por Matheus Varella Melo – cobertura do Estranhos Encontros Festival Internacional

Direção: Racornelia Ezell
Tudo começa como uma filmagem de família. A casa sendo preparada para o Natal, as crianças circulando, os adultos organizando a chegada dos convidados. Alicia chora enquanto Estelle tenta arrumá-la. A câmera está ali para registrar uma noite que, em princípio, deveria virar apenas lembrança. Mas desde o começo existe uma pequena diferença entre viver aquela situação e saber que ela está sendo filmada.
Durante a reunião, a câmera acompanha os rostos, as conversas e os momentos em que a convivência começa a ficar mais difícil. Os conflitos não aparecem como grandes revelações. Estão nos comentários, nas interrupções, nos silêncios e na maneira como uma pessoa reage à outra. A família tenta manter uma determinada aparência, enquanto a câmera acaba registrando aquilo que não combina com essa aparência.
Existe algo de muito interessante na forma como essas cenas são filmadas. A imagem parece improvisada, com zooms bruscos e enquadramentos instáveis, como se alguém da própria família estivesse apenas segurando uma câmera. Mas essa aparência de acaso vai ficando menos inocente. A câmera escolhe onde permanecer, de quem se aproximar e o que acompanhar. O vídeo doméstico começa a se tornar uma maneira de interferir naquilo que deveria apenas registrar.
Depois que os convidados deixam a casa, a câmera continua. A sala dá lugar ao quarto do casal, e aquilo que antes podia ser entendido como registro de uma reunião passa a tocar diretamente na intimidade. É nesse momento que surge a questão moral mais forte do filme. Até onde é possível olhar para alguém? O que acontece quando uma discussão, uma fragilidade ou um momento de intimidade deixa de pertencer somente às pessoas envolvidas e passa a existir como imagem?
A questão não é simplesmente dizer que a câmera está invadindo a privacidade. O problema é mais difícil. As pessoas também mudam quando sabem que estão sendo filmadas. Uma conversa diante da câmera já não é exatamente a mesma conversa que aconteceria sem ela. Existe uma espécie de negociação silenciosa entre quem filma e quem é filmado. Às vezes essa negociação é consciente, às vezes não. E depois ainda existe a montagem, que transforma aquilo novamente.
A divisão da tela, os sons repetidos e os intertítulos tornam essa construção cada vez mais evidente. O filme deixa de sustentar a ideia de que estamos apenas diante de uma gravação encontrada. A imagem doméstica passa a ser também uma escolha de linguagem. Aquilo que parecia espontâneo possui uma organização, e essa organização determina a maneira como a família será vista.
As crianças tornam essa questão ainda mais delicada. Alicia e Lalo estão dentro daquela casa, observando os adultos enquanto as relações entre eles se tornam mais difíceis. Eles não controlam a câmera e também não controlam aquilo que será feito com aquelas imagens. A infância aparece, então, não apenas como parte da memória familiar, mas como alguém que também é colocado dentro dela sem escolher exatamente como será lembrado.
O ano de 1997 reforça essa sensação. A textura do vídeo, os espaços e a maneira de filmar fazem as imagens parecerem pertencer a uma lembrança antiga. Mas o filme não usa o passado apenas para produzir nostalgia. Ao reorganizar aquelas imagens, transforma a memória em alguma coisa que pode ser questionada. O que parecia um registro de uma noite passa a ser também uma interpretação daquela noite.
É nesse ponto que o filme encontra sua força. Não existe uma separação simples entre realidade e ficção. As pessoas representam porque estão sendo filmadas, mas aquilo que acontece entre elas continua tendo consequências. Uma situação pode ser construída para a câmera e ainda assim produzir algo que ninguém esperava. A imagem pode preservar um acontecimento e, ao mesmo tempo, mudar a maneira como ele será lembrado.
Por isso, a questão moral não está apenas nos personagens. Ela chega ao espectador. Para entender aquela família, é preciso olhar para aquilo que a câmera mostra, mas quanto mais tempo se permanece olhando, mais aparece a dúvida sobre o limite desse olhar. O filme não oferece uma resposta confortável e nem precisa.
No fim, uma filmagem de família deixa de ser apenas uma lembrança de que aquela noite aconteceu. Torna-se uma forma de decidir o que daquela noite continuará existindo. E talvez seja justamente aí que o filme seja mais preciso, ao perceber que filmar alguém nunca é apenas guardar uma imagem. É também escolher como essa pessoa será vista depois.