O Império contra-ataca?

Por Álvaro André Zeini Cruz

imperio-familia-medeiros_1501304

Império, recém-terminada trama das nove, teve como encargo recuperar o estrago causado por Em família, enfadonha novela de Manoel Carlos, na audiência do horário nobre. Conseguiu até certo ponto, já que, com 32,8 pontos, amarga a segunda pior colocação média na faixa (Em família se mantém na desonrosa primeira posição). Mas deixemos que a TV Globo se preocupe com as estatísticas e nos entreguemos a esse hobby brasileiro que é comentar a novela das oito (ops, quis dizer das nove!).

Império é, certamente, a melhor novela que o autor Aguinaldo Silva assinou desde o princípio de sua fase “realista”. Explico: até 2001, em Porto dos milagres, Silva se debruçou com afinco nas tramas regionais calcadas num certo realismo fantástico, traço herdado – não sem interrupções – de sua co-autoria em Roque Santeiro (1985). Foi assim, portanto, em Pedra sobre pedra (1992), Fera ferida (1993) e A indomada (1997). Em 2004, com Senhora do destino, segundo o próprio novelista, iniciou-se uma nova fase (tanto que ele pensou em assinar a novela sob um pseudônimo): nada de Cadeirudo (o caricato e misterioso estuprador de A Indomada), vilão se transformando em pedra, nem locações com nomes esdrúxulos como Greenville e Tubiacanga.

Paradoxal, no entanto, é o fato de que a potência maior de Senhora do destino passava a largo do realismo: Nazaré Tedesco, vilã memorável vivida por Renata Sorrah, era uma vilã de quadrinhos (descrição que, aliás, já se tornou um clichê quando se fala das antagonistas de Silva), cujos assassinatos envolviam sempre uma famigerada escada (ainda que, no último capítulo, ela tenha resolvido variar, adotando a somatória entre um secador ligado e uma banheira cheia). Além dos métodos pouco ortodoxos, ela própria era figura multipolar, cuja personalidade oscilava da mulher amargurada, à mãe obsessiva ou à devoradora de homens quando lhe convinha. Do mesmo modo, ovisual  podia alternar-se entre perucas e suspeitos óculos escuros.

A caracterização de Nazaré, que Silva tentou recriar numa versão fajuta como Tereza Cristina (um dos piores papeis da Christiane Torloni, na recente Fina estampa), é um dos mais contundentes exemplos de que o novelista trouxe resquícios de sua fase anterior para a atual. Há outros: na primeira transa entre Maria do Carmo (Susana Vieira) e Giovanni Improta (José Wilker) na trama de 2004, uma inexplicável fumaça subia ao redor da cama, criando uma atmosfera que certamente não veríamos numa novela de Gilberto Braga, por exemplo. Império não escapou desses impropérios.

A trama do comendador José Alfredo (Alexandre Nero) começou ágil e interessante e a opção de Silva de escrever os capítulos iniciais sem o auxílio dos colaboradores certamente foi determinante para a unidade do texto. Contudo, passada a apresentação da história principal e de seus personagens, Império resolveu focar nos núcleos paralelos enquanto aquecia a família Real em banho-maria. Dois deles se sobressaíram: o de Magnólia (Zezé Polessa) e Severo (Tato Gabus Mendes), casal sem caráter que não titubeava em tirar proveito da filha Ísis (Marina Ruy Barbosa), e o de Cláudio Bolgari (José Mayer), homem de vida dupla, casado com Beatriz (Suzy Rêgo) e amante de Leonardo (Kleber Toledo), que viu sua privacidade ser exposta por conta de uma rusga com o “jornalista” de fofoca Téo Pereira (Paulo Betty).

Ambos se perderam: na storyline de Cláudio, a interessante questão da exposição da vida alheia desapareceu logo, o casal homossexual se desfez e foi tratado como um mero affair, enquanto a cumplicidade entre Cláudio e Beatriz ganhou destaque. Quando tudo apontava para a manutenção desse casamento no final (afinal, Mayer e Toledo mal contracenaram durante um bom tempo), o casal homossexual foi colocado junto à fórceps, causando certo estranhamento. A impressão é que Silva não teve coragem de sustentar seu casal gay (e as polêmicas trazidas pelo tema, vide a atual Babilônia) durante os 203 capítulos e resolveu poupar dor de cabeça a si próprio, deixando-os juntos apenas nas primeiras e última semanas da trama. Final mais cabível seria ter dado ao trio um relacionamento aberto (algo que já havia aparecido em Duas Caras, também do autor), mas tal destino foi dado aos personagens Xana, Naná e Antônio (Aílton Graça, Viviane Araújo e Lucci Ferreira, respectivamente), trio que tinha menos liga que o anterior.

O pulo na trama de Magnólia e Severo foi ainda mais abrupto: a falta de escrúpulos foi providencialmente resolvida por uma doença (mal de Alzheimer) surgida nos últimos capítulos. Para cuidar do marido adoentado, Magnólia simplesmente se tornou mãe e ser humano exemplares. E ponto. Mas nada ainda tão absurda quanto a situação de Cora…

A vilã vivida por Drica Moraes e Marjorie Estiano prometia vir à altura da vilã de Sorrah, mas na promessa ficou. Na fase vivida por Moraes (que teve que se afastar por problemas de saúde), Cora era a típica antagonista amargurada, que muito praguejou, reclamou, mas demorou a agir. Quando o fez, foi para eliminar dois personagens secundários em crimes que pouco afetaram o andamento trama. Interpretada por Estiano, a personagem pareceu ficar mais ativa, sobretudo em sua obsessão pelo protagonista. No entanto, mesmo após outros dois assassinatos, conseguiu ser perder novamente: seus crimes pouco reverberaram ou interferiram nos destinos dos personagens principais. Cora morreu a três semanas do fim da novela, segundo Silva, porque sua personagem cumprira sua função. Qual função foi esta é o que o espectador estaria se perguntando até agora se Império não fosse uma lembrança quase apagada da memória (e prefiro nem comentar o Deus ex machina que foi colocar a culpa no mordomo, cujo único mérito foi dar algumas boas cenas a um ator do calibre de Othon Bastos).

O uso do quase acima não se deu à toa: Império teve seus acertos (ou eu não afirmaria que é a melhor novela Aguinaldo Silva nos últimos anos). Cristina, mocinha vivida por Leandra Leal, não tinha nada de ingênua e, apesar do caráter de heroína incorruptível, ficou longe de ser o baluarte da moral como eram as insuportáveis Maria do Carmo e Griselda (esta, Lilia Cabral em Fina estampa), que faziam questão de verbalizar seus valores para qualquer personagem-orelha com quem contracenassem. Cabral, por sinal, pode fazer as pazes com Silva, que se redimiu da heroína rasa e aborrecida, dando-lhe agora uma personagem dúbia (moralmente, inclusive), que se debatia entre o amor e o ódio pelo marido que, além de a trair, tratava-a mal. Coube a Nero, no entanto, a missão mais difícil: além de trabalhar uma composição caricatural que teve que dar conta de atribuir ao personagem nuances visuais fortes sem cruzar a linha do overacting, encarnou um anti-herói que tinha um calcanhar de Aquiles que, por pouco, não o tornou mais “anti” do que “herói” – a amante Ísis, personagem já citada de Barbosa. Isso porque o caso entre os dois não só dependia do sofrimento de uma terceira (Maria Marta/Lília Cabral), como se configurava quase que como uma relação de servidão sexual – no início de Império, Ísis não trabalhava, não tinha amigos, e mal saía do apartamento; apenas ficava ali, aguardando para servir o amante. Para a sorte do protagonista, tal dinâmica logo se alterou, fazendo com que seus demais desvios de caráter – todos funcionando em prol da ambição e da manutenção familiar – fossem mais facilmente perdoados.

Império teve, por fim, o trunfo de contar com bons diálogos – ainda que excessivamente expositivos, eram frequentemente divertidos e espirituosos. Isso exacerba simultaneamente o que deu certo e o que desandou na novela: por trás de uma micro-estrutura por vezes bem lapidada, havia uma macro-estrutura meio bamba. Não raramente, um bom diálogo era seguido por um solilóquio, que era ouvido por outro personagem atrás da porta e assim se revelava um segredo da trama. Ou seja, Silva tem algum esmero em colocar as cerejas no bolo, mas é preguiçoso ao bater a massa e a deixa solar. Sua fraqueza não está nos diálogos, mas na escaleta. Sua antiga parceria com Ricardo Linhares, atual comparsa de Gilberto Braga, e, dizem, um exímio escaletador, parece ter sido determinante em suas melhores novelas, na época do realismo fantástico. Este é o gênero ao qual Aguinaldo Silva deveria voltar: é um terreno onde eventuais furos passam mais facilmente desapercebidos, ou, ao menos, pode-se adotar uma emenda tão estapafúrdia quanto o soneto. Por ora, os últimos impérios de Silva têm contado com construções ornamentadas cujas bases estão sustentadas em areia movediça. Império por império, o Babilônico que está sendo erguido por Braga, Linhares e João Ximenes Braga parece bem mais promissor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s