Homens de família

Por Álvaro André Zeini Cruz

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(com spoilers)

Na imagem acima, Don Draper (Jon Hamm) vela o sono dos filhos sob o olhar da esposa Betty (January Jones). Numa série como Mad Men, que se debruça sobre era de ouro da publicidade norte-americana na década de 1960, esta é provavelmente a mais publicitária das imagens contidas no piloto, afinal, está nela o típico ideal familiar dos comerciais de margarina. É, no entanto, curioso que esta imagem, bem como o dado de que Don é um homem de família, apareça apenas ao fim do episódio, quando o protagonista sai de Nova York, local de trabalho, a caminho do lar, localizado no subúrbio. Ficam para trás outros “Dons” que conhecemos ao longo da narrativa: o publicitário de sucesso, o homem de passado obscuro, o homem de várias amantes.

A imagem publicitária se dedica a vender ideais que gravitam em torno do ser ou do ter. Para Don, que teve uma infância de maus tratos, indo inclusive parar num bordel, a família provavelmente era um ideal, agora aparentemente alcançado. Aparentemente, porque essa situação de estabilidade logo se desconstrói: além de infiel, Don é um marido ausente e um pai distante, a ponto de não comparecer ao aniversário da própria filha (e compensar a ausência com um bichinho de estimação). É um estranho no ninho. No seu próprio ninho e é justamente esta sua tragédia: almejar uma vida a qual não consegue se adaptar.

Talvez porque Don seja uma mentira desde o nome na carteira: ao desertar da guerra, ele assumiu a identidade de um companheiro morto. Sua nova vida é, portanto, um castelo de cartas, cujos alicerces são constantemente abalados pela iminência do passado (como o irmão legítimo que se suicida ao ser por ele renegado). Don tenta a todo custo manter sua soberania de patriarca: impede que a esposa volte a trabalhar e sabe tudo o que se passa nas sessões de terapia dela (Betty, por sua vez, é mais “desperate” do que todas as Desperate Housewives da ABC juntas). Mas é inevitável: em algum momento, as coisas lhe escapam. Seja o constrangimento de uma camisa abotoada errada (cena do episódio piloto), seja o momento em que a esposa deixou de amá-lo. Don luta por manter sua imagem alinhada, mas ela está sustentada sobre areia movediça e ele não sabe bem como lidar com isso. Não como Walter White.

O protagonista de Breaking Bad (que, como Mad Men, é produzida pelo canal americano AMC) é um professor de química de ensino médio que vive uma versão meio ordinária do american way of life. Cheio de contas para pagar, Walter descobre um câncer terminal e a doença é o pontapé para que ele saia de seu mundo comum: para deixar algo à família, ele passa a produzir e traficar metanfetamina. Contudo, a família logo deixa de ser motivo para se tornar uma desculpa para que Walter dê manutenção a algo até então nunca conquistado: poder.

Esposa, filhos e cunhados são enredados nas artimanhas de Walter de tal forma que não conseguem se desvencilhar. Se algo escapa das mãos do protagonista, ele logo trata de retomar o controle, haja o que houver, doa a quem doer. A família se torna refém de seu patriarca e ao final da série, isso é literal: culpado pela morte do cunhado e com o cerco se fechando contra ele, Walter confronta a esposa Skyler (Anna Gunn) e o filho Walter Junior (RJ Mitte) munido de uma faca, numa das cenas mais dramáticas da série. Quando mãe e filho acuados se afastam do pai, Walter grita: “Qual o problema com vocês? Somos uma família!”. A evocação da instituição familiar é tardia; ela já fora estilhaçada durante a série. Walter então apanha sua bebê de colo e sai sob os protestos desesperados de Skyler. Sequestra a própria filha.

Quando Walter e Skyler se reencontram, no episódio final, vem a confissão: tudo o que Walter fez, fez por si próprio. Fez do câncer uma oportunidade, da família, um meio. Trata-se de um patriarca cujo egoísmo é calculado e dissimulado durante toda a série, afinal, sempre duvidamos das intenções ambíguas desse homem. Don é o oposto: sua família inicia como refém dessa imagem de perfeição, das convenções sociais, mas quando nota a incapacidade que esse patriarca tem de amá-la, vai se libertando. No último episódio da primeira temporada, Betty, no auge de sua solidão a dois, procura como ombro amigo um garotinho da vizinhança e confidencia: “Eu não tenho com quem falar”. Adiante, no divã do terapeuta, ela fala sobre Don: “Ele não sabe o que é família. Ele nem tem família. Isso me faz sentir pena”.

É neste mesmo episódio que Don, ao exibir fotos da própria família para clientes da Kodak, se dá conta do que está perdendo, deixando escorrer entre os dedos (e tal cena se tornou célebre na história da série). Don sai do trabalho e, ao chegar em casa, é recebido com carinho pela esposa e filhos para o feriado de ação de graças. Essa imagem da família irretocável de comercial de margarina logo se revela uma ilusão e se desfaz. Na realidade, Don chega e encontra a casa vazia. Solitário, senta ao pé da escada. A música de Bob Dylan, “Don’t think twice, it’s al right”, entra e fala “You are the reason I’m travellin’on / But don’t think twice, it’s all right” (“você é a razão por eu estar partindo / Mas não pense duas vezes, está tudo certo”). E a temporada se encerra.

Mad Men ainda tem uma última temporada antes de chegar ao fim, mas essa inadequação de Don Draper ao modelo da instituição familiar se estende durante toda a trama. Esse homem que se debate com seus fantasmas vai tornando-se cada vez mais solitário, vendo se desfazerem os frouxos laços que conseguiu fazer em sua vida de mentiras. Um homem que, provavelmente, nunca terá uma vida de verdade. Diferente de Walter White, que sacrificou a tudo e a todos, mas no final, morreu com uma expressão leve e serena estampada na cara. São trajetórias opostas que têm em comum a desestruturação familiar e a busca pela manutenção do poder, algo que para Walter se deu de forma plena, enquanto que, para Don, parece ter cada vez menos sentido. A tragédia de Draper é pior: ao que tudo indica, ele nunca será o homem que quer ser.

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