Análise dos átomos de filosofia presidenciáveis

por Álvaro André Zeini Cruz

Com todo respeito a Fernando Gabeira, achei tímidas suas análises acerca dos slogans da campanha presidencial. Tanto que me deu aquela coceirinha de digitar meus dois tostões sobre isso (quem quiser, que vá atrás do que Gabeira falou ontem no Conexão Globo News).

Comecemos por “O Brasil pronto para mais”. Não um Brasil que ainda se prepara para mais, e, sim, um que já está constituído, consolidado, pronto. O predicativo não só caracteriza, como evoca construções passadas e atuais, inferidas como bem-sucedidas, afinal, o sujeito — o Brasil — está pronto. E para mais, diz o complemento nominal, carregado de uma ambição sadia, aquela que nos faz querer viver, que é sempre mais que sobreviver. Noutras palavras, trata-se de um slogan que afirma um país “gigante pela própria natureza”, e que, naturalmente, não quer parar, nem voltar a parar. Aponta para aquilo que importa a uma eleição: projetar o futuro. Mas faz isso sem deixar de lembrar as construções e reconstruções para que se chegue a esse ponto do pronto. No arcabouço paradigmático, infere-se ainda a ideia de uma nação pronta — no sentido de inteira, completa —, com tamanho e valor de nascença, que, por si só, justificam a ambição do mais. A soberania, portanto, está no subtexto, na arquitetura do slogan de Lula.

“O Brasil vai vencer”. Volta-se ao mesmo sujeito, que conjuga não o futuro simples “vencerá” (que, paradoxalmente, poderia soar entre empolado e ufanista), mas usa a locução verbal, forma mais popular e comunicativa de prever um futuro dado como certo — vai vencer. O verbo vencer carrega a ideia de superação, de “vencer na vida”, e pode servir como um flerte com a teologia da prosperidade. Fato é que falta um complemento: vencer o quê? Ou melhor, a quem? Como não existe texto sem emissor ou contexto, é preciso recuperar que o bolsonarismo se nutre de uma falsa polarização (porque há apenas um extremo) e da ideia de que adversários políticos e inimigos são sinônimos (ouvi isso na Auriverde, num Uber dos infernos). O slogan de Flávio Bolsonaro, portanto, usa o artigo definido para acenar a um Brasil entre muitos: à parcela do patriotismo de panos, cuja visão de mundo maniqueísta constitui inimigos virtuais (invisíveis na frase), cuja operacionalização perdeu os significantes e bitolou-se em significados. Vencer a quem? Ao Brasil que Flávio Bolsonaro não considera Brasil.

“O Futuro é glorioso”, diz o slogan do Partido Missão. E se é verdade que uma missão pode ser vencida, a ideia de vencer parece reles demais a emissores que se têm em tão alta conta. Nesse sentido, usa-se o predicativo glorioso, que remonta a algo “renomado”, “cheio de glória”, descolando-se, assim, do mundo das ações e inferindo sujeitos que se creem acompanhados pelos acordes de Vangelis. O slogan projeta esses sujeitos (homens) sob o sujeito da frase (o futuro), alcançando as imagens desses rapazes patrióticos, patriarcais e filhinhos de papai, que podem estar se referindo tanto ao futuro do Brasil quanto às futuras inscrições dos próprios no grupo Legendários (os que não estão lá). Como o diabo mora nos detalhes, é preciso dizer que “glorioso” evoca “glória”, e deixa assim uma piscadela religiosa e messiânica. Mas o super-trunfo aqui é o verbo de ligação: ao invés de “será”, o que sugeriria um futuro distante, usa-se o presente “é”, o que implica um futuro sendo feito agora e impõe uma urgência no voto. Bem direcionado ao público-alvo. Pode-se até inferir um adjunto adnominal (“O Futuro do Brasil é glorioso”), mas aqui trabalhamos com fatos, e o fato é que o Brasil está ausente do slogan.

“Nem A, nem B, C de Caiado”. Me recuso a comentar.

Em “Redação Publicitária”, João Anzanello Carrascoza define o slogan como um “átomo de filosofia”, que “em poucas e precisas palavras” explica “sensações e conceitos profundos”. Cada slogan cabe ao candidato que tem e vice-versa. Mas só um se desvencilha da pátria para gestar uma ideia de nação.