Editorial 6

Somos todos curadores! Cada vez mais. O simples zapear pela televisão é um ato de curadoria. A escolha entre um ou outro filme, também. Diariamente, optamos pelo audiovisual (seja ele arte, produto ou ambos) que enfrentará nossos olhos e ouvidos e, ao fazermos essa opção, excluímos outros expoentes deste universo – uma exclusão por vezes temporária, já que nada impede que o preterido possa ser visionado mais adiante, ainda mais em tempos de janelas múltiplas e acesso mais democrático (mas voltemos a isso adiante).

A primeira curadoria que fiz foi lá pelos cinco anos de idade, na locadora Chaplin, Itápolis, interior de São Paulo. O espaço era pequeno (minúsculo, na verdade) e as prateleiras de VHS eram todas meio apinhadas pelo estabelecimento sem muita luminosidade. Havia um cheiro de pó – charme normalmente reservado às bibliotecas, mas que esta locadora tinha tomado para si –, o que dava às visitas ao lugar uma aura ainda mais especial. Geralmente, eu e minha irmã nos detínhamos na sessão infantil, mais próxima da porta, mas um pouco mais crescidos, passamos a explorar a sessão de horror, sobretudo nas férias, quando nossos primos vinham visitar.

Anos depois, já morando em Bauru, minhas visitas à locadora passaram a ser constantes entre os quinze, dezesseis anos. O estabelecimento era a recém-falecida “Vídeo Imagem”, que deu seu último suspiro há poucos meses. Embora a loja fosse pequena, fazia parte de uma rede que se espalhava pela cidade. Não tinha o cheirinho de pó e a disposição de porão da Chaplin (bem verdade, parecia “livremente inspirada” na Blockbuster, mas com um jeitinho mais interiorano), mas tinha o atrativo de ser entre as três quadras que separavam a escola de inglês e minha casa, ou seja, era irresistível dar uma paradinha lá. Principalmente às quartas, quando os lançamentos saíam a R$ 3,50, desde que se levasse no mínimo quatro. Ou seja, no meio da semana, dia de jogo de futebol (coisa para qual eu nunca liguei), fosse semana de aula, férias ou semana de prova, eu chegava em casa com uma sacolinha de DVDs e R$ 14,00 mais pobre (e é importante ressaltar que minha mesada eram duas onças pintadas, cujos rugidos tinham que dar para filmes, festinhas e lanches do intervalo).

Hoje, dez anos depois, a locadora mais próxima de casa é esta da qual vos escrevo. Basta minimizar o Word, googlar o torrent e pronto. Ou entrar em alguns fóruns especializados como o Making Off e o Karagarga. Ou visitar a página da badalada Netflix (que matou a Blockbuster sem escarafunchar muito a faca), cujo repertório de filmes custa mensalmente a bagatela de dezesseis pilas (lembrem-se que eu gastava quatorze em quatro, Q-U-A-T-R-O DVDs). Ou recorrer ao Popcorn Time, app que está na crista da onda. Ou fazer qualquer uma dessas coisas a partir da televisão da sala. É claro que, para nós cinéfilos que não nos contentamos com o Home Vídeo, há sempre as salas, hoje quase plenas nos shoppings, exibindo um circuitinho muito meia boca (pensando bem, viva o Home Vídeo!). O que quero assinalar é que sempre fomos curadores e assim permanecemos. Contudo, o catálogo à disposição hoje é infinitamente maior, e não só temos maior acessibilidade às obras, mas também às diferentes formas de visioná-las (o que é algo que nos possibilita driblar o circuito pobre e que, portanto, merece ser celebrado). Diante desse mundo que se abriu, sermos curadores para nós mesmos se tornou uma tarefa um tanto árdua. A escolha de um filme para ver com a namorada ou com os amigos então nem se fala: muitas vezes se desdobra numa discussão que não é difícil atingir o mesmo tempo da projeção. Claro que, terminado este texto, vou me sentir um cretino-rabugento-preguiçoso por “reclamar” das maravilhas proporcionadas pelo online e do on demand. Mas não entendam este escrito como uma reclamação. É mais uma nostalgia. Saudade de ficar horas garimpando – com direito a palpites dos atendentes, – entre os títulos da Vídeo Imagem. Saudade da época em que a dúvida oscilava apenas entre Fievel – um conto americano ou A ratinha valente. Talvez a saudade seja só do cheiro de pó sobre os VHS. Hoje, o cheiro está mais para o de suor, afinal, essa curadoria particular é trabalhosa, exigente, faz transpirar. Peguemos então nossos desodorantes e mãos à obra, porque seja pela cidade ou pela casa, há sempre uma tela esperando algo para ser passado. E visto, claro…

***

Nesta 6ª edição, Gabriel Carneiro fala do brasileiro Brasa Adormecida, Marcella Grecco sobre o espanhol Cria Cuervos, Álvaro André Zeini Cruz traz um paralelo entre Além da Vida e AI: Inteligência Artificial, e Phillippe Watanabe volta à televisão americana para falar da série Olive Kitteridge.

 

Álvaro André Zeini Cruz

editor

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