Uma análise simbólica da politização do pastel

por Álvaro André Zeini Cruz

“…vou querer um de… bauru, bauru!” — diz o candidato, enfatizando o sabor e incentivando a falsificação pastelizada do nosso célebre sanduíche, originalmente feito com picles e rosbife, mas, normalmente, corrompido em apresuntado com queijo (sorte a dele não estar na 25 de março, ou Donald Trump sancionaria o candidato). Mas tudo bem, até porque de Bauru, Flávio Bolsonaro só deve conhecer mesmo a rádio Auriverde, essa praga que se espalha entre nossos ubers, mais do que cheiro de pastel quando pega na roupa: menos na de Flávio, que, precavido, sentou-se no banquinho da barraca como uma criança que faz o número 2 em banheiro público sob a advertência da mãe — “não encosta em nada!”.

Sejamos justos: Flávio encosta; aperta a mão do pasteleiro de maneira burocrática, mas, ainda assim, mais orgânica e jeitosa do que a forma como manuseia o copinho de vinagrete sobre a massa frita. Ah, sim, ele não está em Bauru — se estivesse, nossa prefeita provavelmente estaria no story —, mas em São Paulo; “pausa para o pastel com vinagrete”, nos informa o lettering no estilo “VT do Cidade Alerta”. “Vim para São Paulo para comer Bauru”, brinca o candidato, crente de que levaria os demais fregueses ao riso, caso eles estivessem no vídeo.

Não estão: ali, só Flávio e o pasteleiro, que, num dos planos entrecortados, olha para o extracampo, não em direção ao candidato, mas, provavelmente, a um dos dois seguranças com cara de leão-de-chácara, que vazam, vez ou outra, na imagem. De óculos escuros e feições de poucos amigos, os sujeitos se alternam no entorno da barraca entre um corte e outro, como se tentassem delimitar o espaço. A montagem não linear tem como única continuidade o fato de que nenhum outro ser humano invadirá as cercanias da barraca, seja aqueles que, porventura, pudessem ser atraídos pelo cheirinho do pastel, seja aqueles que, sem querer, pudessem se intrometem indevidamente nesse quadro milimetricamente calculado para ser popular, mas sem populares.

Nesse sentido, a presença dos leões-de-chácara é eficaz: não há, por exemplo, a intrusão de nenhuma senhora revirando o lixo da barraca em busca de restos de comida, como acontecia no vídeo em que Rosângela Moro apareceu provando essa nossa iguaria, durante a campanha passada, ao fim do governo do Bolsonaro-pai (cena que trato no texto Uma Análise formalista da politização do pastel). Rosângela (ou Rô, como dizia a estampa em sua camiseta), sejamos justos, é mais expressiva do que o marido (que, hoje, apareceu com a cara devidamente lustrada num vídeo ao lado do Bolsonaro Jr.) e uma stanislavskiana perto de Flávio: Rô mastigou longamente (o que pode significar tanto suspense quanto ambiguidade), até que revirou os olhos e fez um mamma mia com a mão. Flávio aparece mordiscando o pastel uma única vez e assim que a arcada dentária se fecha, o corte editorial muda o plano, impondo uma elipse que transforma em mistério a feição do candidato acostumado a iguarias nível Master. Adiante, Flávio demonstra que, como dizia o pai, é ousado: quebra a quarta parede, olha para a câmera e estende o pastel, com o carisma e o carão de um daqueles modelos que estampavam as capas dos cadernos da Tilibra nos anos 1990; só que sem ser modelo e sem estampar um produto de outra empresa bauruense.

Curiosamente, é nesse close que a genética fala mais alto, em que Flávio mais parece um Júnior, um dublê do pai. A frase, em ato falho, explicita: “uma homenagem ao presidente Bolsonaro, que está com saudade”. Em busca do protagonismo, a clássica cena da lambiscada no pastel acaba revelando Flávio Bolsonaro como dublê do pai, que está preso; ironicamente, um dublê também aprisionado em movimentos mecanizados, desconfortável, talvez por conta da calça social slim e da camisa estruturada, que transmitem pouca naturalidade na barraca de pastel. Talvez porque, ao contrário de Rosângela, Flávio seja filho de um hitchcockiano (perdão, Alfred!), que acredita que ator é como gado. Faz que nem eu, dirige o pai, derrubando farofa no colo diretamente de casa. O close de Flávio Bolsonaro é o “copie conforme” mal conformado, que expõe um filho aterrorizado com a possibilidade de as migalhas de pastel sujarem-lhe a calça cara, paga, como todo o resto, com um Pix de Bolsonaro ou do filme de Bolsonaro (e não “do”, como insinua o senador ao pagar o pastel). Sob o óleo da fritura, com o pastel estendido à câmera (em plena quarta-feira de um trabalhador 3×4), insinua-se o pedido de socorro desse dublê falsificado de azarão, de um Dark Horse feito de queijo e apresuntado.