Reservado

por Álvaro André Zeini Cruz

A mesa é posta na casa de bonecas. Mãos pequenas invadem o quadro para dispor cuidadosamente os pratos, que tilintam e dilatam o lúdico sobre o tampo redondo e esguio. Um casal de bonecos camundongos ocupa seus lugares à mesa sem pontas, mas os dedos infantis são ágeis em estender o convite a brinquedos das mais diferentes espécies. Juntam-se, assim, outros bichos antropomorfizados, magrelas bonecas Barbie e até um “hominho” brutamontes, amontoado num canto da sala superlotada. A mesa, mesinha, torna-se um problema: é estreita demais para acolher essas pessoas da sala de jantar, tão unicamente preocupadas em nascer no mundo da brincadeira.

O celular surge como possibilidade, mas logo se revela um tampo intruso, incabível na divertida comunhão entre tantos diferentes. A outra saída é típica do jogo infantil, que, não se contendo nas coisas feitas para o brincar, empresta (ou melhor, sequestra) outros objetos da casa. A imaginação vira de ponta-cabeça o pote do cachorro, transformando a base num tampo mais justo, mas os bichos que vivem para além da imaginação farejam e têm apego às próprias coisas. O cachorro invade o quadro e a casa, e abana o rabo rente à câmera, quase pondo abaixo, de uma só vez, todas as paredes. É preciso, então, um objeto que seja um pouco de todos e um pouco de ninguém.

São os velhos álbuns de fotografia — com Cherry, Fuji e cia. estampados nas capas — que dão a matéria-prima à nova mesa. Nas fotos, toalhas de barras bordadas testemunham encontros e partilhas que lutam contra o desbotamento; o índice do tempo torna esses objetos meio mortos (porque a fotografia é sempre um embalsamamento) e meio mágicos. O tempo da skholé — o tempo livre, do ócio criativo — ergue-se junto à mesa de álbuns desmilinguidos, sobre a qual será estendida uma toalha, onde repousará a placa-título: Reservado.

Afinal, o que se reserva? A mesa em si, móvel que intermedeia os tantos convidados imóveis que habitam essa diegese ao quadrado (a do filme e a da brincadeira)? Ou seriam as mesas internas, que constituem a fibra das memórias e a madeira da mesa final? Talvez a resposta esteja nos créditos, reveladores da reserva do próprio fazer fílmico, partilhado (salvo engano) entre menina, mãe e tio. Memória que se sedimenta sobre memória. Venceu o Curta Bauru uma mesa posta em família.