True Detective

Por Phillippe de C. T. Watanabe

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True Detective, já em seu título, mostra o que é. A série da HBO sobre crimes, muito comentada e elogiada desde seu lançamento, recebeu diversas indicações a prêmios, inclusive a 12 Emmys, dos quais saiu vencedor em 5 categorias. O criador da série, Nic Pizzolatto, já possuía certa familiaridade com o tema após escrever alguns episódios para The Killing, seriado da rede norte-americana AMC.

A interessante abertura da série nos revela um pouco dos assuntos tratados durante os 8 episódios que compõem o arco fechado da primeira temporada. Silhuetas humanas se preenchem com a natureza e as indústrias da localidade onde se passa a história, demonstrando a força, a potência detida pelo ambiente em que estão inseridas as pessoas a quem passaremos a acompanhar; uma igreja, cruzes vermelhas, como que em chamas, e um homem em amplo ato de devoção nos mostram que a religião, e suas ligações com o ocultismo, será um dos guias da história; mulheres são vistas, enquanto a música tema da série declara “Quando eu toquei a pele dela, meus dedos encheram-se de sangue”, apontando para as vítimas dos crimes; homens cercados por chamas e solitários apontam para os conflitos, tanto externos quanto internos, e para a solidão experimentada por todas as personagens principais.

Nas primeiras cenas, assim como os detetives responsáveis pela investigação do caso a ser apresentado, encontramo-nos completamente no escuro, com a possibilidade de distinguir somente a sombra de uma pessoa caminhando com o que parece ser um corpo em seus braços e, em seguida, a mesma figura causando um grande incêndio em uma região de mata. Somos, então, jogados para salas onde, separadamente, são interrogados Martin Eric Hart, interpretado por Woody Harrelson, e Rustin Spencer Cohle, interpretado por Matthew McConaughey. A ideia de contar a história de um crime a partir do depoimento de pessoas que participaram ou investigaram o caso não é nova, porém, ela é muito bem empregada na série a partir da construção de três linhas temporais que se misturam e influenciam. Hart, ao começar a falar, já nos familiariza com o que está por vir: Dora Lange, um nome que iremos ouvir constantemente; crianças na mata, o pavoroso caso que se descortinará durante a série; e Rust, o fio que guiará e ligará todos os episódios da temporada, e por quem os policiais que conduzem o interrogatório demonstram intenso interesse.

Hart e Rust começam, então, a contar a história do crime que investigaram. Após os vermos envelhecidos, suas versões mais jovens nos são apresentadas. Desde já, merecem destaque as ótimas atuações de Harrelson e McConaughey. Hart, enquanto interrogado, tem olhos sem brilho, sempre desviando o olhar em busca de memórias enterradas há muito; sua versão mais jovem, porém, mostra-se mais decidido e sensível ao que acontece ao seu redor. Rust, com cabelo grande, descuidado e bigode, tem uma aparência cansada e totalmente abatida; suas pálpebras, responsáveis por encobrir olhos frios, parecem pesar a cada palavra dita; a voz rouca e arrastada zomba de tudo e todos; o único ato que executa com vontade é o levar o cigarro à boca. O Rust jovem, entretanto, tem um brilho resoluto nos olhos; seu corpo esguio e ereto passa a ideia de prontidão e análise constante; e a voz viva, mas calma, demonstra o interesse pelo trabalho que realiza.

A família e as possíveis formas de solidão relacionadas a essa entidade são outros assuntos muito presentes na série. A relação entre Hart e seus entes é claramente prejudicada por seu trabalho e por si mesmo. Suas atitudes, e a falta delas, acabam afastando, isolando sua esposa Maggie, interpretada por Michelle Monaghan, e suas filhas. Já Rust se foca exclusivamente no trabalho, ignorando e desprezando a existência de uma possível vida pessoal. Percebemos, então, um tema recorrente em filmes e séries policiais: a obsessão pelo trabalho.

Percebe-se que True Detective se aproveita de muitos dos clichês já consolidados sobre o mundo policial, porém, um elemento da série acaba por atrair a atenção: a filosofia. Rust é um pessimista convicto que, a cada chance que enxerga, julga o comportamento da raça humana de modo a demonstrar que, queira ou não, ela está condenada ao abismo e a uma existência miserável e sem sentido. Suas palavras vão de encontro a conceitos ligados à religião, vida, sociedade e identidade. Em meio a comentários e reflexões niilistas, seria possível supor ou prever atitudes descuidadas e, pensando que se trata de um policial, até mesmo suicidas, com total desprezo pela vida humana, a própria ou a do próximo. Contudo, contrariando, de certa forma, o sentido que tomam as suas palavras, Rust se mostra um cuidadoso e dedicado investigador, com um olhar clínico para detalhes que passariam desapercebidos para outros. Surge, porém, uma questão: a preocupação de Rust é para com as vítimas ou para com o caso, o mistério? Sua obsessão pela investigação em andamento parece apontar pra segunda opção, o que o aproximaria de uma espécie de Sherlock Holmes. Todos esses elementos, junto à ótima atuação de McConaughey, criam uma personagem complexa, interessante e multifacetada, que carrega consigo todo o ritmo da série.

A série talvez deixe um pouco a desejar conforme apresenta diversas linhas narrativas e histórias paralelas e as deixa em aberto e com relação mínima à narrativa central. Isso passa a impressão de que certas personagens e temáticas surgem somente para que os protagonistas consigam avançar na investigação do caso. Outro fator que chega a incomodar um pouco é o quase descaso com as personagens femininas. Mesmo Maggie, com características que poderiam ter sido melhor desenvolvidas e utilizadas, acaba com uma participação diminuta no enredo. Nic Pizzolatto, alertado pelos próprios fãs, tentará, aparentemente, equilibrar as coisas na segunda temporada com a introdução de uma protagonista.

True Detective, por saber o que é, utiliza-se de todo arsenal a sua disposição para a criação de uma boa série policial. A segunda temporada, com um assunto diferente e novos protagonistas, tentará manter e evoluir o que foi conquistado nessa interessante, porém, não surpreendente primeira temporada.

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