Guerreiras do Sol

por Álvaro André Zeini Cruz

Rômulo e Remo, Caim e Abel, Edgar e Edmund, Arduíno (Irandhir Santos) e Josué (Thomás Aquino). A rivalidade entre irmãos é um pathos antigo que, em Guerreiros do Sol, vai secando, um a um, o bando de cangaceiros liderado primeiro por Miguel Inácio (Alexandre Nero), depois, por Josué. Originalmente exibida em 45 capítulos pela Globoplay, a novela de George Moura e Sérgio Goldenberg, recém-encerrada na Globo aberta (em versão picotada), pode ser dividida em três fases: na primeira, vemos o confronto entre cangaço e coronelismo, justamente no momento histórico em que, segundo Victor Nunes Leal, esse segundo sistema se estabelece para suprir os braços curtos da República num país continental. A segunda fase inicia ao final do longo flashback que toma os capítulos iniciais, culminando no assassinato de Idálio (Daniel de Oliveira), o coronel-herdeiro que não prospera o coronelismo, ao contrário de Josué, cujo cangaço é uma herança e resistência de classe, e não de sangue. O sangue, no entanto, não deixa de ser uma questão: o ressentimento de Arduíno o expurga do grupo diretamente à ponta oposta — integrado à polícia, Arduíno personifica e leva a cabo o eclipse entre poder público e interesse privado, esse tal de patrimonialismo. Assim, a institucionalidade que detém é revertida na caçada pessoal a Josué e os irmãos que o acompanham, Milagre (Ítalo Martins) e Sabiá (Vitor Sampaio). Um a um, eles morrerão e, como o pai — o subalternizado, violentado e morto original — serão enterrados ou simplesmente deixados aos pés de árvores que remetem àquela fulminada antes em …E o Vento Levou; exceto Josué, o chefe do bando, que, decapitado, tem a cabeça exposta no topo de um altar de degolados.

A terceira fase é aquela em que Rosa (Isadora Cruz), a viúva de Josué, e a irmã Otília (Alice Carvalho) assumem o bando combalido, reerguendo-o entre mulheres. A tragédia entre os irmãos homens tece essa trama de mulheres e pari um dos mais conhecidos conflitos melodramáticos — o da mãe apartada da filha raptada. Da dicotomia entre irmãos, passamos a Hades e Demeter, Leontes e Hermione, Arduíno e Rosa, cujos finais não poderiam ser mais emblemáticos. Simbolicamente morto, Arduíno é um corpo animado pelas assombrações de todos os irmãos. Quando se olha no espelho, vê Josué, como um Narciso que se afoga na imagem do sangue que derramou, sob a aridez do ISO dessas derradeiras imagens arenosas. Espécie de Erisícton que seca enquanto devora e é devorado pelo próprio sangue, Arduíno encerra rente ao chão, arrastando-se em direção à câmera, causando sombra à lente como se tentasse também nos engolir enquanto grita — “sai do sol!”. A imagem desse homem, meio feito bicho, meio reduzido a pó, é a antítese do último close de Rosa, um contra-plongée de texturas suaves, ainda que o sol siga ao fundo, estourando-lhe uma mecha dos cabelos que serpenteia com a brisa. Leve também é o movimento desse rosto sorridente e emocionado quando oscila, permitindo que o sol momentaneamente produza um flare na imagem, antes de o rosto voltar e encobri-lo, erguer-se uma última vez como corpo heróico desse cangaço transmutado da violência dos homens à solidariedade das mulheres.

Um close que se esfola atrás da lembrança dos irmãos; outro que se ilumina diante da vista das filhas. O sol permanece na locução propositiva do título, mas o sujeito muda de gênero.