“Palavramundo” aos bravateiros do obscurantismo

por Álvaro André Zeini Cruz

Toda eleição é a mesma coisa (ou melhor, tem sido a mesma coisa): o horário eleitoral e os intervalos comerciais abrem o alçapão dos candidatos que esbravejam contra uma suposta “doutrinação” — a palavra usada é essa — na educação, seja no ensino básico ou no superior. Nesta, por exemplo, há um rapazote, um tal de Lucas Pavanato, que, como uma projeção mais pálida e mirrada do deputado Nikolas Ferreira (que o acompanha, acanhadamente, na peça publicitária), se regozija de “enfrentar” a esquerda nas universidades públicas. Na prática, se trata de mais um desses moçoilos que usam de má-fé a abertura dessas instituições de ensino à comunidade para azucrinarem os que buscam ali um futuro, e não apenas cortes para TikTok. Não é o primeiro, nem o único, tampouco será o último espécime do tipo a aparecer em campanhas, ao menos não enquanto persistir esse (des)entendimento de que a educação existe para e pelo indivíduo per se, e não como construção da compreensão do lugar que esse sujeito ocupa no mundo.

A balela é quase sempre a mesma: além de menos importantes à formação para o mundo contemporâneo (quando, na verdade, não interessam ao mundo que essa facção social projeta), as humanidades seriam disciplinas que impõem ideologias — reduzidas a algo daninho e à esquerda, como se o capitalismo fosse desideologizado —, que, na pior das hipóteses, serviriam de passaporte ao mais insalubre dos ambientes, aquele que subverteria mentes e corações — a universidade pública. Por essas e outras, é preciso desembalar um conjunto de ignorâncias convenientemente maliciosas.

Primeiro, ignora-se o fato de que disciplinas como História, Geografia e Sociologia são consolidadas como ciências humanas e, como tal, fundamentadas no conhecimento científico. Isso quer dizer que, como exatas e biológicas, são matérias embasadas por saberes acumulados, que balizam razão e método para, na dialética problema-pesquisa, contribuírem com novos conhecimentos que sirvam à sociedade, solucionando problemas dos mais diferentes campos. Não se trata, no entanto, de um saber isolado: se a ciência condiciona o raciocínio a uma finalidade, é o conhecimento filosófico quem incita o espírito analítico e indagador necessário às hipóteses (que serão cientificamente provadas ou não).

A ciência, portanto, não é um mundo fechado. Em seus trabalhos, o filósofo da ciência Paul Feyerabend destaca que ela é uma entre outras formas de conhecimento, e que não cabe à ciência pretender-se ou tornar-se dogmática. Até porque o dogmatismo é uma característica do conhecimento teológico, visto que este se sustenta na crença, ao contrário da ciência, que é movida pela dúvida e pela curiosidade. Aliás, etimologicamente, dogma remonta à opiniãocrença ou decreto, significados que, na boca desses “combatentes” das ideologias, parecem se eclipsar ao de doutrina, cuja etimologia é outra — remete a ensinoinstruçãociência. Ou seja, a confusão de palavras acaba sendo um “mal-entendido” usado para acusar docentes e instituições de fazerem justamente aquilo que se espera deles.

O fato desse combo de ignorâncias desembocar numa trapalhada vocabular não deixa de representar um déficit irônico entre a palavra da língua e a “palavramundo”. Sim, é preciso voltar a Paulo Freire, patrono da educação e arqui-inimigo desse obscurantismo orgulhosamente encarnado e escandalizado. Em “A Importância do ato de ler”, Freire costura a linguagem à carne (nossa, do mundo) ao lembrar que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele”. E se a casa é nosso primeiro mundo (o chão do quintal como quadro-negro, diz o professor), cabe à escola, seja de que nível for, derrubar as fronteiras para transformar esse mundo em “palavramundo”, atravessando-o de casa em casa, confrontando plantas (para que os habitantes dos quartos de despejo imponham suas existências aos das casas-grandes) e conjugando vistas de diferentes janelas para que, um dia, os alicerces possam ser refeitos.

É essa premissa freiriana — a consciência de uma educação para além da bancária (hoje, reposicionada para formar “empreendedores”) — que tira o sono desses rapazinhos (desconfio que meio desocupados), cuja fama vem da violência videografada a professores que simplesmente fizeram seu trabalho ao dizerem: há um mundo lá fora. Tudo isso me lembra uma história de Mariana, minha esposa geógrafa, que, ao tratar de desigualdade social num colégio de bacana, mostrou a foto de uma família numerosa diante da casa humilde, e ouviu de uma das crianças: os outros quartos devem estar no fundo. O caráter indicial da foto não resistiu ao sintoma do mundo reduzido, da falta da “palavramundo”. A professora estava ali para reequilibrar o jogo, dizendo “isso existe”. É bem verdade que eu poderia ser essa criança (provavelmente fui), já que o mundo só me alcançou de fato quando eu pude alcançá-lo na universidade pública; e não porque houvesse “introdução ao socialismo” ou “comunismo avançado” na grade, mas porque borbulhava ali um pequeno caldeirão de mundos e, consequentemente, de olhares e ideias que não atravessavam os muros do colégio Seta.

A crise, a complexidade e a diferença são, portanto, inerentes à “palavramundo”. Se o pensamento à direita abastece o capitalismo ao naturalizar a desigualdade (como sintetiza Norberto Bobbio) e é incontornável à educação no mundo em que estamos (traduzindo-se na falácia da meritocracia), é legítimo que a esquerda habite e circule o ensino, pois, além de trazer posicionamentos vivos e sobreviventes, compartilha com a própria práxis educacional essa finalidade social de diminuir as desigualdades, visando um bem para além do indivíduo (“bem” aqui em significado restrito). E se há métodos interditos — aqueles anticivilizatórios, capazes de desmontar a educação e o conhecimento —, não há tema que exista no mundo que não possa ser objeto de estudo: é papel da educação ensinar que a “palavramundo” também dói; inclusive para que, quem sabe um dia, o mundo nos doa menos (ou, pelo menos, que nos doa de maneira mais igual).

Aos bravateiros eleitorais, defensores da Escola sem Partido, pais que censuram educadores e todos aqueles que desconfiam do ensino público (ou qualquer ensino que enxergue um pouco além do mercado), deixo uma provocação: nessa confabulação pela ignorância coletiva, vocês cometem um ato-falho. Digo no sentido lacaniano mesmo, de esboçarem, sem querer, uma verdade inconvenientemente inconsciente. Esse esforço em sabotar o acesso à “palavramundo” carrega duas hipóteses: uma é a desconfiança na capacidade crítica dos próprios filhos, irmãos, amigos — no caso dos pais, essa desconfiança se estende à educação dada no “primeiro mundo” da casa —, como se o contato com o mundo complexo e diverso suplantasse imediatamente toda e qualquer vivência anterior, significando uma adesão completa, irrefletida e irrestrita. A outra, mais abrangente, sugere que as ideologias hegemônicas não são tão firmes assim; e a necessidade de interdição se dá porque, talvez, não resistam ao sopro das ideias, do pensamento crítico e da criatividade conjugada entre olhares diversos. Como disse, são hipóteses; podem ser testadas, provadas ou não. Certamente, não pelos turistas barulhentos que, incapazes de encarar essa jornada, se contentam com visita bravateira, o tour do gozo dos que não conseguem ler nem ver um mundo que não seja o próprio umbigo.