por Álvaro André Zeini Cruz

Abro o Twitter (ou X, como prefere Elon Musk). Duas abas aparecem ao topo: na aba “seguindo”, além de conteúdos sobre cinema e televisão (minha área de formação e atuação), debates progressistas e pró-democracia. Às vezes, no entanto, o Twitter prega a peça de abrir, sem sobreaviso, a aba ao lado, sadicamente nomeada “para você”. É ali que se instaura a brecha para que eu (e, provavelmente, você, leitor) me depare com o antagônico, ou seja, discursos reacionários, narrativas despregadas do factual (às vezes, verdadeiros tratados “delulus”), parágrafos dignos de candidatos ao CCC (como se ainda vivêssemos a Guerra Fria), e as “ias” em sua polivalência: além do Grok — IA da própria rede social, acionada e maleável a torto e à direita —, é possível tropeçar com xenofobia, misoginia, homofobia e cia. disfarçadas de “opinião”.
Neopanóptico, tecnofeudalismo, colonialismo de dados, infocracia. São muitas — nem sempre concordantes, mas não exatamente excludentes — as possibilidades de se pensar a mudança do espaço público contemporâneo através do digital. O filósofo Byung-Chul Han é quem propõe a substituição da ideia de “massa” pela de um enxame feito de consumidores de informação; indivíduos que, conduzidos à suspensão da ação comunicativa, têm sua cidadania neutralizada para se transformarem em “gado eleitoral”. Para Han, a eliminação dos mediadores tradicionais contribui para uma crise da alteridade e da escuta atenta. O Twitter, hoje, talvez seja a rede social que melhor ilustra esse cenário: lado a lado nas abas estão a bolha, o reforço positivo (e narcisista) de certa visão de mundo, e a bolada, o impacto violento desse outro irreconhecível, programado para atingir-nos no fígado, para que nos contorçamos a ponto de, por vezes, não mais nos reconhecermos. Não há meios tons: os algoritmos retroalimentam a polarização, e os meios anteriores, que há coisa de uma década sequer nomeavam essa concorrência emergente, vão caindo como um patinho — e ficando pelo caminho.
A percepção de que as redes sociais ditam muito do conteúdo e da forma da comunicação contemporânea não é nova: aqui e acolá, já li jornalistas formados em outras épocas questionarem essa onda da apuração da notícia feita no on; quase regra nos canais de notícia, que replicam a urgência das redes (o ápice do ridículo é a CNN Brasil, que não titubeia em taxar um GC “Breaking News”). Nosso formato narrativo mais massivo e popular em meio século, a telenovela, não escapa a essa ótica: a audiência importa, claro, mas é preciso que as personagens se tornem Trending Topics, que as cenas virem cortes e capturas a serem pulverizados online. Nessa perspectiva, o remake de Vale Tudo terminou parecendo uma novela vitoriosa ao atingir a máxima “falem mal, mas falem de mim”. Como bem observou Mauricio Stycer, a atual novela das 9, Quem Ama Cuida, faz uma espécie de “antidramaturgia”: “o efeito sobre o espectador, o choque e o impacto que as cenas causam, é sempre mais importante do que a construção do texto”, pontua Stycer.
No livro Videologias: Ensaios sobre a televisão, organizado ainda no alvorecer das redes sociais, Maria Rita Kehl já acusava a imagem televisiva de propor ao espectador “microfragmentos de gozo”, que suspendiam o pensamento e a capacidade crítica. Essa lógica parece se potencializar nas redes, com usuários transformados no que Han chama de “caçadores de informação”, sendo que (segundo Han) a natureza da informação é oposta à da narrativa — uma vive do fragmento e do instante; outra demanda tempo e atenção. Nesse novo mundo em que a atenção é a mercadoria em disputa, pode parecer datado falar da “boa” (nem sempre) e velha TV linear, essa sobrevivente que, paradoxalmente, resiste e fica pelo caminho.
Lanço aqui uma hipótese: a de que a atual (e longeva) crise democrática brasileira se entrelaça ao enfraquecimento do que o sociólogo Dominique Wolton chama de TV generalista. Claro que esta seria apenas mais uma causa-sintoma (difícil de discernir) num momento histórico em que diferentes democracias mundiais titubeiam diante do poder algorítmico das big techs de programar o debate público (inclusive, se calando diante de autocratas e genocídios). É nesse contexto que retomo Elogio ao Grande Público, livro em que Wolton recorta a Globo como estudo de caso desse modelo de televisão aberta, que objetiva se comunicar com o “grande público”, isto é, com a sociedade de maneira ampla, em suas mais diferentes classes e setores. É nesse sentido que o autor defende que a TV generalista desempenha a função de laço social, sobretudo a partir de uma programação plural, que “matricula” o telespectador numa “escola de tolerância cotidiana” ao obrigá-lo a se deparar com realidades e programas voltados ao outro. Ou seja, uma televisão que, apesar dos problemas, programa (alguma) alteridade (nem sempre tão ampla e irrestrita, mas vá lá).
É verdade que o modelo televisivo privado (caso da Globo, empresa dos Marinho) pensa o público antes como consumidor, mas Wolton lembra que o mesmo indivíduo que consome é o cidadão que habita e exerce a democracia; por isso, a grade deve ser pensada como um espaço público diverso e complexo em suas nuances, o oposto do maniqueísmo orquestrado pelas redes sociais. Wolton lembra aquilo que os Estudos Culturais já apontavam: o espectador é um negociador ativo, que retroalimenta com mais ou menos força as novas codificações televisivas a partir do que decodifica. Trata-se de uma agência indireta, intermediada pelos sujeitos-produtores; por isso mesmo, feita com certa celeridade, mas não com imediatismo, e, principalmente, através de um coletivo de mentes e mãos (diferente do cenário atual, no qual Han vê um “murchar das mãos” diante da ação de passar os dedos). Nesse sentido, talvez um dos remédios à democracia seja voltar a pensar a TV generalista a partir de uma codificação que idealize um horizonte de sujeitos em um país continental, isso tudo antes de lembrar que esses mesmos sujeitos são, hoje, dados e mercadoria nas redes sociais.
É nesse sentido que delimito aqui a Globo, não só como caso exemplar e mundialmente reconhecido de TV generalista, como também aquela que, historicamente, melhor consolidou o verso de Chico Buarque — “eu vi um Brasil na TV”. O artigo indefinido “um” é revelador de um Brasil mediado, filtrado e reconstruído pelos códigos do Padrão Globo, mas, ainda assim, um Brasil. Hipnotizada pela dinâmica das redes, a Globo parece ter perdido a noção de seu papel histórico — para o bem e para o mal. Hoje, parece uma emissora a reboque dos acontecimentos, que, entre o dedilhar informacional das redes e o tatear da produção em streaming, esqueceu-se de como se faz TV aberta. Tarda a epifania dessa Vênus Platinada, que se perdeu na tentativa de ser “uma só”, ao passo que era jogada no “lixo” por uma parcela da população que ela própria ajudou a radicalizar entre os agendamentos e “encanamentos” do Jornal Nacional (e que terá dificuldades em recuperar, afinal o Twitter existe justamente para inflamar a bile dessa gente).
É passada a hora de realinhar os chacras do binômio “informação” e “entretenimento”, que Wolton aponta como basilar a esse modelo televisivo que ele defende como mais democrático do que os outros. Para isso, é preciso retomar a programação infantil e dispensar a caretice demagoga do gênero “variedades” (delimitando, quando possível, a atual overdose de sertanejo ao ótimo programa do cantor Daniel); mirar-se em Pablo & Luisão como exemplo de perspicácia e popularidade e lembrar que o Globo Repórter já teve Walter Lima Jr. e Eduardo Coutinho (e que o Profissão Repórter merece mais do que um quadro no Fantástico). Também voltar a alicerçar as novelas na narrativa, entendendo que a catarse não é corte, mas parte de uma construção que envolve investimento emocional, crítico e temporal. Claro, também compreendendo que o agendamento e a viralização online, além de laterais, são sempre suspeitos — afinal, a grande fofoca (lembrando a metáfora de Daniel Filho) é sempre mais inorgânica numa caixa preta gerenciada, sabe-se lá como, para que as pessoas só ratifiquem suas crenças ou espumem de raiva (o meio é a mensagem, diz McLuhan). Quanto ao jornalismo, urge uma transmutação inédita, que interdite de uma vez por todas os discursos “C&C” (certezas e catarses) e as falsas equivalências, e que veja o telespectador não como o “caçador de informações”, porque, para isso, já existem as Big Techs. É preciso, pela primeira vez, idealizar não o consumidor de notícias (“assinante”, como dizem na Globo News), ávido por indignações prontas, mas o cidadão que merece ser visto e retribuído nesse olhar que se dispôs a soltar-se do 9:16 para voltar ao 16:9, para ver o que a televisão tem a mostrar, ouvir o que ela tem a dizer. É preciso, principalmente, um jornalismo que veja o país para além dos interesses empresariais ou dos filtros postos pelas redes. A pergunta de Celso Rocha de Barros sobre a eleição atual vem a calhar: “Como é que a gente trata uma eleição que tá correndo sob ameaça estrangeira? Será que é para gente tratar do mesmo jeito?”.
Mais do que nunca, espera-se uma TV disposta a mostrar e dizer coisas que recobrem a cidadania, capaz de transmutar o sujeito para além desse usuário sequestrado, vislumbrador de imagens na palma das mãos. É preciso retomar a coragem para narrar com ousadia, e criar um pudor singular na hora de agendar e dar a informação, confiando que, do outro lado da tela, há telespectadores ansiosos por “se encontrarem”, compartilhando as crises e a dilatação que elas envolvem, e não a ligeireza das certezas. Talvez seja um caminho para que a Globo, uma das principais TVs generalistas do mundo, volte a ter relevância que tinha e, de quebra, colabore mais do que como sempre, como nunca, com a democracia. Talvez eu deva terminar este texto e partir para a leitura de Poliana Moça.