Gangsterism

por Matheus Varella Melo

Direção: Isiah Medina

Gangsterism é um filme que fala demais. Desde as conversas em torno do protagonista Clem e da tentativa de levantar dinheiro para seu próximo filme, tudo precisa ser explicado, discutido e retomado. A situação central, um cineasta envolvido com dinheiro, criminalidade, produção cinematográfica e o vazamento de seu trabalho, já daria material suficiente para um filme sobre poder e autoria. Mas Gangsterism raramente deixa uma situação se desenvolver antes de transformá-la em discussão.

Isso fica evidente nas várias conversas em que Clem e os outros personagens discutem cinema, financiamento e as condições de produção do próprio filme que estamos vendo. Em vez de deixar o conflito aparecer nas relações entre eles, o roteiro frequentemente transforma essas situações em longas trocas de ideias. A discussão sobre dinheiro, por exemplo, poderia revelar alguma coisa sobre a relação entre os personagens, sobre quem controla quem e sobre quem está disposto a ceder. Mas o filme prefere fazer os personagens explicarem essas relações. O que poderia ser tensão acaba virando exposição.

A montagem segue o mesmo princípio. As cenas são constantemente interrompidas, retomadas, cortadas no meio de uma conversa ou atravessadas por outras imagens e falas. Quando Clem está tentando entender quem está por trás do vazamento, seria natural que a investigação criasse uma progressão, com uma suspeita levando a outra e uma informação alterando o comportamento de alguém. O filme não parece muito interessado nisso. A investigação é menos uma linha narrativa do que uma forma de circular entre discussões e situações fragmentadas. A montagem corta antes que uma cena adquira peso e depois retorna a ela quando aquele peso já foi substituído por outra conversa.

O problema é que a fragmentação, depois de algum tempo, deixa de produzir qualquer sensação de descoberta. Uma fala começa, outra imagem aparece, alguém comenta cinema, outro personagem retoma uma questão política e uma nova conversa começa. A sensação é de estar acompanhando várias situações que raramente têm tempo para se desenvolver. E isso seria menos problemático se os personagens tivessem mais espessura. Clem é apresentado como cineasta e gângster, uma combinação que poderia render uma figura cheia de contradições. Ele deveria estar dividido entre a necessidade de controlar sua obra e a necessidade de sobreviver dentro de um sistema que transforma o cinema em mercadoria, favor e negociação. Só que o filme frequentemente transforma essa contradição em discurso. Clem fala sobre sua situação mais do que sua situação modifica suas decisões ou suas relações. Os outros acabam funcionando de maneira parecida. Eles têm posições muito claras sobre cinema, dinheiro e poder, mas poucas dessas posições entram em conflito de maneira realmente dramática.

Há uma cena ou outra em que essa mistura entre crime e cinema funciona justamente porque as duas coisas aparecem juntas sem precisar ser explicadas. Quando os negócios de Clem se confundem com a produção do filme e a conversa sobre dinheiro passa a ter o mesmo peso de uma conversa sobre autoria, aparece uma ideia interessante. O cineasta precisa negociar sua obra como quem negocia uma dívida. O problema é que Gangsterism raramente confia nesse tipo de situação. Em vez de explorar o absurdo de um homem tratando cinema como uma operação clandestina, logo aparece outra camada de explicação.

O mesmo acontece nas conversas sobre raça, indústria e poder. São questões importantes dentro do universo do filme, mas muitas vezes aparecem como temas que precisam ser nomeados. O filme parece satisfeito quando um personagem formula corretamente um problema. Depois disso, a própria formulação é tratada como aprofundamento. Não é. Dizer que uma relação de poder existe não significa mostrar como ela funciona. Dizer que determinado personagem está preso a uma estrutura não significa construir uma situação em que essa estrutura realmente o coloque contra a parede.

É aí que o pedantismo começa a pesar. Não está simplesmente no fato de os personagens falarem muito ou discutirem assuntos intelectuais. Está na maneira como o filme parece sempre consciente da importância daquilo que está dizendo. Quase toda conversa precisa significar alguma coisa. Até uma discussão banal parece querer se transformar em comentário sobre cinema, política ou sociedade. Há pouco espaço para situações mais simples, para o silêncio ou para momentos em que os personagens simplesmente não sabem o que dizer. Isso também explica por que o filme pode parecer mais profundo do que realmente é. Há muita coisa acontecendo. Clem procura dinheiro, tenta lidar com o vazamento, conversa com pessoas que podem ajudá-lo ou atrapalhá-lo, discute o próprio cinema e se movimenta entre relações em que amizade, trabalho e interesse financeiro nunca estão completamente separados. O material é bom. O problema é que o filme quase sempre prefere discutir esse material em vez de desenvolvê-lo em situações concretas, decisões ruins ou pequenas traições.

A montagem deveria impedir que essas situações se acomodassem, mas acaba tendo o efeito contrário. Depois de certo ponto, a fragmentação deixa de produzir estranhamento porque já virou a forma normal do filme. Uma conversa interrompida não causa muita surpresa quando todas as conversas são interrompidas. Um personagem que desaparece antes de concluir uma ideia também deixa de parecer intrigante quando quase ninguém consegue concluir uma ideia.

No fim, Gangsterism tem questões interessantes sobre autoria, dinheiro, poder e cinema, mas transforma muitas delas em discussão antes de conseguir desenvolvê-las dramaticamente. A montagem fragmenta situações que precisariam de mais tempo, enquanto os diálogos explicam relações que poderiam ser mostradas por meio das ações dos personagens. Clem poderia ser uma figura marcada por conflitos entre cinema, dinheiro e criminalidade, mas muitas vezes acaba funcionando apenas como alguém que verbaliza esses conflitos.