por Álvaro André Zeini Cruz
Episódio 5×01: Refrigerante
1929. Joris Ivens filma Chuva e a transmutação de Amsterdã numa cidade entre a refração e o reflexo. 2026. Christopher Storer faz sua Sinfonia de Chicago na estreia da 5ª temporada de The Bear, com as imagens escorrendo entre o esgoto e o esgotamento, escoando para dentro, para a cozinha ocupada por manchas de outros líquidos, que atraem o olhar e ativam a memória de Sydney (Ayo Edebiri). A Chef prepara costelinhas na Coca-Cola. Do lado de fora, as bitucas — essas manchas sólidas — entopem um ralo e compõem os acordes dos canos, afinados ao gotejamento eletrônico de Hans Zimmer. A água combina com a textura das paredes da 1ª classe, mas solta sons guturais, até explodir em cor de Coca-Cola por trás de um Paul Rudd de papelão, num depósito em que os utensílios se misturam a uma memorabilia descartável e afetuosa. O fluxo grotesco encerra o episódio aberto por um plano detalhe da couve-de-bruxelas cuidadosamente grelhada. De alguma forma, começamos pelos Países Baixos e vizinhança. Terminamos num Titanic.

Episódio 5×02: Cordeiro
As coisas boiam, mas o jaleco original do The Bear se mantém intacto, a salvo. O colapso físico é acompanhado pelo digital; o aplicativo de pedidos é cancelado porque as contas não fecham. A tempestade escoa números e boletos e, entre eles, os olhares ora atentos, ora atônitos. O de Sydney será central — ela precisa reduzir 15% dos pratos —, mas ela só consegue raciocinar, traçar um plano, quando não é vista; pede que não a olhem ou, simplesmente, fecha os olhos para rememorar aquilo que de mais vulgar, de mais mundano é dito ali, naquela fábrica de obras-primas — fuck you. É pelo palavrão repetido nos atritos e adversidades que Sydney recupera seu espírito e o do grupo, a alma e o olhar da câmera. E enquanto a água suja volta a jorrar, na cozinha, um carré de cordeiro é minuciosamente preparado, ainda que Carmy (Jeremy Allen White) repare um lapso, quase nada perto dos desastres articulados pela montagem em vortex. Do caos, emerge uma foto dele e de Richie (Ebon-Moss Bachrach), como se aquela relação fosse arquetípica, como se a história se impusesse visualmente contra a trama de naufrágio. Nesse jogo de olhares, Marcus espera o pai; quer que ele veja o restaurante, tudo o que construíram.
