por Álvaro André Zeini Cruz
1. O Percebedor Profissional

Bakuman é um mangá criado por Tsugumi Ohba e adaptado em anime pela NHK. É também uma boa oportunidade para aprender e discutir roteiro — e este é o objetivo deste novo projeto Pós-créditos, BAKUMAN ENSINA ROTEIRO.
Mas o que Bakuman tem a ver com roteiro? (para além do fato de que todo mangá/anime tem roteiro). Bem, a trama de Bakuman é justamente sobre fazer mangás, desenhá-los e… escrevê-los. O traço fica por conta de Moritaka Mashiro — ou, simplesmente, Saiko —, um aluno do 9º ano que, certo dia, esquece o caderno de matemática na sala de aula. Não haveria problema se o caderno de Saiko não estivesse lotado de desenhos de Miho Azuki, a colega de sala por quem Saiko tem um crush. Ele corre de volta à escola, mas…
Tarde demais. Akito Takagi já está com o caderno em mãos e justifica: está com ele porque se senta no fundo da sala. Ele viu quando o colega esqueceu o material, diz que sabe que Saiko gosta de Azuki e decreta — Azuki também gosta de Saiko. E quando Saiko pergunta como Takagi poderia saber de tudo isso, o colega repete a fala anterior: “Eu já te disse. É porque eu me sento atrás”. Na verdade, Takagi sabe do desencontro amoroso porque ele é um roteirista.
Ele se senta ao fundo da sala para observar as ações, os dramas, as vidas que compartilham aquele espaço. Takagi é (como diz Flávio Campos em Roteiro de Cinema e Televisão) um “percebedor profissional”, ou um “colecionador de figuras humanas” (como prefere Doc Comparato em Da Criação ao Roteiro), que exercita o músculo da imaginação através da observação do cotidiano; exercício que Jean-Claude Carrière (em sua Prática do Roteiro Cinematográfico) defende como primordial à função do roteirista. É “o pão nosso de cada dia” do roteirista, resumem Leandro Saraiva e Newton Cannito em seu Manual/Manuel de Roteiro.
O esquecimento de Saiko funciona como incidente incitante (como diz Robert McKee em seu Story) de Bakuman, uma vez que oportuniza esse encontro que disparará a aventura. Takagi faz uma proposta a Saiko: que, juntos, eles se tornem mangakás. Takagi escreve; Saiko desenha. Só que Saiko não tem certeza; dá uma desculpa a Takagi e recusa o chamado à aventura. Contudo, Takagi tem uma carta na manga: ele convence Saiko a ir à casa de Azuki porque sabe de algo mais — que o sonho de Azuki é ser dubladora de animes. A circunstância arquitetada pelo roteirista faz Saiko, o desenhista, agir impetuosamente: confiante, ele propõe que Azuki seja a dubladora do anime que, um dia, será adaptado a partir de um mangá da dupla. Mas Saiko não para por aí — diz a Azuki que, depois disso, podem se casar!
O ímpeto de Saiko revela uma intenção que visa um objetivo externo, pragmático, caracterizado por uma tarefa — escrever um mangá de sucesso que se torne um anime. John Truby (em seu Anatomia da História) prefere chamar isso de desejo, mas ao pedir Azuki em casamento, Saiko revela uma necessidade: ele quer uma vida diferente da do tio, um mangaká famoso que teve que renunciar ao amor em prol do trabalho. A lembrança do tio tem um papel ambíguo para Takagi, já que ele era um grande contador de histórias que não pôde viver a sua própria.
Para a surpresa de Saiko e Takagi, Azuki aceita o pedido de casamento, mas dobra a aposta ao impor um típico sacrifício melodramático: ela e Saiko só voltarão a se falar quando atingirem seus objetivos. É o que o já citado Doc Comparato e Luiz Carlos Maciel (em O Poder do Clímax) chamam de “autossacrifício por um ideal”, o que Saraiva e Cannito definem como uma superioridade moral baseada na renúncia e na “fidelidade ao próprio coração”. E é justamente isso que nos faz sentir empatia e identificação pelas personagens de Bakuman.
Personagens e desejos apresentados, conflito insinuado. Assim começa a jornada de Saiko e Takagi, aquela que desafia todo contador de histórias — preencher a página em branco. Para além das provações de todo autor-roteirista, haverá ainda as pressões externas, que ainda nem começaram. A primeira virá do passado, da memória do tio que assombra a família de Saiko… ah, sim, isto é um gancho. Até a próxima!