Seleção de Betes

por Álvaro André Zeini Cruz

Em um mês em que só se escuta falar de bets (os jogos da Copa são laterais, quase escanteios), a Pós-Créditos escala uma seleção de boas Bets, isto é, de Betes (e Beths) com valor simbólico, artístico e cultural para contrabalancear a overdose daquelas que simplesmente tomam valores do bolso dos brasileiros. Eis as jogadoras convocadas:

Beth Carvalho
Cantora e compositora brasileira. Considerada a madrinha do samba, ajudou a revelar nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Intérprete de clássicos como “Andança” (1969), “Coisinha do Pai” (1973) e “As Forças da Natureza” (1978), Beth chegou ao final da vida com problemas crônicos de coluna; ainda assim, entrou em campo — ou melhor, no palco — em cadeira de rodas ou deitada. É tema do documentário Andança: os encontros e as memórias de Beth Carvalho (2023), dirigido por Pedro Bronz.

Bete Coelho
Atriz e diretora, com profícua carreira teatral, tendo protagonizado peças importantes de Gerald Thomas. Na televisão, estreou na novela Lua Cheia de Amor (1990) e fez também A Lua Me Disse (2005), o que, numa seleção, pode ter significado astrológico. Ainda na Globo, foi uma das filhas que intitularam a novela As Filhas da Mãe (2001); entre várias novelas no SBT, merece destaque a participação no clássico Éramos Seis (1994). No cinema, pode ser vista no filme Policarpo Quaresma, Herói do Brasil (1998), além de uma participação em Terra Estrangeira (1995).

Bete Mendes
Atriz formada pela USP, ex-deputada e uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores, Bete Mendes foi perseguida e torturada pela ditadura militar; isso quando já havia protagonizado títulos importantes, como Beto (quase Bete) Rockfeller (1968), nossa primeira novela verdadeiramente nacional. Também na televisão, teve papéis importantes em O Rebu (1974, na foto, lembrando Betty Boop), O Rei do Gado (1996) e na minissérie Anos Rebeldes (1992), tendo participado também da preparação dos atores ao relatar a perseguição e a violência sofridas durante a ditadura. No cinema, esteve ao lado de Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri em Eles Não Usam Black-Tie (1981).

Bette Davis
Atriz importantíssima na história do cinema hollywoodiano, lembrada pelo olhar marcante e intimidador (o que pode ser útil numa seleção). Seus filmes incontornáveis são A Malvada (1950), Perfídia (1942) e O Que Terá Acontecido com Baby Jane? (1962), ainda que só seja malvada de verdade nos dois últimos.

Beth Goulart
Atriz brasileira, filha dos também atores Paulo Goulart e Nicette Bruno. Ganhadora do APCA de Atriz Revelação pela peça Os Efeitos dos Raios Gama sobre as Margaridas do Campo (1974) e do Prêmio Shell por Simplesmente Eu, Clarice Lispector (2000). Na TV, começou na Tupi e teve coadjuvantes que roubaram a bola (ops, a cena) em novelas da Globo. No cinema, trabalhou com o lendário diretor Carlos Reichenbach nos filmes Dois Córregos (1999) e Bens Confiscados (2004).

Beth Lago
Modelo e atriz, estreou na televisão em Anos Rebeldes (1992), minissérie sobre a ditadura militar que influenciou o contexto de sua exibição, ocorrida à época do afastamento de Fernando Collor de Mello. Consolidou uma parceria com o autor Carlos Lombardi, sendo uma das protagonistas da novela Quatro por Quatro (1994), e seguindo com personagens importantes em Uga Uga (2000), Kubanacan (2003), Pé na Jaca (2006) e Pecado Mortal (2013). Fez parte da segunda escalação do programa Saia Justa, um dos mais longevos da TV a cabo brasileira.

Betty Boop
Personagem animada, cuja primeira aparição data de 1930, em Dizzy Dishes. O estilo flapper girl da era do jazz fez com que fosse perseguida pelo Código Hays, que por 38 anos censurou o cinema estadunidense em questões ligadas principalmente aos costumes. Betty não se intimidou; pelo contrário, adaptou-se, mas continuou no jogo, a ponto de ser uma personagem reconhecida até hoje.

ElisaBeth Moss
Uma das atrizes estadunidenses mais importantes da cena audiovisual contemporânea, Elisabeth Moss figura em séries premiadas como Mad Men (2007–2015) e The Handmaid’s Tale (2017–2025). No cinema, teve seu primeiro papel de destaque em Garota, Interrompida (1999) e esteve em filmes como O Homem Invisível (2020) e Nós (2019). Na minissérie Iluminadas (2021), fez dobradinha com um dos nossos melhores jogadores de cena, o brasileiro Wagner Moura.

Paulo Betti
Ator, autor e diretor, cuja carreira vai do Visconde de Mauá a Carlos Lamarca. Viveu Getúlio Vargas no controverso Chatô, o Rei do Brasil (2015). No álbum da TV, costuma fazer figurinhas repetidas: por duas vezes viveu o prefeito Ypiranga Pitiguari (em A Indomada, 1997, e O Sétimo Guardião, 2018) e o fofoqueiro Téo Pereira (em Império, 2014, e Três Graças, 2021). Como Joãozinho da Dagmar, previu o fim do mundo na novela que tinha justamente esse título — O Fim do Mundo (1996).

A Festa de BaBette
Baseado no conto de Karen Blixen (A Festa de Babette, 1958), o filme de Gabriel Axel trata de um banquete pago com um prêmio de loteria, ganho com o único bilhete que um amigo de Babette compra para ela todos os anos. Assim, é um filme sobre apostas comedidas, anuais, bem diferente das bets, que viciam os dedos, azucrinam olhos e ouvidos e, muitas vezes, esvaziam mesas.

Bete Balanço
Contra a hipocrisia e a caretice, Bete Balanço tem a alegria que falta a nossa seleção e a malemolência que tem faltado a um Brasil cujo conservadorismo se escancara. A Bete do título é feita por Débora Bloch, uma das maiores atrizes do país desde aquela época.

No banco

Betty, a Feia
Novela latina que virou aquele jogador coringa, o popularmente chamado “pau para toda obra”. Teve versão estadunidense (Ugly Betty, 2006–2010), brasileira (com produção do banco Digimais, digo, da Record TV, em 2009) e até uma “homenagem” numa novela recente (e ruim) da Globo. É tão transnacional que pode servir de reserva a várias seleções.

ps.: Marque seu garoto(a)-propaganda de bets nos comentários; ajude-os a conhecer as boas Bets para, quem sabe, eles parem de prejudicar vidas que não têm bolsos tão cheios.