
Tradução de: LENT, Michael. Pitches. In: LENT, Michael. Breakfast with sharks: a screenwriter’s guide to getting the meeting, nailing the pitch, signing the deal, and navigating the murky waters of Hollywood. 1st ed. New York: Three Rivers Press, 2004. cap. 6, p. 64-76.
Traduzido por Álvaro André Zeini Cruz.
O que é um pitch?
O encontro de apresentação.
O pitch sanfona.
Como não levar uma surra na reunião.
Por que você deve ter sua própria pauta em qualquer reunião.
Como não confundir a fumaça com o bife.
Respostas típicas que você receberá do estúdio.
Por que alguns prazos podem ser miragens.
LEITURA EXTRA: You’re Only as Good as Your Next One, de Mike Medavoy;
O Show Não Pode Parar, de Robert Evans
“Se você não quer ser esquecido assim que partir, ou escreva coisas que valham a pena ler, ou faça coisas que valham a pena escrever.” — BENJAMIM FRANKLIN, “INVENTOR POR CONTA PRÓPRIA”
O QUE É UM PITCH?
Setembro é a época do ano em que nós, roteiristas, nos livramos das cracas e da lama das frustrações e decepções passadas para nos engraxarmos como nadadores de canal para a próxima temporada de especulação, que vai tradicionalmente de setembro até o início de dezembro e do final de janeiro até o final de maio. Isso significa viagens a estúdios e produtoras para envios de roteiros, consultas e pitches. Pitches são reuniões onde os roteiristas são convidados a mostrar suas histórias, seus talentos e a si mesmos para executivos de produção ou estúdio. A seguir, algumas dicas testadas e aprovadas para navegar nessas águas turbulentas.
Ofegante, com os braços gesticulando como hélices partidas, eu estava bem no meio da revelação da minhaincrível complicação do Ato Um quando o executivo sênior do estúdio atendeu o telefone. “Será que ele está convocando o falecido Irving Thalberg para entrar aqui imediatamente?”, pensei. “Talvez estejam verificando quanto dinheiro têm no Grande Cofre Gigante que nós, roteiristas, sabemos que existe justamente para essas situações de lances de emergência.” Não, o executivo instruiu sua assistente a marcar uma reserva de almoço em um badalado restaurante chinês. Em seguida, começou a discar para o resto do estúdio, convidando outros executivos para se juntarem a ele. “Desculpe”, disse ele, piscando para mim. “Esses caras têm um camarão incrível, e está sempre lotado.” Vários minutos depois, o executivo se virou para mim e disse: “Continue. Onde estávamos?” Por que eles fazem isso? Porque podem. É trabalho de um executivo de desenvolvimento ou de um produtor ouvir histórias incríveis em forma de pitch o dia inteiro. Embora não haja justificativa para o incidente acima, esse tipo de comportamento faz parte dos negócios em Hollywood. Dê a alguém esse tanto de poder, e é isso que acontece.
O ENCONTRO DE APRESENTAÇÃO
Se um estúdio gosta de uma amostra de roteiro e quer conhecer o roteirista por trás dela, isso é comumente chamado de “encontro de apresentação” (“meet-and-greet”). O objetivo dessa reunião não é apenas para o executivo descobrir se você tem outras ideias interessantes para apresentar, mas também para determinar “qual é a sua” — isto é, se você é normal e são, ou se espuma pela boca e murmura coisas sombrias para si mesmo. Curiosamente, embora os executivos gostem de filmes sobre lunáticos, eles não querem se reunir com eles — a menos, é claro, que o lunático seja uma estrela de cinema, caso em que o encontro exige jantar e drinques. Sua esperança nesse tipo de encontro é que o executivo o classifique como um roteirista com talento para certos elementos narrativos — por exemplo, cenários vívidos ou personagens fortes. Venha preparado para discutir ou “apresentar” seus outros trabalhos, mesmo que sejam pouco mais que esboços. Seu objetivo aqui é mostrar a amplitude do seu trabalho, bem como incentivar o executivo a aprofundar o relacionamento, seja por interesse em outro projeto seu, ou por meio de um projeto interno já existente na produtora que talvez precise de uma reescrita.
O PITCH SANFONA (THE ACCORDION PITCH)
A primeira coisa que você notará ao ser conduzido ao escritório do produtor ou executivo é uma grande mesa com uma cadeira de designer cara, onde o ocupante já está sentado, geralmente ocupado com seu fone de ouvido. Certa vez, fui trazido bem na hora em que o executivo estava terminando uma ligação com o ator Mike Myers no viva-voz. Se for uma empresa pequena, haverá duas poltronas de couro em frente à mesa. Uma será para você; a outra estará disponível para o assistente do produtor, que poderá fazer anotações, se necessário. Muitas vezes, esses espaços são projetados para projetar os símbolos do poder, com obras de arte originais, prêmios e pôsteres de filmes de sucesso produzidos pela empresa nas paredes. Se você se sentir vagamente desconfortável ao entrar na sala, esse é o objetivo. Você está entrando em um “território” fortemente demarcado por outra pessoa, como um grande felino entrando no círculo do domador de leões no circo. Abafe o impulso de luta ou fuga de pegar a cadeira mais próxima da porta. Em vez disso, se você for destro, sente-se na cadeira da direita, que estará mais alinhada com seu movimento corporal natural e fluxo de energia.
No entanto, se sua reunião for em uma grande produtora ou estúdio, a disposição da sala será diferente. O executivo ao telefone fará um aceno e um gesto em direção à área de conversa separada, composta por um sofá confortável e duas poltronas adjacentes. (Uma empresa para a qual fiz um pitch tinha uma decoração com tema marroquino e todos nos sentamos de pernas cruzadas em almofadas gigantes.) DICA: Não se sente no sofá se puder evitar. Com certeza ele é baixo e macio demais para manter sua postura. Lembre-se de que, como esta é sua reunião sobre seus projetos, espera-se que você seja a pessoa mais enérgica e entusiasmada da sala. Isso será difícil se sua coluna estiver comprimida como uma mola a quinze centímetros do chão. Na verdade, quanto mais rígida a cadeira, melhor você conseguirá manter o contato visual e seu nível de energia. Aqui, qualquer nervosismo seu será confundido com entusiasmo, enquanto os mesmos movimentos no sofá confortável parecerão desespero ou sufocamento no couro.
Depois de um pouco de conversa fiada, seu encontro de apresentação se encaminhará para uma discussão sobre seu trabalho. O produtor pode dizer algo como: “Então, no que você está trabalhando agora?” ou “O que você me trouxe hoje?” Parabéns, você está prestes a fazer um pitch. Você deve responder: “Espere até ver o que eu tenho.” É aqui que seu planejamento e preparação são mais cruciais. Respire fundo, componha-se antes de começar. Talvez crie uma imagem mental de levantar a tampa da Arca da Aliança.
Eu, e muitos roteiristas profissionais, entregamos nossas histórias por meio de uma série de etapas que podem ser expandidas ou comprimidas para se adequar à situação. Essas etapas são chamadas de pitch sanfona. O segredo é começar pequeno, com frases memoráveis e marcantes que permaneçam muito depois de você ter saído da sala, e depois expandir para mais detalhes que darão corpo e distinção à sua primeira impressão memorável.
O pitch sanfona
- Comece com o “alto conceito” (high concept) em uma frase. (Certifique-se de que os principais beats da história possam ser resumidos em três minutos.)
- Expanda para um “treinamento de incêndio” de três minutos, com os principais momentos entregues de forma acelerada, como Walter Cronkite narrando a tomada da Praia de Omaha. Se o executivo demonstrar interesse e fizer perguntas (“Conte-me mais sobre o protagonista. Qual é sua história pregressa?”), comece a introduzir os principais elementos de caracterização. Mantenha as respostas breves e diretas.
- Prepare seu treinamento para ser ainda mais desdobrado em pitches expandidos de seis a vinte minutos — esteja pronto para o que a situação ditar. Se o executivo continuar entusiasmado, conte a ele algumas das subtramas da história. Entregue essas linhas narrativas em tom de “confidencialidade”. Uma contação completa da história, incluindo subtramas, caracterização, alguns momentos secundários selecionados, inspirações pessoais para escrever a história e quaisquer temas particularmente relevantes, não deve levar mais de vinte minutos. Se a linguagem corporal do executivo indicar desinteresse crescente, encerre o tópico imediatamente e passe para o próximo momento principal da história.
- Passe para seu pitch de seis minutos, que deve incluir mais detalhes dos personagens e subtramas. Sua estratégia deve ser dar ao executivo uma ideia bastante completa da história, mas deixá-lo querendo mais, deixá-lo querendo ler o roteiro ou investir em seu desenvolvimento. Firme-se na contação completa de vinte minutos e inclua as histórias de fundo dos personagens.
- Se você for interrompido ou encontrar um olhar vidrado de peixe morto vindo do outro lado da mesa, é hora de encerrar e contrair a sanfona.
Simplificar o trabalho aos seus componentes mais essenciais é fundamental, mas esteja preparado para abrir portas fechadas e fornecer detalhes se for solicitado. Não dá para fingir que está preparado.
COMO NÃO LEVAR UMA SURRA NA REUNIÃO
Nas trincheiras: como relaxar durante um pitch
Ou faço um ótimo pitch ou um péssimo, dependendo da “temperatura” inicial ou da recepção que recebo da sala. Um truque que tenho para me soltar é contar uma história bem breve sobre outra coisa antes de começar o pitch. Por exemplo, minutos antes de uma reunião com uma executiva sênior de estúdio e sua equipe de desenvolvimento, eu estava preso no trânsito atrás de um diretor famoso que dirigia um carro esportivo italiano caríssimo, mas claramente não era um bom motorista, como pareceu indicar o fato de ele ter batido e passado por cima do meio-fio do canteiro central. A história arrancou uma boa gargalhada que derreteu qualquer ansiedade que eu sentia sobre meu material.
Relaxe. Resumindo, o melhor conselho que posso dar é: relaxe. Aqui vai um grande segredo: a maioria dos produtores e executivos sabe, mesmo antes de entrarmos na sala, que a maioria de nós é quase incompetente em relação aos aspectos comerciais do cinema. Durante meses a fio, nos debruçamos sobre cada rubrica e cada trecho de diálogo (“É ‘Hein’ ou ‘Hum’? Deixa eu passar a noite analisando”), e então lutamos para lembrar o nome do nosso protagonista quando estamos na sala de reuniões. Por outro lado, os executivos, por já terem participado dessas reuniões milhares de vezes, exalam uma confiança tranquila ou um tédio distante, conforme a situação os leve a crer. Em outras palavras, eles estão jogando xadrez em três níveis, enquanto nós ainda estamos no jogo Chutes and Ladders. [1]
Conheço um roteirista de primeira linha que chega às reuniões com seu argumento de vinte páginas, digitado em espaço simples. Assim que a reunião começa, ele lê o argumento sem nunca levantar os olhos das páginas, que segura com tanta força que o papel fica permanentemente amassado de suor. Produtores e executivos toleram essa persona de cara nervoso e inquieto porque sabem que ele é capaz de entregar um bom trabalho. Enquanto a maioria de nós recebe apenas algumas exceções em vez de tanta liberdade, acho importante saber que aqueles seres aparentemente conscientes do outro lado da mesa estão preparados para o pior quando nos sentamos para conversar.
Que tipo de roteirista os executivos gostam de lidar?
- Abertos a sugestões de história.
- Otimistas e animados.
- Apaixonados pelo ofício.
- O tipo de pessoa com quem um executivo pode imaginar trabalhando regularmente pelos próximos seis meses.
- Segredo: executivos gostam de “descobrir” roteiristas; portanto, ter uma perspectiva nova sobre o lado comercial da escrita fará você se destacar como o tipo de roteirista que merece ser “descoberto”.
- Dispostos a fazer um esforço extra para fazer um projeto funcionar.
- Ego limitado.
- Nunca fogem dos prazos.
Aqui vai um truque para fazer pitches e reuniões de história correrem mais suavemente: imagine que seu roteiro está impresso em notas de cem dólares. Em outras palavras, você se sentirá muito menos estressado e pressionado se puder se convencer de que, não importa o que aconteça, você não precisa daquele trabalho fantástico nem do dinheiro deles. Lembre-se da máxima budista de que a ação é obscurecida pelo desejo. A verdadeira autoconfiança (ao contrário da bravata, mais fácil de convocar, mas mais transparente) ressoa com os profissionais da indústria e os faz se perguntar o que você pode estar preparando caso eles recusem. Certo. Eu sei: “Boa sorte com isso.” Mas lembre-se: você não está pedindo algo, você está oferecendo algo. Seja um verdadeiro profissional e faça tudo ao seu alcance para garantir que você tem o produto para sustentar sua autoconfiança, mas depois se desapegue emocionalmente dos procedimentos. A falta de confiança vem de sentir que você ou seu projeto é de alguma forma indigno. Em vez disso, prepare-se o melhor que puder; se eles não quiserem o que você está oferecendo, o problema é deles, não seu. Recompense-se gerando novas oportunidades assim que possível — mesmo que isso signifique vasculhar suas agendas de contatos enquanto eles estão pedindo os já mencionados camarões. Pessoalmente, tento manter meia dúzia ou mais de oportunidades em andamento ao mesmo tempo. Dessa forma, nunca pressiono minha escrita para entregar um cheque da loteria naquele segundo exato e raramente sinto a dor de ter todos os meus ovos na mesma cesta.
POR QUE VOCÊ DEVE TER SUA PRÓPRIA PAUTA EM QUALQUER REUNIÃO
Certifique-se de ter uma meta ou objetivo para cada pitch. Por que você está vendo essa pessoa em particular? O que você quer que aconteça como resultado desta reunião? Há alguma maneira de fechar o negócio aqui e agora? Geralmente não. Então, no mínimo, você deve procurar estabelecer um cronograma. Pergunte a si mesmo: o que de tangível você terá ao sair daquela porta? Recentemente, fiz essa última pergunta a outro roteirista. “Contar a história, acho. Ver como fica. Não sei muito sobre esses caras”, foi sua resposta. Lembre-se: produtores e executivos são pagos para participar de reuniões (muitas vezes chamadas de “tempo de face”); infelizmente, você não. O outro lado da mesa participa de reuniões independentemente de estar em condições de comprar algo ou não.
Sua Pauta para uma reunião
- Descubra se os produtores ou executivos do estúdio estão interessados em comprar seu trabalho. Se não:
- Eles estão considerando você para um projeto específico? Quais são os detalhes? Se não:
- O que os produtores ou executivos gostam no seu trabalho?
- Que tipos de projetos a empresa pode estar interessada em comprar agora?
- Há projetos futuros para os quais você possa ser chamado novamente para fazer um pitch?
- Que tipo de material e nível de orçamento o executivo ou produtor considera sua especialidade?
Ter um objetivo para cada reunião força você a fazer sua pesquisa. Para isso, sites inestimáveis como inHollywood.com, imgb.com e 4lists.com listam loglines (cápsulas de uma frase dos projetos) e rastreiam projetos em desenvolvimento de cada executivo de Hollywood que você possa encontrar. Use essa ferramenta para tornar cada reunião mais produtiva. Conclusão: reuniões e tempo de face podem ser importantes, mas não deixe que se tornem um carrossel interminável que não lhe deixa tempo para escrever. Se você não consegue ver o objetivo estratégico imediato da reunião, então não vá. E faça cada reunião ser tão produtiva quanto possível.
COMO NÃO CONFUNDIR A FUMAÇA COM O BIFE
Se o impulso em um projeto imediato e as etapas que impulsionam sua carreira são o bife, então o brilho é a propaganda, as fofocas, etc., ou seja, coisas que podem fazer você perder o foco. As recompensas criativas e financeiras estão intimamente entrelaçadas. A pressão resultante pode ser intensa. Some a isso a natureza colaborativa do cinema e Hollywood pode parecer ser apenas sobre personalidades. No entanto, centenas de filmes ainda precisam ser feitos a cada ano. Egos se chocando como carrinhos de bate-bate é uma realidade desta cidade, onde a política costuma ser brutal. E nesses casos, nós, roteiristas, raramente vencemos. Essa é outra realidade. Portanto, evite colisões de ego a todo custo. Uma vez eu estava em um projeto onde o diretor tinha uma boa relação com o chefe do estúdio e a usou para cortar as pernas do produtor. Esse mesmo diretor usou a mim, o roteirista, como um instrumento contundente para humilhar o executivo do estúdio encarregado da produção. Ele exigiu revisão exaustivas de um projeto que já havia recebido sinal verde. Muitas coisas podem acontecer com uma dinâmica tão intensa, mas a realização de uma obra-prima geralmente não é uma delas. Nesse caso, tudo desmoronou e o projeto foi completamente paralisado. Durante todo o processo, meu principal objetivo permaneceu apenas aguentar firme, para que, quando recomeçássemos, eu ainda fizesse parte do projeto.
As brigas internas turvam a perspectiva. Mais importante, desperdiçam tempo. Como guardião sagrado da espinha da história, é dever do roteirista se elevar acima da situação. Se você for derrubado do cavalo — e às vezes você será, apesar de todos os seus esforços — viva para lutar outro dia. Mantenha-se focado em fazer do seu roteiro o bife mais suculento possível — esse é o seu único objetivo real.
História de pitch
“Estou preparado para tudo, mas também muito nervoso. Não sei qual das minhas ideias apresentar primeiro porque não sei o que eles querem.” O roteirista estava a apenas uma hora de sua reunião de pitch com um dos maiores atores de comédia do ramo quando me ligou. A equipe do ator já tinha ouvido o pitch, mas um acordo não aconteceria a menos que o roteirista conseguisse adaptar o projeto para aquela estrela. “É contra-intuitivo, mas, pelo menos inicialmente, acho que você está lá para ouvir”, eu disse. “Tenha uma ideia do que eles já gostaram no pitch e que tipo de filme a estrela quer fazer antes de você dizer qualquer coisa do seu lado.” O roteirista ligou de volta algumas horas depois, eufórico. A estratégia funcionou e ele vendeu seu projeto por seis dígitos. “Cara, se eu tivesse entrado de sola, teria estragado o negócio”, disse o roteirista.
Ouvir. Funciona.
RESPOSTAS TÍPICAS QUE VOCÊ RECEBERÁ DO ESTÚDIO
Você pode conhecer centenas de executivos ou produtores diferentes em dezenas de projetos ao longo de sua carreira, mas 99,9% das respostas deles podem ser registradas nas seguintes categorias convenientes. Observe que é útil saber o que a resposta que você está recebendo significa em tempo real, em vez de esperar que um intérprete de código Navajo esteja disponível dias depois.
Um Sim Firme ou um Não Firme. “Estamos preparados para fazer uma oferta preemptiva [uma oferta antes que o roteiro seja lançado no mercado para lances concorrentes] hoje.” Ou “Nunca faríamos um filme a partir de um roteiro tão terrível!” Ambas as respostas são raras. Para o “sim”, você deve estar diante de um verdadeiro responsável pelo sinal verde; para o “não”, diante de alguém que se orgulha de sua franqueza. Como ninguém sabe quem pode ter uma ideia de um milhão de dólares amanhã, ou, pior, quem é mentalmente desequilibrado, até os magnatas evitam a resposta negativa contundente. Enquanto isso, executivos muito entusiasmados em defender um projeto específico podem ser demitidos.
Ação para um Sim Firme: Não se preocupe com os valores em dólar. Instrua seu agente e advogado a finalizar os termos do contrato o mais rápido possível, enquanto continua pressionando, solicitando informações de status e detalhes sobre as negociações. Muitos negócios morreram no limbo do departamento jurídico simplesmente porque os regimes mudaram e um contrato não foi assinado. Um negócio só é certeza quando os contratos são assinados e o cheque foi compensado.
Lembre-se: este é seu negócio. Embora um agente possa estar mais preocupado com os valores em dólar, é você quem terá que viver com o contrato que assinar. Ingressos para a estreia, participação durante a produção — incluindo direitos no set ou pelo menos visitação —, um número garantido de cópias de seus filmes em vídeo e DVD, direito de consultoria sobre questões criativas: se alguma dessas questões for importante para você, agora é a hora de garanti-las em contrato. A indústria está repleta de histórias de roteiristas impedidos de entrar nas estreias de Hollywood de seus próprios filmes. Um amigo meu que escreveu um dos maiores blockbusters de 2002 se viu comprando o DVD em uma loja de eletrônicos simplesmente porque não havia estipulado nada no contrato. Pode-se argumentar que ele poderia ter ligado para sua equipe para resolver a questão, mas isso é realmente o melhor uso para um gerenciamento de alto nível?
Ação para um Não Firme: Siga em frente. Rapidamente. Alegre-se por poder seguir em frente sem esperar. Se houver um motivo dado para a recusa, veja se você pode usar a informação para melhorar seu projeto, mas não se detenha no resultado.
O Talvez Firme. “Eu amo tanto isso que vou mostrar para o Stan [VP, chefe de produção] hoje à tarde!” O executivo está genuinamente animado, mas precisa do restante de sua equipe a bordo. Você pode construir algo tangível a partir disso. Estabelecer um cronograma para o progresso é um bom começo, assim como receber notas substanciais para resolver problemas e fortalecer o projeto enquanto espera o resto do estúdio entrar no acordo. Muitos roteiristas se recusam a agir de acordo com essas notas. Eles sentem que estão perto de seu objetivo, então fazer “trabalho gratuito” significaria fraqueza ou desespero. Essa atitude é um grande erro. Para começar, boa parte de Hollywood é o jogo do “apresse-se e espere — agora VAI!” O verdadeiro desespero vem de um roteirista que ficou ocioso por algumas semanas esperando uma resposta, que volta com: “Parabéns. Você conseguiu o trabalho. Pode fazer as mudanças que discutimos, bem como as novas, até o final da próxima semana?” Mesmo quando o Talvez Firme se desfaz em um Não Soft — e muitos se desfarão —, um roteirista que recebeu e executou as notas (também conhecido como “desenvolvimento gratuito”) está em uma posição forte para enviar o material fortalecido a um concorrente.
Plano de Ação: Seu agente deve ser seu posto de escuta enquanto espera a decisão. Verifique com seu agente frequentemente por telefone e e-mail; ele, por sua vez, deve conversar regularmente com o produtor e/ou executivo.
O Sim Soft. “Eu adorei. Só que não temos um fundo discricionário [dinheiro que uma produtora baseada no estúdio tem de reserva para comprar ou opcionar projetos sem a aprovação do estúdio]. Mas faça essas mudanças e volte daqui a quatro meses para conversarmos.”
Plano de Ação: Faça as mudanças se você concordar com elas, sabendo que talvez você volte em quatro meses e talvez não. Suas chances de fazer negócios juntos serão maiores se a produtora tiver um histórico comprovado de realização de filmes.
O Não Soft e o Talvez Soft. “Este projeto não é 100% certo para nós agora. Mas as coisas podem mudar; eu gostaria de manter contato e possivelmente retomar esta discussão em uma data posterior.” Ou “Este é um roteiro muito inteligente. Você certamente conseguiu colocá-lo no papel. Eu adoraria fazer um filme de prestígio como este.” Ambas as respostas são um “não”, mas soam como “Uau! Talvez!” Ambas são projetadas para tirá-lo da sala sem ferir seu ego ou elevar sua pressão arterial. Dependendo da habilidade do usuário e das circunstâncias, a resposta é de liberação retardada, e o reconhecimento varia do saguão do elevador imediatamente após a reunião até duas semanas depois, quando suas ligações não são mais atendidas.
Plano de Ação: Parabenize-se por ter entrado pela porta, mesmo que para uma recusa. Envie uma nota de agradecimento pelo tempo do sujeito que tomas as decisões. Expresse o quanto você valoriza suas opiniões especializadas, juntamente com seu desejo de que, no futuro, vocês possam trabalhar juntos. Seu objetivo é causar uma boa impressão mostrando sua disposição para lidar com a rejeição e para trabalhar na melhoria da sua escrita, mesmo enquanto cultiva este novo relacionamento. Para isso, adicione o tomador de decisão à sua lista de contatos, acompanhe seu progresso nos jornais da indústria e envie parabéns sempre que algo notável ocorrer.
Você e seu ofício estão sempre em construção. Assim, cada interação — mesmo as mais enigmáticas — são trampolins para construir o tipo de carreira que você deseja. Para isso, tente sempre projetar as seguintes qualidades em cada reunião. Você é:
- inteligente
- divertido
- entusiasmado
- fácil de trabalhar
- dedicado a melhorar seu ofício
POR QUE ALGUNS PRAZOS PODEM SER MIRAGENS
Roteiristas profissionais logo descobrem que a pontualidade e a boa narração de histórias muitas vezes estão em conflito. Isso porque os prazos são cruciais para transformar um roteiro em filme; no entanto, para o roteirista, é mais imperativo obter um roteiro bem estruturado, com enredos convincentes e lógicos e personagens bem desenvolvidos que tenham arcos (mostrem crescimento pessoal como resultado de suas experiências). A maioria de nós, roteiristas, precisa da disciplina dos prazos. Mas muitas vezes você corre para cumprir um prazo arbitrário, como a leitura de fim de semana, para terminar um rascunho que às vezes ninguém lerá por semanas. A solução é escrever todos os dias, mas sempre ter em mente que você sobrevive aprendendo a controlar seu ritmo. Não prestar atenção a essa verdade pode levar a uma vida fora dos negócios; o efeito cumulativo é a morte por mil cortes em sua carreira, através da perda de perspectiva e do consequente desencanto.
Bom roteirista…
- não tem problemas com reescritas
- está disponível para trabalho de última hora no set
- cumpre seus prazos sem alarde
Mau roteirista…
- tem uma atitude cínica
- está “indisponível” quando o estúdio precisa de uma reescrita com urgência, mas de repente fica “disponível” quando o estúdio oferece uma quantia substancial de dinheiro; ganha a inimizade do executivo e do diretor
- perde prazos e faz seu agente lidar com a situação resultante
O início da temporada de especulação (“spec season”) em setembro sinaliza uma renovada esperança e vigor para a temporada de desenvolvimento que se aproxima. Mas todos sabemos que esta é uma cidade difícil, com uma agenda difícil, análoga a virar um porta-aviões no meio do oceano, como disse um diretor experiente. Diante de tanta dificuldade, os melhores de nós nos vemos como estudantes do processo. Lembramos sempre que o processo de incubação de ideias em filmes pode ser longo e não está sob o controle de nenhum de nós. Tudo o que podemos fazer é colocar a caneta no papel, os dedos no teclado. Embora pensar que controlamos Hollywood seja ilusório, podemos permanecer alertas para potenciais padrões e para os objetivos dos outros. Então, nosso trabalho é ler corretamente e aproveitar ao máximo as oportunidades que nos são apresentadas.
[1] Nota do tradutor: jogo de tabuleiro infantil; no Brasil, chamado de Cobras e Escadas.