Fugitivos do Passado

Don Draper segue para o Oeste de mãos dadas com a América no final de Mad Men

Por Fernando Americo

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*Este artigo discute o episódio final de Mad Men e momentos de toda a série. Há spoilers. Se você não viu a série e quer assistir sem saber nada, guarde este artigo para ler depois

O que dizer sobre o episódio final de Mad Men que ainda não foi dito, dissecado, discutido até a exaustão? A série podia não ter muita audiência, mas a repercussão que atingiu, principalmente depois do episódio final, foi digna do seu lugar na nova Era de Ouro da televisão americana. “O fim de uma era”, dizia a publicidade da AMC, que se destacou no panorama dos canais que produzem séries dramáticas, como FX e HBO, graças à história de Don Draper, Peggy Olson e companhia. Mas o slogan não é claro. Seria o fim da era dos anos 50, que estendeu sua sombra sobre o início dos 60 – e sobre as quatro primeiras temporadas da série? Ou seria o início do fim da era das transformações dos anos 60? O final de Mad Men foi uma celebração do espírito libertário da Era de Aquarius, ou a constatação do início de sua queda?

Havia muita expectativa quanto ao final da série, porque o que geralmente se espera é que ele arremate, não só dramaticamente, mas também esteticamente, o que veio antes. E no caso de uma série como Mad Men, como isso poderia ser feito de maneira satisfatória? Os criadores da série tinha um problema em suas mãos, agravado pela desigual repercussão de outros finais de série de muito sucesso, como Lost, Dexter e True Blood. O final de Família Soprano, se não foi decepcionante, ficou marcado como uma incógnita para o público. Será que Matt Weiner, que fez parte da equipe que escreveu Família Soprano, também deixaria o final em aberto, sem conclusão? Em outras palavras: saberíamos com certeza qual seria o destino de Don Draper?

Esta é uma nova pergunta, que só foi possível nas temporadas finais da série. Antes, a pergunta que mais se colocava – inclusive nos diálogos – era Quem é Don Draper. E isso, ele mesmo não sabia. Tudo o que ele sabia era o que ele queria ser. Mad men é sobre pessoas e sobre as histórias que essas pessoas contam sobre si mesmas. É sobre a oposição entre a fachada e o interior, entre a aparência e a essência, entre a vida que vivemos e a que poderíamos ter vivido. Isto se espelha inclusive na estrutura dramática da história. A cada episódio, a realidade dos anos 60 – pesquisada ao pormenor por Weiner e sua equipe – se entrelaça com as vidas imaginadas de personagens que dão um novo significado à História com H maiúsculo que pensamos conhecer. O próprio Don Draper é, de certa forma, uma charada histórica, um John Kennedy alternativo que casou com Marilyn (a loura Betty) e se divertia com as Jackies (as morenas Midge, Rachel, Suzanne, Megan, Sylvia… esqueci alguma?)

Filho de uma prostituta que morreu durante o parto, Dick Whitman tem uma chance de seguir em frente, sem olhar para trás, ao tomar o nome e a vida de outro homem. A partir daí, ele seguiu como se sua vida anterior nunca tivesse existido, Como o Gatsby de Scott Fitzgerald, ele quer um segundo ato em sua vida. Seu ideal é nada menos que a perfeição, com uma casa nos subúrbios e uma família de comercial de margarina. Contador de histórias profissional, sua mais perfeita história é sua própria vida. Don Draper se reinventou, mas ninguém pode fugir de si mesmo. Onde quer que vá, o fantasma de Dick Whitman, sua vida não vivida, o persegue. Acontece quando ele olha no espelho depois de experimentar um baseado e se lembra do vagabundo do episódio The Hobo Code. Acontece quando ele prende Peggy durante uma interminável noite no escritório no episódio The Suitcase. Acontece na reunião da Hershey’s, quando aparentemente sem motivo algum ele desfaz o cenário paradisíaco descrito no seu pitching para contar a verdade: ele comprava o chocolate Hershey’s com o dinheiro que roubava do bolso dos clientes do bordel, no doloroso final da sexta temporada, In Care of. Acontece quando ele abraça um estranho, que chora com ele durante uma reunião dentro do retiro hippie, cenário de mais da metade do episódio final da série. O relato do estranho traz a ele a vida que não viveu, o garoto de menos de 10 anos escondido nas sombras da casa de sua madrasta; a vida que ele escolheu deixar de lado quando fala com o vagabundo de The Hobo Code. “Há cheiro de morte aqui por todo lado” diz o vagabundo sobre a casa de Abigail, e Don não consegue se livrar desse cheiro na sua vida adulta, por mais que se banhe em ouro.

A trajetória de Don Draper, assim, é um paralelo da história dos Estados Unidos e sua tentativa de esconder os problemas debaixo do tapete. Como a própria América, Don Draper tentou passar incólume pelas mudanças dos anos 60. Esta ideia é expressada de maneira simples pela sua indumentária. Para Don Draper, vestir-se era se preparar para a guerra. O terno bem cortado, a gravata impecável, as abotoaduras, e principalmente o ato de arrumar a manga da camisa se tornaram uma marca registrada para o público: agora, Don vai entrar em ação. Depois, ele podia relaxar e, quem sabe, nos deixar enxergar Dick Whitman, deitado em posição fetal, sendo flagrado pela sua filha numa relação extraconjugal, ou chorando compulsivamente ao ver que Peggy ouviu toda a sua conversa sobre Anna Draper ao telefone. Durante a passagem do tempo, vemos esta fachada ficar mais e mais imutável enquanto tudo ao seu redor se transforma freneticamente. E finalmente, na temporada final, vemos essa fachada ruir. A cada episódio, ele perde algo: a segurança de poder conquistar uma mulher, os móveis, a casa, a identidade como publicitário, o carro, as roupas… Ao chegar aos dois últimos episódios, ele está pronto para seguir o exemplo do vagabundo que lhe deu a senha para sair de sua vida miserável. “Por vezes”, diz o vagabundo acendendo um cigarro, “todos nós gostaríamos de estar em outro lugar”.

A escolha de fazer Don Draper fugir de sua própria vida nos últimos sete episódios da série representou uma ousadia formal arriscada. Ao sair da reunião de criação da McCan Erickson, onde ele descobre que seria mais um entre as dezenas de criadores – “mais uma cor numa cesta de beijos” – Don Draper deixou de interagir com os personagens habituais da série, para se aventurar por relações e lugares que muitas vezes não tinham razões dramáticas para existir. A internet tomou antipatia principalmente por Diana, a garçonete que se torna a morena “bola da vez”. Esta história, particularmente pouco desenhada a ponto de ter diálogos que mais pareciam cenas de sonho – outro recurso que a série usa em demasia – não levou a lugar nenhum, e se a liberdade dada a Matt Weiner teve algum lado ruim, é talvez uma autoindulgência que muitas vezes mais obscurece que reforça a história a ser contada.

Mas a verdade é que o abandono de Nova York e a jornada para o Oeste, se foram um risco estético, também estão coerentes com a jornada interior de Don Draper, de se desfazer de tudo, de sua fachada, e buscar a essência, sua vida não vivida. Durante o episódio final, Don/Dick tem 3 conversas telefônicas interurbanas (que nos Estados Unidos se chamam “Person to Person”, o nome do episódio) em que se despede das três mulheres de sua vida: Sally, Betty e Peggy. Peggy chega a dizer para ele não ficar sozinho. Aqui, o espectador pensa que Don vai se matar. Mas o sentido é outro. O casulo que ele construiu em torno de si mesmo ruiu, e Don não consegue nem se mover mais. Destituído de uma identidade própria, Don é literalmente conduzido a um seminário no retiro hippie onde acontece a já citada interação com um personagem que representa o lado fraco e invisível de sua personalidade. É como se Don Draper ouvisse Dick Whitman falando. Nesse momento, ele faz as pazes consigo mesmo.

Até aqui, apesar de alguma gratuidade nas situações, temos uma trajetória de redenção do protagonista, algo de acordo com os finais dos outros personagens, principalmente Peggy, que encontra o amor ao lado do colega de trabalho Stan. Mas na última cena, Matt Weiner deu resolveu complicar as coisas ainda mais. Don Draper usando roupas coloridas (sem o terno, sua armadura para enfrentar o mundo) se senta em posição de lotus para meditar, com um sorriso furtivo no rosto… e inventa o comercial real em que várias raças se juntam para entoar um coro em nome da sagrada Coca Cola – a “baleia branca” de Don Draper, referenciada em vários pontos da última temporada.

Muitas pessoas se sentiram traídas por este final. Para elas, Don Draper não mudou, sua trajetória ficou na mesma, já que o seu crescimento pessoal se tornou mais uma ferramenta para vender refrigerante. Esta é uma das possibilidades de interpretação, o que com certeza estaria coerente com tudo o que vimos na série. Quase todas as campanhas de Don Draper dizem respeito a sua própria vida, de uma maneira ou de outra, como se fosse um espelho refletido. E se existe algo que a série insiste dramaticamente, é na recaída dos personagens em situações e problemas já vividos e não resolvidos. Para Matt Weiner, embora as pessoas tentem mudar, nem sempre elas conseguem. Nesse sentido, o final pode ser lido como uma volta de Don aos antigos hábitos… o que não quer dizer que ele não tenha verdadeiramente mudado e encontrado a iluminação interior na ioga. Afinal, quem garante que só por que ele conseguiu finalmente unificar os dois lados de sua personalidade (Dick Whitman e Don Draper) ele seria necessariamente uma pessoa melhor? O final seria mais uma volta do carrossel da vida, o eterno retorno dos nossos próprios fantasmas.

E no entanto, poucos dias depois do episódio final ir ao ar, o próprio Matt Weiner deu uma outra interpretação ao final, dizendo que o comercial de Coca-Cola exibido é um dos melhores de todos os tempos, e o primeiro em que pessoas de raças diferentes dividem o mesmo espaço. O comercial seria, ele mesmo, um ponto de virada na publicidade, e não haveria ironia no fato do “novo” Don Draper tê-lo criado. A verdade é que, se o final não é indefinido, é pelo menos ambíguo. Ao deixar a superposição de imagens falar por si, Mad Men conseguiu fazer uma espécie de Teste de Rorschach dramático, onde cada um enxerga o que quer, ou pode ver. Weiner não fez um final indefinido como o de Família Soprano, mas criou uma charada dramática que cada um é capaz de decifrar a seu modo.

Para concluir, podemos interpretar o final acrescentando uma camada a mais de ironia. Afinal, se Don Draper usou seu nirvana pessoal para vender refrigerante, mais uma vez ele estaria à frente de seu tempo. Don sempre teve o pulso da cultura. A capacidade de interpretar de maneira correta os sinais que a sociedade lhe enviava era era um de seus pontos fortes, com algumas exceções – definitivamente TOMORROW NEVER KNOWS não seria a melhor faixa para um homem como Don Draper começar a escutar os Beatles. Por esta interpretação, Don prevê os anos 80, onde os ideais libertários da geração dos anos 60 e 70 seriam cooptados em nome do individualismo e da cobiça. Neste sentido, o movimento de volta à publicidade seria apenas mais um passo de Don Draper no sentido de adiantar o real significado do que estava por vir na sociedade americana, que tentaria se “esquecer” das transformações políticas e sociais dos anos 60 num processo conduzido por Ronald Reagan, um ator que se reinventou como Presidente. A América, como Don Draper, só anda para a frente, sem se permitir olhar para trás.

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