por Álvaro André Zeini Cruz

Michelle foi à luta. Compôs um cenário cheio de signos ávidos pela leitura semiótica (já feita à exaustão durante a semana) e, por 27 minutos, expôs a pseudoepifania de que o bolsonarismo tem suas bases no patriarcado. Casada com Jair, Michelle, obviamente, sempre soube que, sob os porões do machismo, há esse alicerce arcaico e colonizador, que uma verdadeira feminista como Donna Haraway aponta justamente como um dos principais nutrientes dados ao capitalismo. Não, Michelle não descobriu agora que é peça de uma estrutura patriarcal, até porque, ao longo de seu discurso — feito de micronarrativas — ela não tenta implodir essa força, tampouco a rejeita; faz, sim, uma concessão a certo recorte terminológico vinculado ao feminismo para sustentar essa demonstração de empoderamento, materializada no vídeo que confronta a imagem do Bolsonaro que, segundo a imprensa, saberia empunhar garfo e faca. O problema, segundo a ex-primeira-dama, é que Flávio Bolsonaro estaria usando as ferramentas que tem em seu poder não só para temperar chocolate, mas para ceifá-la de uma posição de protagonismo. E se existe uma coisa que o vídeo prova é que Michelle não está disposta a abrir mão do protagonismo; tanto que ela não desmonta o tabuleiro do patriarcado. Pelo contrário, assopra as peças tombadas ou em vias de, esperando que elas abram espaço a ela, cuja negociação visa uma coisa só — Michelle quer ser rei.
O que me leva a tal conclusão extrapola a construção espacial da imagem e busca o tempo da fala: 27 longos minutos, discursados num tom de voz ponderado, com letterings cuidadosos destacando as palavras tônicas; uma construção estilística que contraria os principais marcadores das microcatarses comuns à internet. Michelle discursa, mas, antes disso, narra, costurando pequenas tramas que, segundo ela, protagoniza desde que ganhou a missão de estender Jair, comunicando-o com o mundo enquanto ele está preso. É nesse sentido que Michelle se vende como uma heroína, conciliadora desde essa incumbência de ter que intermediar a vida pública e a privada, sofrendo pequenos, mas constantes reveses impostos por aqueles de quem, supostamente, menos esperaria — os filhos de Jair.
Assim, Michelle articula seu discurso a partir da narrativa caracteristicamente episódica (como aponta Leandro Saraiva) do melodrama familiar, gênero que a pesquisadora Laura Mulvey defende como marcadamente feminino, sobretudo em sua estruturação temporal. É nesse ponto que as teorias feministas, amparadas até certo ponto na psicanálise, e os estudos culturais aplicados ao audiovisual nos são úteis: nomes como Mulvey, Tania Modleski e John Fiske diferenciam objetivos e temporalidades nas narrativas que encampam olhares masculinos e femininos — enquanto as primeiras são fetichistas (isto é, se apegam à ilusão) e valorizam mais o clímax do que a jornada, as últimas se estruturam na valorização dos processos e se interessam pela descoberta, pela revelação, pela verdade. É a verdade que Michelle diz defender no vídeo, elaborando uma narrativa que se apoia justamente nesse tempo processual (“esse vídeo será longo, porque não tem como ser diferente”), interessada em revelar os meandros de seus dissabores entre os homens menores que a cercam. Michelle narra tudo isso em episódios e, ao propor imagens mentais à imaginação dos interlocutores, se desvencilha do discurso autoritário (tipicamente bolsonarista) para adotar um discurso internamente persuasivo, um discurso-ensaio, sempre em processo de formação. Há, no entanto, um fim pensado. Michelle não abre mão do clímax. Eis seu paradoxo.
O clímax é a catarse, o expurgo, a descarga física psicoemocional; numa visão psicanalítica, o gozo. É no sentido dele que Michelle encadeia seus episódios, preocupando-se em narrá-los numa progressão dramática crescente, articulando seus sofrimentos diários às ações dos Bolsonaros Jr., que não souberam dosar a vida pública e a vida familiar. É nessa perspectiva que Michelle se apresenta como uma sucessora mais verdadeira (supostamente), porque ela não só mantém essa força familista, como a embala num discurso religioso que os homens da família nunca conseguiram transformar numa ilusão palpável, mantiveram-no sempre como um engodo barato. Assim, Michelle transita e fala ao espaço público alinhavando política, família e religião, como se, todos os dias, deixasse um feudo onde o ditado “rei morto, rei posto” cresce em complexidade: o rei é morto como indivíduo político, mas segue vivo no nome em disputa. Os filhos querem devorar esse nome até que não haja sobra nem para a fila do osso. Michelle quer usá-lo como trampolim para superá-lo; não para instaurar um regime feminista — como quer crer o filho ditador que, fantasiado de lenhador de pinheirinho de Natal, apresenta um suposto show —, mas para propor uma narrativa baseada em regimes de crença e catarses menos passageiras do que as alicerçadas no bolsonarismo.
Se o diabo mora nos detalhes, a perspicácia do discurso de Michelle está em acionar olhares masculinos e femininos da narração para construir uma empatia direcionada a um público feminino conservador e religioso. É entre o relato e a reflexão que Michelle marcha, não para criar um distanciamento crítico do público, mas para chegar a um clímax milimetricamente calculado, em que revela que a opressão diária não é só direcionada a ela: é também à filha adolescente, tragada por esse microcosmo shakespeariano mambembe, pulverizado entre Brasília, Texas e Camboriú. No clímax dessa trama, Michelle não é só a mulher posta à prova; é a mãe que sofre duas vezes, tudo porque se dispôs a ser leal ao marido, desafiando os príncipes herdeiros. Mas o ardil (dela, que não anula o dos filhos) não para por aí: não bastasse esse timing da narrativa, o agendamento do vídeo fez ainda o show do intervalo (como disse Celso Rocha de Barros) do jogo do Brasil. Se existia a ideia de que Copa do Mundo é um evento propício para encobrir escorregadas políticas, Michelle dobrou a aposta e pôs isso à prova, como se dissesse — pois, de mim, falarão. A mesma Michelle que mandou sabotar a arma/prótese simbólica do marido.
Aliás, o fato de ela não se livrar da arma — cuja posse Bolsonaro justifica para proteger as mulheres da casa — é simbólico: Michelle não deseja se desfazer do patriarcado, mas aperfeiçoá-lo no fortalecimento de um patrimonialismo abençoado pela Igreja, que poderá intervir igualmente na vida pública e privada; para isso, ela, ironicamente, expõe os reizinhos nus (não no sentido literal, ao menos por enquanto), testando esse poder não para derrubá-lo, mas para que ele ressurja mais resiliente aos testes, para que numa seleção natural o patriarcado mantenha apenas os Bolsonaristas fortes. Espécie de Medeia às avessas, ela se insurge contra os enteados para, na superfície do discurso, proteger a própria filha (e não pode ser abertamente ataca por eles, ou aumentaria a rejeição dos “meninos” junto às eleitoras). No subtexto, age para seguir como uma espécie Lady Macbeth lúcida, mas que manobra essa lucidez para apostar em um futuro de crença, reverência e dogmatismo (voltando ao regime fetichista típico das narrativas masculinas). No tabuleiro do patriarcado, Michelle Bolsonaro é mais hábil do que todos os homens da família juntos. Ela não pretende derrubar as peças; seu vídeo demonstra a compreensão de valores paradoxais em prol da negociação narrativa de quem, no futuro, se vê nem como Medeia, nem como Lady Macbeth, mas como o “homem cordial”.