Edição 11

Edição lançada em 28/03/2015

Editorial 11

A querela do beijo gay já tem espaço garantido na história da nossa telenovela, afinal, há mais de uma década – desde Mulheres apaixonadas, de 2003 –, tem sido questão. O beijo em si só saiu recentemente, protagonizado por Mateus Solano e Thiago Fragoso no último capítulo de Amor à vida, de Walcyr Carrasco. Entretanto, não causou o abalo sísmico que o beijo entre Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, no primeiro capítulo de Babilônia, desencadeou. Talvez porque na trama de outrora, os personagens já tivessem conquistado o afeto do público. Mas, muito provavelmente, porque para os “defensores” da “família brasileira tradicional” (seja lá o que ela for) se torna tarefa cada vez mais árdua desqualificar um beijo quando dado por duas atrizes de tamanho quilate – é muito mais fácil acusar um jovem ator como Solano de ter “se vendido” (acusação que em algum momento da carreira paira sobre os atores globais) do que dizer o mesmo de Montenegro. O furor dos conservadoristas vem, portanto, porque, para eles, esta é uma pauta perdida, que logo deve integrar-se ao cotidiano televisivo sem mais gerar burburinho. A concorrente, por sua vez, vende sua novela “repleta de conflitos familiares, intrigas, luta pelo poder, traições, inveja, ódio, paixões proibidas e amores impossíveis, em tramas recheadas de muita emoção” (entre aspas porque é o que está no site de apresentação da trama). Ou seja, tudo muito família…

Mas passemos à próxima pauta polêmica deste mês de março (será que são as águas?): a fala de Paulo José, que “laureou” o cinema brasileiro com o título de “pior cinema brasileiro do mundo”. Tal qual o beijo, repercutiu por vir de onde veio (ninguém daria bola se viesse do Caio Castro) e por vir num momento em que nosso cinema parece ter ares de intocável. Não cabe aqui entrar na questão da amplitude do cinema nacional, pouco pensada na reverberação do depoimento, sobretudo quando embalada por um jornalismo cultural preocupado em criar manchetes. Pensemos, portanto, na fala (ainda que generalista) de Paulo José como algo isolado.

Salvo alguns olhares lúcidos, o cinema brasileiro, nos últimos anos, parece causar um deslumbramento excessivo: as atenções se direcionam mais a questões como produção, distribuição e público e muito pouco ao que se tem produzido. Há o predomínio de um certo oba-oba (“Produzimos, uhul! Distribuímos, ufa!”) – comemora-se quando um filme chega às salas, quando atinge um determinado número de espectadores (e dá-lhe montagens de agradecimentos no Facebook!), mas os filmes, de fato, são pouco colocados em crise.

O ator trouxe à luz algo interessante: esse sistema de “macetes” descoberto pelos diretores que parece criar uma série de tangentes entre os filmes, dar a eles uma mesma fórmula, e, consequentemente, caras muito semelhantes. Isso não se resume ao circuito mais comercial, mas também ao de festivais – não à toa, “filme de festival” tornou-se quase uma expressão. Generalista ou radical demais, o fato é que a fala de Paulo José causou comoção num meio em que a pasmaceira andava reinante, o que, no mínimo, me parece saudável.

Finalizando a sessão de polêmicas, e indo de fato à nossa edição, Marcella Grecco aborda o controverso Martha Marcy May Marlene. Em contrapartida, Phillippe Watanabe e Juliana Maués partiram de um consenso temático – a memória, – ainda que em cinemas distintos: o oscarizado Para sempre Alice e o poético Outtakes from the life of a happy man, de Jonas Mekas. Por fim, Álvaro André Zeini Cruz comenta a queda de Império (a novela) e relaciona a série The OC ao cinema adolescente de John Hughes.

Num mês em que o beijo esteve tão em voga e em que a “Rainha dos baixinhos” foi para a Record, desejamos uma boa leitura, mas nos despedimos com…

Beijinho, beijinho, tchau, tchau.

Álvaro André Zeini Cruz

editor

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