por Álvaro André Zeini Cruz

Curioso caso de um filme sobre estilistas que busca o chamado grau zero do estilo; isto é, a invisibilidade de toda e qualquer costura que possa explicitar que todo filme é uma urdidura e que tem suas singularidades (Tom Ford, um estilista em amplo sentido, deveria exigir judicialmente que retirem a menção a ele de um filme tão asséptico). É verdade que a partir do momento em que uma câmera é posicionada o estilo já existe, mas O Diabo Veste Prada 2 se esforça para que não haja um plano-paetê, um movimento fecho éclair, um corte abotoadura. Tudo tem a placidez de estúdios que ornam com a Sessão da Tarde, num filme que desalinhava a moda para tentar falar de jornalismo e de um certo estado das coisas, mas acaba falando de coisa nenhuma. Nem a obsessão pela magreza (Miranda não consegue concatenar o termo “body positive”) estimula que se corte a gordura do romance desnecessário. E desconfio que a cintilância de alguns figurinos seja excesso de açúcar polvilhado, num filme em que o diabo volta agridoce.
Havia duas cenas que David Frankel deveria ter caprichado mais nos croquis para que sua manufatura soasse mais como artesanato do que como linha de produção: a reapresentação de Miranda Priestly (Meryl Streep) ao público e o reencontro dela e Andy Sachs. Na primeira, Frankel até faz um plano detalhe do sapato que remete tanto à capa do livro quanto ao pôster original, mas o esforço tem o mesmo caimento do figurino tectel do magnata Jay Ravits (B.J. Novak), que, segundo Nigel (Stanley Tucci), viraria uma fogueira ao mínimo sinal de fogo. Frankel, no entanto, não se dá ao trabalho de usar o salto para iniciar uma subida vagarosa pelo tafetá do longo vermelho, movimentando-se entre passadas (contrastadas ao tapete azul) até culminar no rosto soberbo de Miranda Streep; ao invés disso, prefere o basiquinho do tilt sem graça, que rapidamente se ergue da cauda ao rosto. O reencontro é ainda mais econômico: mal Miranda senta na cadeira para receber o “compromisso das 9” e Andy/Anne Hathaway desponta porta adentro, como se estivesse numa sitcom — aliás, os planos de estabelecimento (exteriores) de Friends, Seinfeld e Will & Grace compõem uma NY mais vibrante do que a que desponta pelas janelas cenográficas da Runway.
A inclusão dos Ravits — e a subordinação de Miranda a eles — é o que o filme esboça de mais interessante: menos pela trama sobre a crise do jornalismo do que pelo ensaio de um filme de bastidores, uma tentativa de fazer com que O Diabo Veste Prada encontre Succession em um mundo onde tudo são ações (na polivalência da palavra), em que pouco sobra de concreto; e cabe a Emily (Emily Blunt) a última torção do tecido da moda para que a tessitura de uma história se esgarce — resta e importa o agora e o futuro, “que avança sobre nós como a lava em Pompeia”, resume, orgulhoso, o magnata vivido por Justin Theroux, ciente de que sempre será um sobrevivente pronto a comprar o que sobra. Pena que esse vislumbre apocalíptico fique na promessa; O Diabo Veste Prada 2 não tem a agulha afiada de Succession para tramar intrigas de bastidores, que acabam resumidas a sumários narrativos e reviravoltas previsíveis. O que resta? O elenco, que aparenta se divertir de volta aos figurinos usados, ainda que, por incrível que pareça, Streep é quem mais perde com a roupagem flanelada e acolhedora de seu novo Diabo, enquanto Hathaway, Blunt e Tucci (ótimo) têm mais chances (e, por isso, as aproveitam melhor).
Em um comparativo com outros croquis e redações, há mais moda na guerra entre Victor Valentim e Jacques Leclair, em Ti Ti Ti, do que em O Diabo Veste Prada 2 (ok, os figurinos estão ali, mas são pano de fundo, disfarçados em primeiro plano); mais jornalismo (e trapaça) na redação da revista Fama, criada por Gilberto Braga em Celebridade. Analisando o desfile de vinte anos entre as duas peças, a coisa fica ainda pior: Andy resgata seu pulôver azul como resquício material de alguma personalidade própria para terminar esvaziadamente plena na Runway, engolida pelas janelas daquele escritório que poderia ser de Se Meu Apartamento Falasse… (mas nem essa referência Frankel é capaz de trazer). A síntese do discurso é: num mundo em que as IAs tomarão todos os textos, texturas e tessituras, engula seus idealismos, aceite as “pequenas” desumanidades (afinal, é o que resta de humano) e abrace o capeta, que, ao menos, tem algum calor a oferecer. Nem os Rolling Stones tiveram tanta simpatia pelo Diabo.