Socorro, Regina George!

por Álvaro André Zeini Cruz

A melhor coisa que poderia acontecer a Rachel McAdams seria um overbooking. Afinal, por duas vezes em 20 anos, ela esteve a bordo de voos turbulentos. No Boeing pilotado por Wes Craven em Voo Noturno, McAdams passou por um sequestro silencioso realizado pelo passageiro da poltrona ao lado — um Cillian Murphy mais destemperado do que o calculista Tommy Shelby, de Peaky Blinders. No jatinho de Sam Raimi, o voo é mais curto, já que um desastre aéreo deixa Linda Liddle (McAdams) e seu chefe Bradley Preston (Dylan O’Brien) à deriva numa ilha deserta.

O clima e a folhagem tropical descartam ilhas sinistras como a de Scorsese, e até poderiam insinuar A Lagoa Azul, mas, ainda que a tensão sexual nunca seja definitivamente extinta, o objetivo de Raimi é fazer uma espécie de Lost a dois, em que as ideologias rivais conjugam rivalidades menos filosóficas do que entre ciência e fé (o que exclui também a ilha de Shyamalan): em Socorro!, não há lugar para metafísica; a vida passada é o escritório onde o patrão-herdeiro exercita um profundo desprezo pela funcionária que considera tão desagradável quanto descartável. A luta de classes se reduz a essa batalha a dois em que a sobrevivente ganha, pela primeira vez, algum poder sobre o bon vivant. A questão é, mais do que nunca, de pura física.

Nesse sentido, o espaço tem uma plasticidade inequívoca: as cores transpiram saturação e as texturas estão à mercê das digitais de Linda, que não mais digita entre mordidas num sanduíche de atum — o patê no queixo, para nojo do chefe —, mas trança, esculpe, constrói. Há também a materialidade movente dos bichos, da barata-d’água mastigada (pelo sujeito outrora enojado com o patê), da lacraia que cruza o quadro na contramão de Linda, do porco selvagem, este sim transformado em monstro, neste filme de horror encapado com a pele da comédia. Ou seria o contrário?

Se Bradley descobre que nenhum homem é uma ilha (de um jeito bem pior do que Hugh Grant em Um Grande Garoto), Linda — funcionária até então dedicada a seus préstimos finais antes da demissão — ganha um aviso prévio nesta ilha paradisíaca (que, descobriremos adiante, é um destino de férias). Sua decisão unilateral por estender esse período passa pelo sonho de estrelar um Survivor (ainda que o reality aqui esteja mais para um “largados e quase vestidos”), mas, principalmente, pelo fato de que Bradley segue sendo o bom e velho chefe. Linda McAdams, a funcionária, negocia tal qual os patrões, ou seja, unilateralmente. Decide, então, revelar-se uma Menina Malvada.

Nós não estamos mais no escritório, diz Linda, que divide com Regina George o fato de que domina um microcosmo para, a partir disso, poder infernizar a vida alheia. A diferença é que a Lindsay Lohan da vez é um homem que nada tem de coitadinho, e a sobrevivência passa a ser literal: sai o laboratório de crueldades da high school americana e entra em cena esse inesperado acampamento de verão para adultos, que submete o bad boy endinheirado à creep girl. Linda assusta em sua revanche, assim como Bradley assusta porque não só é perfeitamente possível, como está por aí entre imagens e scrolls, em Musks, Zuckerbergs, Thiels, Nikolas e Vorcaros.

Socorro! é um retorno de Raimi à boa forma (mas não à plena forma), depois daquela bobagem em que se meteu junto à Marvel. É menos interessante em sua trança de gêneros (nesse sentido, Arraste-me para o inferno é melhor) do que no jogo incessante entre piedade & condenação que tece na nossa relação com os dois personagens. Faz seu Lost com monstros que não são de fumaça, mas de carne e osso, ainda que a imagem de McAdams seja sempre uma questão: quando ela, por fim, olha para a câmera, há o lampejo de Regina George; talvez depois de ter devorado o Cillian Murphy do filme de Wes Craven. De alguma forma, Raimi brinca de Lost não com o cenário, mas com certa persona de McAdams, embaralhada numa personagem que dilata a vivência em arquipélago para, por fim, pontuar-se ilha.