por Matheus Varella Melo – cobertura do Estranhos Encontros Festival Internacional

Direção: Priscyla Bettim e Renato Coelho
Em As Florestas da Noite, a noite não é só o momento em que a história acontece. Ela muda a forma como os personagens se relacionam com a cidade. Jean anda pelo centro, entra em alguns lugares e encontra uma vidente. Sara chega a um velório. Verónica aparece como guerrilheira. Os personagens entram e saem de diferentes espaços, e esses lugares nem sempre têm uma função definida. Um bar pode ser apenas um bar, mas também pode virar um palco ou um lugar para conversar com alguém que já morreu. São Paulo continua sendo a mesma cidade, mas a noite faz com que os lugares pareçam diferentes.
A divisão em capítulos, cada um com o nome de um personagem, também ajuda a organizar o filme. Jean, Sara, Verónica, Irene. Cada parte acompanha uma pessoa por um momento, mas aos poucos essas histórias começam a se cruzar. Um personagem aparece na história de outro, uma conversa é retomada e alguns rostos voltam em circunstâncias diferentes. Em vez de construir uma história com começo, meio e fim muito definidos, o filme acompanha esses encontros e as situações que surgem entre os personagens.
Jean encontra uma vidente e, de repente, Shakespeare entra em São Paulo. As bruxas de Macbeth estão ali, mas talvez apenas de passagem. Há uma profecia, ou alguma coisa parecida com uma profecia, mas ninguém parece saber muito bem o que fazer com ela. Em Macbeth, o futuro é uma armadilha. Aqui, o futuro parece apenas mais uma coisa desconhecida. Jean escuta e continua andando. É quase como se o destino tivesse perdido a capacidade de organizar uma narrativa.
Depois vem o velório de Irene. Carlos Francisco fala com a esposa morta em um bar. Ela está morta e está ali. Não existe uma grande preparação para o acontecimento sobrenatural. O filme simplesmente aceita a presença dela. Irene dança, ele fala, os dois ocupam o mesmo espaço. A morte deixa de ser o fim de uma história e passa a ser mais uma forma de presença. Um morto pode estar sentado diante de você. Por que não? É nesse ponto que o filme se aproxima de Carlos Reichenbach. Não por uma citação, nem por uma referência que precise ser sublinhada, mas por uma maneira de olhar. Os personagens de Reichenbach também podiam existir nesse intervalo entre o cotidiano e aquilo que o cotidiano não consegue explicar. Gente de bar, gente de rua, gente atravessada pelo desejo, pela solidão, pelo dinheiro, pelo sexo, pela fantasia. O vulgar nunca estava completamente separado do poético. Uma mesa de bar podia conter uma tragédia. Um corpo podia carregar uma história inteira. Uma rua podia ser apenas uma rua e, ao mesmo tempo, alguma coisa maior.
O filme também trata seus personagens de uma forma mais direta, sem fazer com que eles precisem representar alguma ideia. Jean está sozinho, sem que isso precise ser explicado como uma representação da solidão. Verónica é uma atriz que está no palco interpretando uma guerrilheira, e Irene aparece como uma personagem que já morreu, mas continua dançando. O filme apresenta essas situações sem tentar dar a elas um significado fechado.
No caso de Verónica, isso fica ainda mais claro porque ela interpreta uma guerrilheira dentro de uma peça que faz parte do próprio filme. Sabemos que estamos vendo uma atriz no teatro, mas também acompanhamos a personagem que ela interpreta. O filme não tenta esconder essa encenação para fazer a situação parecer real. Ele deixa o teatro e a atuação à mostra, fazendo com que as diferentes camadas da cena apareçam ao mesmo tempo.
Aqui Luiz Rosemberg Filho aparece como uma aproximação possível. Seu cinema desconfiava da ideia de que uma narrativa precisa esconder seus mecanismos para funcionar. A cena podia ser artificial e, justamente por isso, revelar alguma coisa verdadeira. Uma fala podia interromper a ação. Um corpo podia existir diante da câmera sem precisar obedecer à psicologia tradicional. Uma imagem podia estar ao lado de outra sem que o filme explicasse imediatamente a relação entre elas. As Florestas da Noite trabalha nesse mesmo espaço de liberdade. Uma cena não precisa concluir a anterior. Talvez precise apenas permanecer ao lado dela.
Jean caminha. Verónica interpreta. Irene dança. A vidente fala. Zé Pilintra acompanha Jean como uma presença que parece ter saído de outro lugar e encontrado aquela rua. O teatro aparece. O morto aparece. O santo aparece. A cidade aparece. Não há necessidade de escolher entre o real e o imaginário porque o filme parece entender que essa separação é uma convenção que a madrugada pode suspender.
São Paulo também muda quando quase ninguém está olhando. Os prédios continuam no mesmo lugar, mas parecem mais distantes. O Minhocão fica quase vazio. Os bares ganham outra dimensão. As ruas deixam de ser apenas caminhos e passam a parecer lugares onde alguma coisa pode acontecer. Talvez seja por isso que os personagens andam tanto. Caminhar é uma maneira de permanecer dentro do filme sem precisar chegar a algum lugar.
E há alguma coisa de profundamente cinematográfico nisso. O personagem anda porque a câmera ainda está filmando. Ele não precisa encontrar nada. Nós também não. O cinema pode ser esse intervalo entre uma coisa e outra. Uma pessoa atravessa a rua. Outra entra em um bar. Alguém fala sobre a morte. Alguém interpreta uma guerrilheira. Uma mulher morta dança. Depois, outra imagem.
É nessa montagem que parecem não pertencer umas às outras que o filme encontra sua forma. A noite junta aquilo que o dia separaria. O teatro e a rua. O morto e o vivo. O desejo e a solidão. O popular e o estranho. Reichenbach está em uma ponta dessa tradição, Rosemberg em outra, e Bettim e Coelho fazem alguma coisa própria ao colocar essas heranças dentro de uma São Paulo contemporânea que não aparece como paisagem neutra, mas como matéria do próprio filme.
Por isso os personagens parecem sempre um pouco deslocados. Eles caminham dentro dela como quem procura alguma coisa que não sabe nomear. Talvez estejam procurando alguém. Talvez um lugar. Talvez uma lembrança. Talvez nada.
E talvez seja isso que o filme entende sobre a noite. Ela não esconde a cidade. Ela revela uma cidade que durante o dia permanece ocupada demais para aparecer. Uma cidade de pessoas que continuam andando depois que o movimento termina. Pessoas que falam com os mortos, representam outras vidas, procuram desconhecidos, inventam destinos. O dia vai voltar. Os bares vão fechar. As ruas vão encher novamente. Mas durante algumas horas o cinema permanece acordado, olhando para essas pessoas que continuam andando sem saber exatamente para onde.