Edição 07

Edição lançada em 03/12/2014

Editorial 7

Morreu Roberto Bolaños. Em tempos de Facebook, esse tipo de notícia precisa ser checada, ou corre-se o risco de cair na velha pegadinha da morte de Sérgio Malandro. A repercussão veio com força esperada: as redes sociais se tornaram um looping de tributos à Bolaños e o Chaves deu até na Globo! Não era para menos: são trinta anos de exibição no SBT, ou seja, algumas infâncias foram atravessadas pelo bordão “tinha que ser o Chaves de novo”.

A série é coringa na grade de programação da emissora de Silvio Santos; quando algo vai mal, taca-lhe Chaves! A audiência normalmente responde bem ao humor de Bolaños, baseado na ingenuidade, nas gags e nos afetos entre os personagens (e Miguel Fallabella tem reproduzido uma versão adulta dessa receita com seu Pé na Cova, na Globo). Levando em consideração os conflitos com Maria Antonieta de las Nieves (a Chiquinha) e Carlos Villagrán (o Quico) por conta de direitos autorais, Bolaños parecia bem mais ligeiro do que seu personagem, mas essa é outra história; seu Chaves permanecerá imortal pelas imagens (ainda que sua qualidade esteja, muitas vezes, comprometida) que só se multiplicam: hoje o programa é também transmitido pela Netflix e pela TV à cabo.

O embalsamamento é algo característico das imagens – na fotografia “embalsamava-se” o instante; nas imagens em movimento, o instante é ultrapassado. Não temos só o corpo de Bolaños vestindo suspensórios e o chapéu de orelhas, temos Chaves repetindo incansavelmente seu “isso, isso, isso”. A imagem televisiva, menos potente pela perspectiva do tamanho (não precisamos varrê-la com os olhos, como ocorre na cinematográfica), mas mais potente sob seu aspecto intrusivo, já que invade diariamente nossos lares, guarda esse registro, que hoje pode ser acessado a la carte, on demand. A imagem cinematográfica alinhada ao ritual cinematográfico (a sala escura) potencializa esse registro, nos deixando ainda mais embasbacados.

Me lembro que, numa sessão de Era uma vez no oeste (C’era una volta in West, Itália/EUA, 1968), realizada pela Mostra Internacional de São Paulo, estive ao lado de Claudia Cardinale por alguns instantes sem reconhecê-la. Só quando foi chamada à frente do Cine Livraria Cultura é que tomei ciência de que era a atriz e aí veio o baque – “como o tempo foi injusto”, pensei. Idiotice a minha, claro: o tempo é implacável para todos e não haveria de ser diferente para uma das mulheres mais lindas da história do cinema. Injusto mesmo era o próprio cinema. Ora, que ousadia dessa arte capturar a beleza daquela loura (Claudia estava loura no filme de Leoni) naquele vestido azul-marinho, cujo decote revelava o colo, e nos fazer confrontar essa imagem mais de quarenta anos depois, sabendo que aquela beleza já se desfizera. Um grandessíssimo filho da puta esse tal de cinema, isso sim!

No texto “Morte todas as tardes”, Bazin falava da potência da imagem da morte e do potencial do cinema em manipulá-la. Mas a força das imagens em movimento ultrapassa: não precisamos ver a morte para sermos por ela confrontados; basta vermos o registro desse instante de vida de algo que já é morto – a juventude de Claudia Cardinale, o corpo de Roberto Bolaños. O corpo morto em si talvez já nem tenha tanto impacto: a democratização da realização das imagens mudou um bocado nossa experiência para com elas, e se Glauber foi vanguardista ao mergulhar sua câmera no defunto Di Cavalcanti, hoje sobram selfies ao dos caixões e seu defuntos. A não ser que capte o esvair da vida, a imagem em movimento hoje tem pouco a fazer pelo corpo inerte. Resta, então, retomar o corpo em vida, ser essa caixa mágica que encanta por revelar algo inexistente e, ao mesmo tempo, nos soca o estômago através da mais cruel das epifanias: a de que tudo é efêmero.

***

Nesta sétima edição, Gabriel Carneiro persiste em sua viagem pelo cinema brasileiro e revisita a Vera Cruz ao falar sobre Terra é sempre terra; Marcella Grecco escreve sobre o francês Depois de maio, de Olivier Assayas; Phillippe Watanabe analisa dois personagens professores a partir dos filmes That’s what I am e Half Nelson; e Álvaro André Zeini Cruz fala sobre a temática do sonho nos animes Bakuman e Kuroko no basquete.

Álvaro André Zeini Cruz

editor

Textos desta edição:

“Algo no ar”

“As escolas”

“As terras da Vera Cruz”

“Bakuman, Kuroko e os sonhos”

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