As Deusas

por Álvaro André Zeini Cruz

Ana (Kate Hansen) nada nua entre as águas lodosas de um riacho em meio à mata. De um ponto mais à margem, Ângela (Lilian Lemmertz), também despida, a olha, cabendo aqui a compreensão de que o ato de olhar vai além do inato ver. A certo ponto da cena, Ana apoia as costas sobre uma grande pedra e olha para cima, em direção ao sol que, atrevidamente, penetra as copas das árvores para respingar-lhe o rosto. Os seios ficam à mostra, sublinhados pela superfície da água, tal qual os olhos de Ângela, que faíscam no contracampo. “Você parece uma deusa”, diz a paciente Ângela, no exercício de uma escopofilia despudorada à psiquiatra, que, por sua vez, responde — não com a voz, mas com a devolução do olhar. Ana desce do céu num abaixar decidido do rosto, que recai firmemente sobre Ângela. Ana não a olha, a mira, como se, consagrada como uma divindade, pudesse escolher salvar ou fulminar a outra. Ledo engano.

Uma vez que Ângela institui essa divindade, ela ilude a outra, elevando-a, no máximo, a uma ninfa. Nesse sentido, Ângela é a verdadeira deusa, a única que pode desmanchar a deidade dada a Ana; e ela o fará. Adiante, a paciente, não se limitando mais a tocar com os olhos a face e a pele daquela que deveria, se não curar, ao menos remediar-lhe a anima (palavra que aparece talhada na casa de praia em que se encontram), a toca também com as mãos. “Eu sempre fico imaginando como devem ser os ossos de uma pessoa”, diz Ângela, antecipando o corte contundente que transmutará a imagem do visível ao háptico. É em um plano detalhe que a mão de Lilian Lemmertz desliza das bochechas ao queixo de Kate Hansen, recortados pelo quadro. A câmera, no entanto, corrige para sublinhar não mais os olhos fulminantes de outrora, mas aqueles que, intimidados ou hipnotizados, escutam a conclusão em extracampo — “embaixo da carne”.

Se o olho endeusa, a mão reconstitui a matéria. Entre as duas cenas, Ana, tal como Alice, persegue um coelho branco pela floresta. Um plano detalhe (outro) revela algo grudado na face do animal, talvez um carrapicho, talvez um parasita. Pouco importa: fato é que o bicho invade e ganha a tela pela forma grotesca, anunciando o lobo que se embrenha entre as árvores, que levará a curandeira da psique de volta àquela casa magnética, inescapável.

A casa é de Ana, mas são Ângela e o marido Paulo (Mário Benvenutti) quem a ocupam como seres viventes, ainda que catatônicos; toda a linhagem da proprietária jaz em pinturas, esculturas e fotografias, além de objetos com plasticidade antagônica à atmosfera pestilenta das paredes, cuja tinta parece ter sido pigmentada com mofo. A mobília em madeira maciça contrasta com a arquitetura moderna e com o pé direito alto, transformando essa casa-personagem numa espécie de catacumba propositalmente arejada, para que o veneno continue a circular entre os cômodos. O duplo de melindrosas — uma pintada, outra cristalizada no topo de um bolo — e um abajur com “olhos de Medusa” constituem uma síntese decorativa dessa casa de uma cor só. Walter Hugo Khouri filma essa casa esverdeada sem que ela nunca seja verdejante, confabulando sombras que formam um degradê sobre as paredes, articulando bibelôs arrepiantes com o farfalhar agourento das árvores em volta. A textura rançosa antecipa o que Lynch viria fazer, o chiaroscuro lembra Tourneur e Christensen (principalmente nas cenas de sexo); os momentos raros — mas precisos — em que espiona de fora remetem a Naruse, que colocava a câmera num afastamento mínimo para que fosse externa, mas continuasse rente às janelas e parapeitos. É nesse espaço que se fazem e se desfazem As Deusas: o espaço de uma casa possuída. Com a alma envenenada.