O Que vemos e o que nos olha: a louça portuguesa no texto de João Moreira Salles

por Álvaro André Zeini Cruz

Dias atrás, a propósito do curta-metragem Reservado, escrevi sobre a mesa posta na casa de bonecas em uma brincadeira de criança. Quis o olhar e a leitura que, nesse curto intervalo, eu voltasse ao tema, desta vez motivado por uma mesa posta por e para adultos, servindo de acompanhamento ao texto de João Moreira Salles para a piauí.

Certamente, leitores que passaram pelo artigo O que esses brasileiros sabem: sobre o que cada um faz diante daquilo que vê dirão que sou injusto: além de ser o prato principal, o texto do jornalista e cineasta é para lá de bem servido, inclusive dando nome aos bois Nelore, obcecados com um ajuste fiscal que o próprio autor interpreta como cortar na carne dos pobres, nunca no subsídio aos ricos. O fato de nomear esses homens (sempre homens) da sala de jantar foi visto como um ato de coragem do fundador da piauí nas redes sociais. Como me parece relativamente seguro a bilionários esse tipo de bravura, prefiro caracterizar o texto como o bom trabalho de um ombudsman criterioso, por isso mesmo responsável pelo paradoxo bem observado por Roberto Schwarz (“a revista mais à esquerda do país é do Itaú”, disse o crítico numa palestra). Ácido e perspicaz em apontar a cegueira deliberada de seus colegas de classe, o texto de Moreira Salles me será aqui acessório, pois me interessa mais a imagem que o ilustra no topo da página: a mesa minuciosamente arrumada, usando o fundo da página como tampo.

A bancada está posta: sujeitos incógnitos, os nomes expostos seguem, tal como surgem nesses convescotes, sentados no extracampo, ruminando os últimos quatro anos em que não puderam passar na bala suas Bíblias, bancos e boiadas (o que, entre outros avanços civilizatórios elencados no texto, resultou na queda do desmatamento). A carne malpassada será servida sobre a imagem-mesa posta, especificamente no jogo de louças finas de três peças sobrepostas, devidamente ladeadas pela prataria adornada e outros utensílios da coreografia das pessoas da sala de jantar.

À mesa-página, pratos, pratas e cristais estão dispostos e devidamente estampados pelas formas fálicas das balas, metralhadoras e gravatas. Decorativas, essas próteses simbólicas conjugam-se em extensões que conduzem a leitura à culminância dos cifrões nos pratos e talheres, enquanto a taça — objeto da socialização dos brindes — ostenta uma outra organização de elementos, com as armas abrindo-se como asas no corpo-gravata, formando um brasão que levanta voo como a águia do fascismo. As reentrâncias detalhadas beiram o rococó, ao passo que, ainda que os elementos os traiam, os pratos são de louça portuguesa, o que lembra também a curiosidade revelada por Michel Alcoforado em seu Coisa de rico: o poder segue valorizando tudo o que tem descendência da Metrópole.

É verdade que, como aponta Moreira Salles, esses nomes-nelores não hesitam diante de uma nova situação colonial, até porque não se acanham com barbárie. Ouso ultrapassar o autor: são homens que não só passam ao largo do incômodo com citações a Ustra ou Adriano da Nóbrega; são homens que, ao sentarem-se com Jair e Flávio, jantam e se deliciam com aqueles que vêm de lambuja, sejam eles torturadores, milicianos ou banqueiros que usam o patrimonialismo contra a própria bancarrota. E se João Moreira Salles calca seu texto no desvendar de uma operação fetichista de desviar o olhar, de fingir que não vê para iludir-se com outra coisa (será?), a arte da mesa posta em pratos vazios, à espera de tudo o que possa ser devorado, traz a complexidade de que, talvez, a ilusão seja uma performance digna de Cigano Igor, porque o que se encontra à mesa é essa elite mal mascarada, que se quer Cronos, achando que tem o direito de devorar o próprio povo (a sanha contra programas sociais, a batalha pela manutenção da escala 6×1), mas acaba Erisícton, devorando-se a si e as possibilidades de futuro para os seus filhos e netos (principalmente aquelas relacionadas à crise climática, que não se resolvem simplesmente pelo dinheiro). Gente que performa pompa e circunstância, mas, no fundo, gosta mesmo de estraçalhar com os dentes, seja o que for.

Ao expor uma lista dos nomes que sabem e veem, João Moreira Salles faz um texto com aquilo que crê restar a se dar a essas pessoas — algum constrangimento. As seções do longo artigo são separadas pelos objetos da mesa, que parece ir se desfazendo entre as revelações, reflexões e a diagramação, entre o garfo que espeta a carne e a derradeira colher, à espera do sulco, do sangue. Porque, no fundo, é isso que querem esses homens da sala de jantar, que, de vez em quando, mandam bonecos ventríloquos abatidos reclamarem do pleno emprego na televisão: suor e sangue alheios, dos distraídos pela mágica do mérito, dos iludidos da louça da Havan. Emprestando o duplo de Didi-Huberman, pode-se dizer que Moreira Salles usa sua perspectiva para propor um “o que vemos”; e, embora ele se distancie para olhar, é preciso lembrar que ele coabita o lugar dessas pessoas, e que, portanto, é um sujeito que pertence, em parte, ao objeto olhado. A mesa sem bordas, disposta numa perspectiva pouco realista, é feita tanto para ilustrar quanto para ajudar a diagramar, mas, de alguma forma, parece olhar de volta, talvez a todos nós, mas, muito provavelmente, a esses homens que se escondem em jantares e convescotes para decidir o presente da pátria e nunca o futuro da nação. A louça portuguesa é o que nos olha. Como diria Paulo Emílio Sales Gomes, uma situação colonial.