente performado, repetido ou cenográfico.

De alguma forma, a intrusão da eliminação incontornável trouxe não só a realidade, mas alguma verdade ao BBB. Lembrou que o programa não precisa ser uma competição entre decalques, entre imagens pré-fabricadas para deletarem outros avatares; pode muito bem voltar a ser um exercício pseudo-voyeur (em concordância com exibicionismo televisionado) sobre essas vidas que, por si só, são interessantes, se bastam, produzem conflitos a partir das diferenças, das visões de mundo, sem que haja necessidade da interferência de baldes de lama, fantasias desconfortáveis ou provas desumanas. Para voltar a mostrar alguma humanidade genuína, é preciso que o BBB retorne ao simples formato de um reality de convivência, com a eliminação como parte do jogo e não o jogo todo. Pois quando um jogo é artificialmente alçado a uma conquista vital, as eliminações se tornam pequenas mortes mentirosas, um faz-de-conta frágil e farsesco que conduz cada um dos teleliminados ao jogo da sobrevivência ou não na memória do público. É a morte da imagem, num programa que, acontecimentos recentes nos explicitam, sofre com a falta de corpo, de rosto, de toque, de con-vivência. Precisou o game over fatídico se infiltrar na casa para explicitar que falta vida e verdade que valha uma espiadinha tão prolongada.