por Álvaro André Zeini Cruz
As irmãs gostavam quando o pai acelerava ao atravessar as pontes, gostavam daquele solavanco que dava quando os pneus passavam pelos frisos, que, como explicara a professora, serviam para que o asfalto pudesse se dilatar. Naquela noite, no entanto, o pai avisou que não o faria e emendou que ficassem quietas. Irritou-se, principalmente, quando a mais nova leu numa das placas — “fra-ter-ni-da-de”.
A separação das sílabas ditou o ritmo do silêncio e das respirações dentro do carro, que era outra novidade para as garotas. Não chegava a ser desconfortável, mas não era alto nem tinha o banco do outro, que dava para as garotas se deitarem, uma com a cabeça nos pés da outra. Ah, o ambiente, sim, era incômodo, como se o ar cuspisse um pó que pesava sobre os ombros e os dedos no volante. Para piorar, o cinto de segurança incomodava a mais velha, que fora instruída pela mãe a usá-lo. Nada se parecia com a festa de menos de 48 horas antes.
A festa transformara-se numa viagem. Às pressas. As empregadas escolheram o que ia e o que não ia nas malas, que eram parcas. Viajar leve, disse o pai com os ombros curvados. Sem tablets, celulares, nada. Foram com o silêncio, entrecortado apenas pela vibração ignorada nos bolsos dos pais. A mais nova não entendia como tudo aquilo levaria à Disney; já tinham estado lá antes e não havia essa história de ponte. Aliás, mal se via a ponte, tamanho era o breu que se abria e que, ela não sabia — nenhuma delas sabia —, o pai havia aberto como um raio, à bala.
Não viam o rio Iguaçu abaixo, nem a mata ciliar, nem as árvores de copas densas que acenavam de um país a outro. Tampouco puderam usufruir da iniciativa infantil de brincar de imaginar os cardumes e criaturas sob a correnteza d’água, esta, por sua vez, quase invisível, a não ser pelos espasmos de uma lua fraca até para refletir. Não havia estrelas e mal se viam os faróis no contrafluxo. Havia, sim, um som de fogos, mas longínquos, não ali, naquele blecaute localizado, onde o retrovisor e o para-brisa eram nadas em línguas diferentes. O que se sabia era que o rio corria sob a ponte; o que se via era o pai apertando os dez dedos sobre o courino carcomido do volante.
Quando diminuiu a velocidade, as meninas viram os faróis revelarem um guarda de uniforme esbugalhado fazendo gesto para que seguissem. Foram. Para onde? O pai, que já não falava muito, agora falava menos. A mãe, que já falava pouco, agora não falava nada. Naquela despedida desanunciada às crianças, uma bandeira de listras azuis e brancas nem sequer se deu ao trabalho de tremular boas-vindas. Pelo contrário, recebeu-os combalida, como se dissesse: “Passem rápido. Temos problemas demais.”
Passariam, de fato. O pai estacionou no acostamento, atrás de um carro melhor, maior, parecido com os de Brasília. A mais velha lembrou-se da última viagem, quando, de cima, percebeu que a cidade não era mais um avião como aquele em que embarcariam em breve. Desçam, disse o pai, fazendo o abrir da porta soar como um comando. A mais nova deu a mão à mãe e decidiu arriscar: O que é “fra-ter-ni-da-de”?
A irmã tinha essa mania de guardar as palavras, como se quisesse recuperar todas as que faltavam aos homens da casa. A mãe não respondeu; o gato lhe havia comido a língua no dia em que seus documentos mudaram. Agora havia outros, novos, para o caso de precisarem. Ela, a mãe, ajeitou o cinto na mais nova no miolo do carro e embarcou ao lado, no banco de trás, enquanto o pai se tornava passageiro do brutamontes de terno e gravata que ocupava o volante. Uma coisa que Brasília ensina desde criança é que brutamontes não falam nem escutam; o silêncio, portanto, seguiria viagem.
Assim que bateram as portas, o carro de luxo abandonou o da travessia, aquele do passeio noturno que fora quase uma espécie de experiência antropológica. Não longe dali, puderam ver um avião com mais forma de Brasília; a porta aberta como uma língua solta e debochada, quiçá a única da noite. Desceram do carro e seguiram atrás do pai, que tentava firmar os passos. Era hora de a mais velha dizer alguma coisa:
— Quando a gente chegar na Disney, podemos ligar para a Luísa?
A pergunta havia sido dirigida à mãe, mas a resposta veio escarrada pelo pai:
— Você nunca mais vai falar com a Luísa.
Enquanto os adultos seguiam apressados, a mais velha parou por um instante e olhou para a escuridão ao redor daquela pista clandestina, em direção ao ponto em que achava estar o Brasil. Pensou na separação silábica da irmã e na dureza da fala do pai. E, pela primeira vez, detestou a palavra que julgou culpada por tudo aquilo, aquela que salivava da língua do avô à do pai, a ponto de ser dita de boca cheia, de uma vez só.
Poder.
Partiram.