Kit de Ferramentas – Especificidade —Writing Compelling Dialogue for Film and TV: The Art & Craft of Raising Your Voice on Screen, de Loren-Paul Caplin

CAPLIN, Loren-Paul. Tool kit – Specificity. In: CAPLIN, Loren-Paul. Writing Compelling Dialogue for Film and TV: The Art & Craft of Raising Your Voice on Screen. Abingdon: Routledge, 2021. p. 136-145. Tradução: Álvaro André Zeini Cruz.

Introdução: Ferramenta – Especificidade

Um capítulo inteiro dedicado ao assunto da especificidade no diálogo já deveria sugerir a você a importância deste conceito. Mas do que estamos falando – ser específico? Não é óbvio? Sim, é óbvio e ainda assim é algo frequentemente negligenciado, esquecido. Há um trilhão de exemplos ao nosso redor, mas realmente focar nos detalhes específicos não só pode fazer toda a diferença num grande diálogo, como também revelar aspectos de seus personagens que você nem sabia que desconhecia. Consegue imaginar a famosa frase dos Beatles em A Day in the Life, “Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall” [“Agora eles sabem quantos buracos são precisos para encher o Royal Albert Hall”], se eles tivessem dito “concert hall” [sala de concerto]? É uma diferença pequena, sim, possível, mas não tão boa, forte ou perfeitamente específica. Também não seria tão pessoal, significativa e colorida. O valor da especificidade não pode ser subestimado.

Quando você começa a reconhecer a especificidade nos diálogos e observa como ela te faz sentir, você passa a entender seu valor. Ela nos conecta ao personagem que fala de uma forma única; aguça nosso cérebro e nos faz ouvir com mais atenção. Mas, como a ideia de analisar o uso de cada palavra específica pode ser esmagadora, as páginas seguintes vão focar em substantivos, adjetivos e advérbios conforme são comumente usados nos diálogos. A ideia é primeiro tomar consciência desses tipos de palavras e seu poder de melhorar o diálogo. E então, considerar sua capacidade de encontrar escolhas de palavras ainda mais fortes como uma ferramenta poderosa no seu kit para elevar o nível geral da sua escrita de diálogos.

Substantivos

A definição comum de substantivo é uma palavra que funciona como nome para uma pessoa, lugar ou coisa. E embora existam subcategorias mais complexas, incluindo substantivos próprios, concretos e abstratos, para nossos propósitos na escrita de diálogos, vamos considerar apenas a definição comum. E por mais simples que isso possa soar, na nossa fala cotidiana, muitas vezes não temos o nome específico das coisas. Em vez disso, usamos nomes genéricos. Podemos dizer “o carro” em vez de “o Jaguar XKE 1974”. Mas numa conversa, quando alguém usa um termo ou palavra específica, raramente deixa de nos impressionar. Embora às vezes possa evocar a reação oposta, chamando a atenção para um sabichão chato, de qualquer forma é perceptível, mesmo que apenas sentido. E como o diálogo escrito não é sobre realismo tanto quanto sobre nossas aspirações de realismo, quando personagens puxam nomes específicos de coisas genericamente ordinárias aparentemente do nada, nós adoramos. E isso vale para todos os tipos de personagens e níveis de inteligência.

Seja um assassino de aluguel de segunda linha em Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994) falando sobre o específico “Royale with Cheese” (Royal com Queijo), ou um viciado em heroína da classe trabalhadora em Trainspotting: Sem Limites (1996) descrevendo fantásticas “torneiras de ouro brilhante, mármore branco virgem, um assento esculpido em ébano, uma cisterna cheia de Chanel nº 5 e um lacaio me entregando pedaços de papel higiênico de seda bruta”, ou um jovem gênio da Ivy League em A Rede Social (2010) expressando seu desejo de entrar no “Porcellian Club”, as especificidades que esses personagens professam são o que ajuda a elevar seus diálogos, sua singularidade e memorabilidade. E não importa se todos na plateia sabem o que é um “Royale com Queijo”, qual o cheiro do “Chanel Nº 5” ou o que diabos é o “Clube Porcellian”. Intuitivamente, entendemos que os personagens sabem do que estão falando, e esse fato por si só torna o diálogo ainda mais envolvente.

Modificadores

Alguns escritores e professores de literatura são radicais quanto a ser especialmente econômico no uso de modificadores. Stephen King escreveu, em sua famosa autobiografia intitulada Sobre a Escrita: A Arte em Memórias, que “o caminho para o inferno está cheio de advérbios”. Ele não está sozinho. E para a prosa, é um alerta que vale a pena. Tipicamente, modificadores são palavras que modificam, esclarecem e aprimoram nossos substantivos e verbos. A sabedoria convencional é que escritores que dependem de modificadores são preguiçosos demais para encontrar palavras mais precisas que não exigem descrição adicional. Mas no diálogo, assim como em nossas conversas diárias, usamos modificadores o tempo todo, mesmo que muitas vezes sejam bastante mundanos. “Olha aquela casa grande.” O adjetivo “grande” é o modificador nessa frase que ajuda a descrever a casa. É verdade, você poderia dizer “olha aquela mansão”, e aí talvez não precisasse descrever ainda mais seu tamanho. Mas na conversa normal, raramente somos tão precisos. E embora ao longo deste capítulo estejamos enfatizando a importância de ser preciso e específico com o uso das palavras, estamos igualmente enfatizando que elas também devem soar apropriadamente autênticas para os personagens e o mundo que eles habitam.

Sem ser pedante demais ou imprecisamente autêntico, por meio do uso criativo de modificadores, podemos transformar a linguagem cotidiana em diálogos mais marcantes e memoráveis. “Olha aquela casa gigantesca!” já soa mais marcante. Também costumamos usar advérbios preguiçosos para modificar ainda mais adjetivos ou verbos: na frase “olha a casa muito grande”, “muito” é o advérbio modificador de “grande”. O quão grande? Muito. E novamente, é assim que muitas vezes falamos de verdade. Mas se considerarmos um modificador mais único, rapidamente elevamos a frase para “olha aquela casa loucamente gigante” ou “dá uma olhada naquela casa maluca de enorme!” Sinta-se à vontade para inventar palavras se elas transmitirem seu significado e se se encaixarem no seu personagem. Nem todo personagem diria “olha aquela casa maluca de enorme!”

O objetivo de ser criativo no uso de modificadores não é apenas tornar seu diálogo mais vibrante, mas também ajudar a informar os personagens que os falam. Aqui estão alguns exemplos maravilhosos e inspiradores de modificadores. Primeiro, de Fleabag (2016):

FLEABAG (para a câmera) 
A única coisa mais difícil do que contar para sua superpoderosa-rica-anoréxica-superirmã que você ficou sem dinheiro é ter que pedir que ela te tire dessa.

FLEABAG (to camera)
The only thing harder than telling your super-high-powered-richanorexic-super- sister you have run out of money is having to ask her to bail you out.

Uau. A personagem Fleabag certamente não está se segurando em relação aos sentimentos sobre sua irmã. E além desta passagem ser deliciosamente cortante, ela também descreve os verdadeiros sentimentos de Fleabag e nos informa sobre a magnitude de sua raiva interior.

Em Booksmart: Como Tudo Começou? (2019), um único modificador, autoconscientemente colocado, nos diz muitas informações sobre como nossas duas protagonistas do último ano do ensino médio, Molly e Amy, são deslocadas:

AMY 
Qual é, a gente fez tudo o que você mandou. Arrumamos visuais novos, temos saído.

MOLLY 
Fizemos um esforço louvável.

JULIE 
Para de usar palavras assim, pelo amor de Deus. Você acha que algum garoto vai namorar alguém que fez um esforço louvável?

AMY
C’mon, we’ve done everything you told us to. We got new looks, we’ve been going out.

MOLLY
We’ve made a laudable effort.

JULIE
Stop using words like that, for Christ’s sake. You think a boy’s going to date someone who made a laudable effort?

Quantas adolescentes do último ano diriam “esforço louvável”? Molly poderia ter dito apenas “nós nos esforçamos” ou até “trabalhamos muito duro”, mas a palavra “louvável” nos diz tão perfeitamente sobre Molly e Amy, como elas são loucamente superaplicadas, ao mesmo tempo que aguça nossos ouvidos. É ao mesmo tempo deslocado, brilhantemente pretensioso e totalmente maravilhoso – exatamente como Molly e Amy.

Palavras isoladas podem elevar passagens de diálogo. Aqui está uma recepcionista excêntrica numa clínica feminina em Juno (2007):

RECEPCIONISTA PUNK 
Preciso que você preencha isso, frente e verso. E não pule os detalhes cabeludos. Precisamos saber de cada nota e cada dor.

PUNK RECEPTIONIST
I need you to fill these out, both sides. And don’t skip the hairy details. We need to know about every score and every sore.

“Detalhes cabeludos” é engraçado, nojento e se encaixa perfeitamente na recepcionista punk e no estilo da clínica de planejamento familiar. E entendemos completamente o significado mesmo que “cabeludos” não seja uma palavra tipicamente usada neste contexto, especialmente numa clínica médica.

No começo, escreva seu diálogo como você o ouviria na sua mente. Deixe fluir livremente da sua cabeça e escreva da forma mais conversacional. Ao revisar, de repente você verá um milhão de oportunidades para usar ou adicionar modificadores criativos e únicos. Modificadores comuns são oportunidades para versões melhores, incisivas e dinâmicas.

Palavras únicas

Obviamente, qualquer coisa específica será, por si só, única. Mas estou tentando chamar sua atenção para o que “único” significa em termos de diálogo, o que inclui uso específico de palavras e conceitos que são únicos para o personagem que as fala. Embora no próximo capítulo abordemos mais especificamente os “personagens” e como compreendê-los pode ajudá-lo a encontrar seu diálogo inato e singular, por ora, vejamos alguns exemplos de substantivos e como eles são particulares às pessoas que os falam. Inevitavelmente, haverá alguma sobreposição entre conceitos como específico/único e as outras categorias que consideraremos a seguir. Como um bom ponto de partida, vejamos o vocabulário usado pelas duas adoráveis e brilhantes perdedoras do ensino médio em Booksmart: Como Tudo Começou?:

AMY 
Não, claro que não. Só estou considerando as implicações éticas de dirigir para a escola quando há uma crise do petróleo.

MOLLY 
Todos os veteranos dirigem para a escola.

AMY 
Esse é exatamente o problema! É pensamento de grupo. Estamos à beira de um holocausto ambiental, e nós…

AMY
No, of course not. I’m just considering the ethical implications of driving to school when there’s an oil crisis.

MOLLY
All the seniors drive to school.

AMY
Which is precisely the problem! It’s groupthink. We’re at the brink of an environmental holocaust, and we –

Embora tecnicamente alguns dos termos abordados anteriormente sejam compostos tanto por substantivos quanto por adjetivos que os modificam, esses termos refletem sua natureza única e a forma como fluem perfeitamente de caracteres igualmente únicos. Quem fala sobre “implicações éticas”, “pensamento de grupo” ou “holocausto ambiental”, ainda mais adolescentes numa comédia? A resposta são personagens maravilhosos criados por roteiristas que claramente desejam que nós, o público, entendamos quem são essas garotas. Sem dúvida, existem adolescentes que falam assim e se preocupam com essas questões. E provavelmente, elas são sinceras em suas preocupações, assim como não temos dúvida de que Molly e Amy também levam essas questões a sério. Mas sendo uma comédia, também intuímos que suas “preocupações” maduras obscureceram um pouco sua consciência básica sobre quase tudo relacionado à vida adolescente. Talvez até tenha atrofiado essa consciência ao usar essas preocupações mundanas como defesa contra lidar com as vicissitudes normais da vida adolescente. Molly e Amy não conseguem evitar usar esse tipo de linguagem em suas conversas cotidianas; isso escorre delas. Em muitos aspectos, é sobre isso que o filme inteiro trata: mulheres jovens superinteligentes, preocupadas com o mundo, tentando compensar tudo o que perderam na experiência do ensino médio em uma única grande noite. Pelo menos neste exemplo, as palavras escolhidas não são extraordinariamente únicas, mas são faladas por adolescentes únicas. O contexto surpreendente, bem como o uso das palavras, contribui muito para criar singularidade.

Palavras autênticas e técnicas

Parece óbvio que em narrativas que lidam especificamente com histórias relacionadas a STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) ou áreas afins, gostaríamos de usar as palavras técnicas reais que são comuns àquele mundo. Aqui está Richard, um designer de software, de Silicon Valley (2014):

RICHARD 
Eu escrevi quase todas as linhas de código do Pied Piper. Cada função, cada classe, cada biblioteca.

RICHARD
I wrote almost every line of code in Pied Piper. Every function, every class, every library.

Eu não tinha ouvido palavras mundanas como “função”, “classe” e “biblioteca” usadas no contexto de programação. Não estou por dentro da conversa técnica de programadores. Francamente, não faço ideia do que ele está falando, mas não importa. Richard fala com autoridade e, portanto, eu acredito nele. Esses são termos bem benignos, mas também adoramos ouvir as palavras e o jargão tecnológico comuns na ficção científica. Da amada série de televisão Jornada nas Estrelas (1966), aceitamos sem esforço palavras e termos bobos como se fossem vocabulário cotidiano:

SCOTTY 
Tenho más notícias, Capitão. O conjunto inteiro do conversor de cristal de dilítio está fundido.

SCOTTY
I’ve got bad news, Captain. The entire dilithium crystal converter assembly is fused.

Desvie energia auxiliar para os defletores! Remova o cérebro positrônico! Cuidado com os pulsos de taquíons! Todos esses termos maravilhosamente tecnológicos pontuam toda a paisagem dos gêneros de ficção científica e super-heróis. É interessante notar que algumas dessas palavras são termos reais, vagamente relacionados a conceitos científicos, mas com significados inteiramente diferentes. Sinta-se à vontade para inventar palavras se elas soarem reais. É o que os roteiristas de cinema e TV sempre fizeram. O ponto aqui é que, ao usar termos tecnológicos reais ou com sonoridade tecnológica, os escritores promovem autenticidade dentro da narrativa.

Mas a terminologia tecnológica não deve ser usada apenas em histórias de ficção científica ou tecnologia. Em toda narrativa, sempre que um nicho específico, subgrupo ou mundo único é evocado, há uma oportunidade para terminologia específica. Seja a linguagem técnica usada na NFL (audibles, scrimmage, apology, etc.), ou o jargão usado no mundo da construção civil (prumo, acabamento, fita de drywall, etc.), personagens que usam essas palavras ganham autoridade imediata, o que nos ajuda a suspender nossa descrença.

É claro, em procedurais policiais, nos acostumamos com a linguagem durona do gênero, e sentimos falta se ela não aparece na fala dos policiais: perps (suspeitos), código-quatro, negativo, copia isso, etc. Mas novamente, qualquer personagem em qualquer situação que use termos técnicos apropriadamente ganha automaticamente certa estatura aos nossos olhos. Quando conhecemos Doc e Carol enquanto eles brincam de discutir durante a prática de tiro no início do drama criminal The Getaway – A Fuga (1994), Carol não diz simplesmente “Gosto daquela arma grande”. Em vez disso, ela diz: “Esta P.P.K.S. é uma arminha muito boa.” E instantaneamente a levamos a sério. Neste mundo, ela é imediatamente uma jogadora legítima.

Claramente, o uso apropriado de termos técnicos pode dar credibilidade e autenticidade a qualquer diálogo, assim como o uso inadequado, óbvio ou ostentatório pode criar o efeito oposto.

Palavras coloridas

Ouvir e depois ser capaz de acessar ou criar palavras coloridas também pode impulsionar o diálogo que de outra forma seria comum. Mas o que são palavras coloridas? São palavras que saltam da conversa normal, como objetos de cores brilhantes que capturam nossa atenção num ambiente visual de outra forma neutro. São palavras e termos que entram em nossos ouvidos e aguçam nossos cérebros. O som das palavras pode torná-las coloridas, assim como o contexto único ou o uso peculiar também podem fazê-las se destacar. Como um bom exemplo, vejamos esta passagem de um balconista de loja no filme Juno:

ROLLO 
Este é seu terceiro teste hoje, Mamãe Ursa. Seu ovo está grávido, não há dúvida!

ROLLO
This is your third test today, Mama Bear. Your eggo is preggo, no doubt about it!

As palavras “mamãe” ou “ursa”, assim como o termo “Mamãe Ursa”, podem ser levemente coloridas como palavras em si mesmas, que usamos como nome carinhoso para uma mãe protetora. Mas quando aplicadas a uma garota de dezesseis anos, pequena e que acabamos de descobrir estar grávida, isso distorce seu contexto normal e aguça nossos cérebros. Menos fora de contexto, mas igualmente coloridas são as palavras “ovo” e “grávido” (no original, “eggo” e “preggo”, uma brincadeira com “egg” e “pregnant”). Ambas são distorções sonoras de palavras reais que são perfeitamente reconhecíveis e são coloridas pelo quão lúdicos seus sons tornam palavras sérias aparentemente leves.

Além da diversão deste diálogo, a estranheza humorística de um balconista de loja realmente falar dessa forma também cria um tom singular. Uma vez que aceitamos que este balconista é uma pessoa real dentro do mundo deste filme, nos permitimos entrar numa tonalidade em que coisas peculiares podem acontecer. De fato, Juno é repleta de coisas maravilhosas e caprichosas, mesmo enquanto navega por uma história séria.

Outro exemplo vem do filme Superbad – É Hoje (2007). Embora este trecho seja cheio de palavrões saindo da boca de um veterano do ensino médio, as palavras em si não são tão únicas, mas são coloridas mesmo assim:

SETH 
Quer dizer, o que vamos dizer para as garotas? “Desculpa, a gente não conseguiu fazer o que prometeu porque somos incompetentes sem-pinto!” Nunca vamos transar por causa daquele babaca de merda. Como ele entrou na faculdade?! Ele tem merda no cérebro! Merda! De que outra forma podemos conseguir bebida?

SETH
I mean, what are we going to tell the girls? “Sorry, we couldn’t do what we promised because we’re dickless incompetents!” We’ll never get laid because of that little ass-fuck. How did he get into State?! He’s got shit for brains! Shit! How else can we get liquor?

Aqui, a passagem inteira é brilhante e colorida: “incompetentes sem-pinto”, “babaca de merda”, “merda no cérebro”! Sim, palavrões tendem a ser palavras altas e coloridas. Eles são tipicamente falados com veemência. Mas a chave é usá-los criativamente, e quando você consegue, isso pode elevar toda a diversão do que está sendo dito. Ao mesmo tempo, pode ampliar nossa compreensão e aumentar nossa empatia pelos personagens que os falam. Palavras vívidas e animadas nos aguçam e divertem, mas em excesso, como açúcar demais, podem nos alienar e deixar um gosto menos que desejável na boca.

Linguagem coloquial e vernacular

Como os filmes e programas de TV frequentemente retratam a sociedade contemporânea, é ideal que o diálogo escrito reflita autenticamente os modos cotidianos, casuais e informais de falar. É interessante notar a rapidez com que o público detecta a falsidade da linguagem cotidiana quando usada incorretamente. Ser insensível a como as pessoas realmente conversam pode instantaneamente romper nossa conexão com os personagens e com toda a narrativa. Claro, se a intenção é retratar um personagem desajeitado, desconectado da realidade, isso pode ser eficaz. A linguagem coloquial é considerada o estilo linguístico usado para comunicação casual, expressões idiomáticas do dia a dia em oposição à fala formal ou considerada “correta”. É como uma família comum conversa ao redor da mesa de jantar. Por exemplo, hoje é mais comum e realista um amigo dizer ao outro “E aí?” do que dizer “Como vai senhor?” E o que é considerado conversa casual hoje será diferente do que era na década de 1950 ou em qualquer outra época. Assim como o que é considerado fala informal também será diferente para diferentes culturas e subgrupos da sociedade.

No âmbito da conversa coloquial, pode haver também linguagem específica, termos, expressões idiomáticas e palavras usadas por grupos especializados que chamaremos de vernacular. O termo vernacular descreve a linguagem particular única para um grupo ou subgrupo específico de pessoas. Podemos usar o termo vernacular para descrever a linguagem específica que matemáticos, ou qualquer outro subconjunto de pessoas que usam terminologias específicas, podem empregar em suas conversas de trabalho. Mas quando falamos de um vernáculo particular, estamos mais comumente usando para descrever a linguagem e as modalidades da fala cotidiana dentro de grupos específicos. Como roteirista, é importante acertar esses detalhes, pelo menos em espírito. O roteirista e romancista Richard Price é conhecido por inventar gírias que seus personagens falam. Para ser claro, a linguagem vernacular inclui todas as formas de gíria, jargão, patuá e dialetos, bem como expressões idiomáticas e contrações de palavras. É o que e como os personagens falam. Eles fazem contrações de palavras que outros grupos não fariam? Eles cortam consoantes como dizer “que” em vez de “o quê”?

Em romances, é muito mais comum soletrar o som fonético exato das palavras que os personagens falam. Mark Twain e William Faulkner vêm imediatamente à mente, e é necessário um esforço genuíno para ouvir como cada palavra soa em sua mente e o que elas realmente estão dizendo. Aqui está um exemplo da fala de Jim do romance de Twain, As Aventuras de Huckleberry Finn (1884): “I doan’ want to go fool’n ‘long er no wrack. We’s doin’ blame’ well, en we better let blame’ well alone, as de good book says. Like as not dey’s a watchman on dat wrack.”

Se a passagem acima estivesse num roteiro de cinema ou TV, poderia ser algo mais próximo a isto:

JIM 
Não quero ficar de bobeira perto desses destroços. Nós tá indo bem assim, e é melhor deixar como tá, como diz o livro sagrado. E é bem provável que tenha um vigia nisso.

JIM
I don’t wanna go foolin’ ‘round on that wreck. We’re doin’ fine without it, and let’s leave well enough alone, like the Bible says. Besides, more likely than not there’s guards protecting it.

Num roteiro de TV e cinema, buscamos um diálogo claro e fácil de ler e entender. Se um personagem tem muito a dizer de uma maneira extremamente estilizada ou foneticamente única, como no exemplo anterior, é comum soletrar algumas palavras-chave de forma próxima a como você imagina que sejam faladas. Pode-se supor que o leitor, e subsequentemente o ator, preencherão os mesmos sons e sotaques no resto da passagem. Novamente, não há absolutos, mas especialmente se você é um roteirista iniciante de cinema ou TV, você vai querer tornar o processo de leitura do seu roteiro o mais fácil possível.

A linguagem vernacular não é monolítica. O vernáculo urbano americano, assim como o vernáculo cajun do sul, ainda pode ter infinitas nuances, diferenças e sutilezas dentro delas. Gírias e dialetos variam e mudam com as mudanças no tempo e na localização. Se não estiver totalmente familiarizado com um idioma específico, o roteirista profissional realiza uma pesquisa extensa. Isso muitas vezes significa inserir-se num grupo para ouvir suas cadências e escolhas específicas de palavras. Se é de outra época ou cultura, então é necessária muita leitura de romances desse grupo, cultura ou época histórica. Especialmente se você não é um especialista em representar uma linguagem vernacular específica, é melhor pecar pelo mínimo de exemplos de autenticidade e novamente confiar no leitor e no ator para preencher o resto. A última coisa que você quer é tornar personagens incompetentes ou menos inteligentes, se não é essa a intenção, pelo uso inautêntico ou incorreto de sua vernacular.

Aqui estão alguns exemplos de linguagem coloquial usada no cinema. O primeiro é da versão cinematográfica do musical teatral My Fair Lady (1964). Todo o enredo e tema do filme giram em torno da tentativa de transformar uma garota cockney da classe trabalhadora, Eliza Doolittle, em alguém que possa passar por membro culto da alta sociedade, começando por “corrigir” sua fala. É quase um manual para ver como o diálogo com sons específicos representando um grupo específico, neste caso os cockneys da classe trabalhadora do início do século XX, é configurado numa página de roteiro:

HIGGINS 
Diga suas vogais.

ELIZA 
Eu sei as vogais. Já sabia antes de vir.

HIGGINS 
Se você as conhece, diga-as.

ELIZA 
Áí, é, íí, ó, ú.

HIGGINS 
A, E, I, O, U.

ELIZA 
Foi o que eu disse. Áí, é, íí, ó, ú. Isso é o que tenho dito por três dias e não vou dizer mais.

HIGGINS 
Say your vowels.

ELIZA
I know me vowels. I knew’em before I come.

HIGGINS
If you know them, say them.

ELIZA 
Ahyee, e, iyee, ow, you.

HIGGINS
A, E, I, O, U. 

ELIZA
That’s what I said. Ahyee, e, iyee, ow, you. That’s what I’ve said for three days an’ I won’t no more.

Mesmo que muitas das palavras de Eliza estejam escritas foneticamente, ainda é muito claro na página o que ela está dizendo e o que ela quer dizer. Clareza é a chave.

Aqui está um gostinho da vernacular clássica da máfia do grande filme Os Bons Companheiros (1990):

HENRY (V.O.) 
Antes de você tocar num cara feito, você tinha que ter um bom motivo. Tinha que haver um acerto. E é melhor conseguir um okay, senão você seria o que levaria um sacode.

HENRY (V.O.) 
Before you could touch a made guy, you had to have a good reason. There had to be a sit-down. And you better get an okay, or you’d be the one who got whacked.

“Cara feito”, “um acerto” e “levar um sacode” são apenas alguns exemplos do que se tornou a vernacular popular da máfia. Mesmo que você não esteja familiarizado com esses termos e seus usos, você entende o sentido deles. Ainda é bastante claro. É interessante notar que os roteiristas Martin Scorsese e Nicholas Pileggi eram ambos muito hábeis em entender a cultura da máfia. Pileggi era jornalista, autor e roteirista que era considerado um especialista na máfia italiana. Em 1986, ele escreveu o livro Wisegu, no qual Os Bons Companheiros foi baseado. O ponto aqui é que, para seus personagens falarem com autoridade, você precisa fornecer a eles um diálogo autêntico e com autoridade para falar. A menos que você esteja escrevendo numa linguagem vernacular com a qual tem familiaridade confiante, faça o trabalho necessário para acertar. Errar pode ser fatal.