O Rei do Gado e outras histórias de fantasmas

por Álvaro André Zeini Cruz

Francisco Augusti — para nós em casa, tio Fran — era quem, de mais próximo, eu conhecia com algum vínculo com a televisão. Amigo de Fausto Silva dos tempos em que trabalharam no Estadão, tio Fran foi redator do finado Domingão e era com quem eu podia conversar “seriamente” sobre TV, numa infância de domingos aguardados não devido ao programa do amigo do meu tio, mas por causa do Telejornal, suplemento do mesmo Estado de São Paulo, que trazia os resumos das novelas. Foi tio Fran — cujo vínculo, desconfio, era mais com Faustão do que com a Globo — quem me conseguiu o press kit caprichado da novela que, na época, eu acompanhava com entusiasmo; por anos, guardei com cuidado aquele impresso com gramatura espessa e logotipo texturizado na capa, até desaparecer em alguma mudança. Foi, portanto, a ele quem confiei (e, desconfio, azucrinei) a tarefa de gravar os capítulos finais, cujo destino — esse fator melodramático implacável — quis que coincidissem com uma viagem familiar; uma viagem internacional, quase duas décadas antes de a Globoplay ser lançada. Graças a tio Fran, pude ver o desfecho de O Rei do Gado. Com um porém: em preto e branco.

Marshall McLuhan pode nos ter ensinado que os meios são extensões do homem, mas, às vezes, os meios estendem-se mal uns aos outros. Por alguma incompatibilidade entre sistemas Pal-M e NTSC (não sei se na gravação ou na reprodução), a trama de Benedito Ruy Barbosa findou para aquele garoto de 8 anos sem as cores. Paciência: cavalo dado, não se olha os dentes ou quem não tem cão, caça com gato. O Rei do Gado que estava a meu alcance — naqueles dias em que A Indomada já tomava o horário nobre — não cavalgaria dourado na abertura, e até teria a “luz que perfumava” (assim descrita por Luiz Fernando Carvalho), mas não o amarelo que dava à novela tons de terras e retratos passados. No videocassete de casa, aquela trama sobre um passado que habita um presente familiar ganhara ares de filme antigo, desnovelando um desafio inédito a partir desse marcador estilístico intruso. É como se a novela dobrasse a aposta: “vamos ver se você segue até o fim essa história sobre uma cerca com mais este arame farpado, seu pirralho”.

Se a metáfora visual do novelo é recorrente à telenovela, talvez o emaranhado de arame farpado caiba melhor às de Benedito. Afinal, é a partir dele que se desenrolam as disputas de terra em tramas como esta, sobre uma cerca que se move, ora comendo um naco dos Mezenga, ora dos Berdinazzi. Renascida dos dois títulos que a precederam, O Rei do Gado expande suas cercanias para o interior de São Paulo e o de Minas Gerais, Brasília — a capital cravada no meio do Brasil — e até as margens do rio Araguaia, passando ainda pela Itália, posta tanto na vida pregressa quanto numa viagem de retorno. Estende também — e mais do que nunca — seus limites temporais entre a Segunda Guerra Mundial e os anos 1990, propondo ao plot de “Romeu & Julieta” uma outra volta do parafuso: a paixão proibida entre vizinhos se torce nas distâncias de um país abismal para se reencontrar no amor entre o empresário do agronegócio e a boia-fria que se torna sem-terra. Apaixonado por essa mulher sem passado, sem destino, sem mesmo nome, o Rei tem a vida nas mãos desta que será a única capaz de encontrá-lo quando a materialidade do mundo se revelar metafísica — Deus de Spinoza, como dizem os padres de Renascer — ao engolir o homem físico e revelar a farsa deste ou de qualquer reinado.

Bruno Mezenga (Antonio Fagundes) é tragado pela mata, obrigado a se nutrir dos bigatos. Antes, no entanto, o plano físico primordial — a unidade espaço-temporal que compreende as cabeças de Antonio Fagundes e Tarcísio Meira contrapostas — pariu uma história de transmutações e fantasmas: entre os tempos dessa serpentinata shakespeariana, os cafezais transformam-se em gado de leite ou de corte, Fagundes vive o avô e o neto, Glória Pires interpreta Marieta duas vezes (dentro e fora da diegese) sem nunca sê-la, enquanto Patrícia Pillar se descobre e se revela a verdadeira no desenrolar desse arame que ora arranha a garganta, ora a alma. Entre os corpos que caem, figuram as personificações de utopias — o senador que entende Marx sem lê-lo, o líder sem-terra que vive Marx sem conhecê-lo —, mas as ideias seguem espirituais, prontas a ocupar outros corpos. A única tentativa de reatribuir a alma à matéria (de renascer o ritual do Bumba ou do Jequitibá) envolve justamente um corpo irrecuperado, substituído pela medalha plantada em meio ao cafezal. Giuseppe (Tarcísio Meira) planta o objeto que representa o Bruno primeiro e perdido, esperando que a medalha se transmute em semente e que a terra lhe devolva o filho; assim a terra alimentaria não só as necessidades do corpo, mas a carência do espírito — e, até hoje, a cena me arranha a garganta e a alma de uma só vez. Mas o Bruno que nasce é outro, e O Rei do Gado se encaminha para o desfecho como uma novela de almas perdidas, que reaparecem nessa reta final. Em preto e branco.

Naquele tempo em que a televisão ocupava boa parte das nossas vidas, o garoto de 8 anos, que aprendeu com Geremias Berdinazzi a falar “caspita” (até levar uma reprimenda dos pais), usou o videocassete para suprir uma ausência corpórea. Deu de cara com essa dupla história de fantasmas, já que, tal qual nos causos contados pela avó, Mezengas e Berdinazzis mortos retornaram à velha fazenda para estarem junto aos vivos; e só mesmo a dramaturgia para materializar esse espírito preservado, que nos acompanha a cada instante, chamado passado. Mas, além disso, havia esse outro fantasma de imagens entre a sombra e a palidez, dessa novela recém-morta que revivia sob um véu tão intruso quanto insolente. É como se, ao parecerem com as imagens de um filme antigo (não sendo como deveriam) dissessem: “eu posso ser quantos fantasmas quiser. Eu posso te assombrar pelo resto da vida”.

Como já narrei noutras oportunidades, Renascer me foi uma espécie de lampejo primordial, cuja persistência retiniana foi capaz de atiçar uma curiosidade duradoura, que me fez querer buscá-la e desvelá-la insistentemente. O Rei do Gado habita outro lugar. Habita não, circula, como uma novela fantasmagórica, cujo descolamento das camadas, a ausência das cores, culmina justamente nesse fim com uma casa assombrada feita em imagens fantasmas. É como se, na reta final, a novela testasse: “por quanto tempo você consegue encarar um fantasma, garotinho? Até crescer e se tornar adulto?”. Essa novela-aparição carrega uma revelação que, por sua vez, pressupõe o antes, o corpus imagético que antecede esse véu pálido realizado por um erro tecnológico. Mais do que uma confrontação (como a das cabeças), essa separação circunstancial remete a existência a uma experiência maior, uma imersão totalizante, talvez a grande singularidade dessas novelas de Benedito Ruy Barbosa, tecelão de tempos e territórios. No penúltimo capítulo, Geremias Berdinazzi, na pele do genial Raul Cortez, diz: “eu ainda sinto o gosto da terra na sola do meu pé”. A frase sinestésica é reveladora: o ser não está naquilo que toca, mas em tudo o que já foi tocado. E Benedito sabe bem que nada já foi mais tocado do que aquilo que já foi pisado, do que a terra sob nossas solas, base dos corpos-formas e das cores-fantasmas.

Para Benedito, tudo é corpo e fantasma, mundo e mistério. Toda e qualquer cerca que se puser entre isso é pura ilusão e artifício.