Quando um garoto se faz homem

Por Marcella Grecco

acaca

(contém spoilers)

A Caça (Jagten, Dinamarca, 2012) talvez seja um dos mais belos e intrigantes filmes de Thomas Vinterberg e teve sua première no ano de 2012 em Cannes, ocasião em que Mads Mikkelsen recebeu o prêmio de interpretação masculina por Lucas. O filme também ganhou sete prêmios no 30° Robert Awards, evento considerado o Oscar dinamarquês, entre eles o de melhor filme, diretor e ator e o prêmio de melhor filme estrangeiro independente no 15º British Independent Film Awards. Além disto, A Caça concorreu, entre outros, ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014, assim como ao Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira no mesmo ano. Apesar das premiações e indicações, as opiniões parecem ter ficado um pouco divididas no mundo da crítica.

Pude notar certa obsessão em relacionar os seus filmes com os de Lars von Trier e o Dogma 95. Ambos são conhecidos por terem lançado juntos no ano de 1995 o dogma, uma espécie de manifesto contrário ao cinema comercial e favorável a um cinema livre de ilusões e de “cosméticos”, conforme escrito no próprio documento. Entretanto, cada diretor tem o seu estilo, seguiu um caminho e passou a lidar com a indústria cinematográfica de determinada forma. Simplesmente apontar como um diretor ainda se enquadra ou não no manifesto para valorizar um trabalho me parece brincadeira de criança. Ademais, já se passaram praticamente 20 anos desde o lançamento do manifesto e não entendo muito bem essa insistência de querer circunscrevê-los constantemente ao movimento. Afinal, são eles seres imodificáveis e estagnados no tempo ou históricos e passíveis a mudanças? Quantas transformações não ocorreram no cinema e no mundo desde então? Somado a isso, é praticamente impossível seguir o Dogma 95 ao pé da letra por toda uma vida, visto a disciplina exigida pelas suas regras. Considero também que não houve a intenção por parte dos diretores de se manterem presos ao manifesto para sempre, já que a preocupação primeira era mostrar para todos uma nova perspectiva para o fazer cinematográfico. Ao meu ver, ambos diretores conseguiram tal façanha, seja com Festa de Família (1998) ou com Os Idiotas (1998).

O estilo de Vinterberg tem estado cada vez mais parecido com o do alemão Michael Haneke. Ainda que os filmes de Haneke sejam mais uniformes entre si com relação à forma de anunciação da temática e ao encaminhamento da trama, Vinterberg tem em sua filmografia filmes sérios que, sem deixar de serem inventivos, retratam de forma madura assuntos polêmicos, como o já citado Festa de Família (1998) e Querida Wendy (2004). Em seu penúltimo filme, Submarino (2010), ele se aproxima ainda mais de Haneke, ao produzir um verdadeiro soco no estômago do espectador. Tanto Haneke quando Vinterberg costumam trabalhar com personagens psicologicamente bens construídos e com coisas simples do cotidiano. Nada de muito extraordinário, apenas o preto no branco; da forma como é na vida real. Bem, vamos para A Caça, sem trocadilhos.

O tema é polêmico, mas o filme não para por aí. A pedofilia é só um pretexto para que as relações humanas sejam analisadas. Não é um filme sobre pedofilia; ninguém fica discutindo a questão em si e os distúrbios que levam alguém a concordar com tal prática. O filme fala, sobretudo, sobre a vida em sociedade. A metáfora com os animais e a sobrevivência na floresta já é anunciada logo no título. Ora somos presas ora caçadores e a rapidez com que isso se modifica é impressionante. Podemos nos sentir confortáveis e seguros com a cumplicidade e com a amizade em um grupo de conhecidos. No entanto, Vinterberg coloca o dedo na ferida e mostra como essa suposta coleção de características engrandecedoras referentes aos seres humanos que nos coloca em um falso patamar com relação aos animais é patética e delicada.

Lucas (Mads Mikkelsen) é um homem com cerca de quarenta anos de idade que trabalha em uma creche. Ele passara por um divórcio complicado e luta pela guarda do filho, Marcus (Lasse Fogelstrom). Theo (Thomas Bo Larsen) é seu melhor amigo e tem uma filhinha chamada Klara (Annika Wedderkopp), que frequenta a creche na qual Lucas trabalha e mantém uma grande admiração por ele. Certo dia, uma criança mostra a ela a foto de um homem nu com o pênis ereto. Klara observa a imagem assustada e guarda confusamente o ocorrido na cabeça. No dia seguinte, Lucas acompanha Klara até a creche e, como uma demonstração de afeto, Klara faz um coração e entrega a ele. Ao colocar o coração no bolso de Lucas ela lhe dá um beijo na boca. Lucas conversa com ela sobre o beijo e o presente e Klara, com raiva da represália e triste pela rejeição, diz para a diretora da creche que Lucas havia mostrado seu pênis ereto a ela. Daí em diante uma verdadeira caçada tem início. Por mais que a pequena Klara se desculpasse e afirmasse que inventara tudo, ao ver o que acontecera com Lucas, os adultos diziam que ela estava confusa e que já não sabia mais distinguir os fatos.

A perda da inocência é uma questão constantemente destacada durante a narrativa. A criança foi inocente ao mostrar a foto com o pênis, Klara foi inocente ao afirmar que Lucas havia lhe mostrado as partes íntimas e Lucas foi inocente ao acreditar que poderia manter uma relação próxima com a filhinha de outra pessoa e ao acreditar que a comunidade saberia que ele não é um pedófilo. Podemos ver também como toda a comunidade foi inocente ao julgar Lucas sem procurar averiguar corretamente o ocorrido e como Lucas foi inocente ao acreditar, já no final do filme, que tudo teria voltado ao normal.

Todos parecem, em certa medida, perder a inocência com o decorrer dos acontecimentos ou com a constatação das consequências de seus atos. Para dar fim à narrativa com uma espécie de chave de ouro, Vinterberg reúne todos os participantes da intensa caçada empreendida até então na festa de aniversário de Marcus, filho de Lucas. Novamente o diretor trabalha com a metáfora da caça, já que como presente de aniversário e como um símbolo da transição da infância para a vida a adulta, Marcus ganha uma arma e uma licença para caçar. “Hoje é o dia que um garoto se faz homem”, anuncia seu padrinho, “Você recebeu sua licença de caça e amanhã, ao raiar do dia, será sua vez. Vai se transformar num homem. Vai conquistar a floresta”. E mais uma vez a questão da perda da inocência atravessa a narrativa, abruptamente neste caso, quando, na manhã seguinte, ao partirem para a caça, o tiro mais certeiro é o lançado contra Lucas, abrindo espaço para os créditos finais do filme, instantes depois de seu olhar assustado acusar enfim a morte de sua inocência.

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