Corpo Presente, ou um estranho herdeiro da Paraísos Artificiais

Por Renato Coelho

Simone Iliescu  - janela - CORPO PRESENTE

Rodado ao longo de alguns anos e finalizado em 2012, Corpo Presente é o primeiro longa-metragem da dupla de cineastas Marcelo Toledo e Paolo Gregori, experientes curta-metragistas no cenário do cinema de São Paulo, tendo realizado diversos filmes desde o início dos anos 1990.

Foi nessa época que Gregori e Toledo integraram a Paraísos Artificiais, junto com Christian Saghaard, Debora Waldman e Paulo Sacramento; produtora que durou pouco tempo, mas que foi responsável por uma instigante produção de curtas, filmes radicais como Noite final menos cinco minutos (1993, Waldman), Sinhá demência e outras histórias (1995, Saghaard e Carlos Botosso) e Mariga (1995, Gregori), entre outros.

Amigos próximos e discípulos das ideias de Jairo Ferreira, legatários de um cinema de verve mais inventiva (ou do que JF nomeou de Cinema de Invenção), o grupo da Paraísos Artificiais, após a curta e embrionária existência da produtora, vem agora no século XXI se aventurando em interessantes incursões no formato de longa-metragem. E ainda, mesmo que em diferentes doses, continuam bebendo na fonte do Cinema Baudelairiano.

Paulo Sacramento realizou, em 2003, o documentário O prisioneiro da grade de ferro, e mais recentemente Riocorrente (2013). Já Christian Saghaard rodou, em 2008, o enigmático e pungente O fim da picada. Do grupo, apenas Debora Waldman, talvez a mais talentosa, aparentemente abandou o cinema.

Assim como ocorre em O fim da picada e Riocorrente, Corpo Presente se alinha a uma vertente de cinema especialmente paulistano, isto é, a de filmes que não apenas retratam ou se passam na cidade de São Paulo, mas nos quais a metrópole desempenha papel fundamental e central para as tramas, ou maior, para que os filmes possam mesmo existir.

Na trama, acompanhamos um dia na vida de três personagens: Alberto (Marat Descartes), um agente de funerária e frequentador de raves, em dívida com agiotas; Cynthia (Simone Iliesco), manicure em um salão de beleza e dançarina num clube noturno, que se aventura no universo da prostituição; e Beatriz (Raissa Gregori), operária em uma fábrica e admiradora de punk rock e tatuagens.

Diversamente de outros filmes na mesma vertente, em Corpo Presente esses três personagens nunca se encontram, ou mesmo suas histórias se entrecruzam em momento algum. Também não temos certeza se o dia tratado na vida de cada um dos personagens retratados seria o mesmo. Pela forma que o filme é estruturado, tudo indica que sim, mas tampouco isso importa. O que de fato envolve os três personagens é uma determinada atmosfera da cidade de São Paulo, pela qual parecem por vezes levados, ou melhor, sugados.

Mas é fato que também estão lá referências a certas tradições do cinema de São Paulo. Seja através de ecos do cinema de Carlão Reichenbach, ou mesmo alusões ao cinema da Boca do Lixo e algumas de suas convenções. E isso sem contar a atuação – e magnífico papel – de David Cardoso, a impagável participação de Alfredo Sternheim e a ponta de Darlene Glória.

Corpo Presente é um filme no mínimo estranho, no qual o registro das atuações foge dos padrões mais convencionais (pelo menos no âmbito do cinema brasileiro), mas que ao mesmo tempo dialoga com um cinema de cunho mais popular. É pena que não exista mais público para o cinema por estas bandas. Ou pelo menos para o cinema que não atende aos padrões e que, consequentemente, não embolsa as vantagens da máquina publicitária da Globo Filme$.

Já em termos de produção, o processo de feitura de Corpo Presente é daqueles que expõe as dificuldades e percalços por vezes enfrentados por realizadores brasileiros, no sentido de conseguirem efetivamente produzir seus filmes. Desde meados dos anos 2000, havia a ideia do longa-metragem para cinema, na verdade não com três, mas com quatro personagens cujas histórias se alternavam na narrativa.

Primeiro Gregori e Toledo realizaram o curta Corpo Presente: Beatriz, projeto contemplado pelo Prêmio Estímulo ao Curta-metragem e lançado em festivais em 2008, com 20 minutos de duração. Posteriormente realizaram o telefilme Corpo Presente: Alberto e Cynthia, com duração de 56 minutos e exibido na TV Cultura, na grade intitulada “Telefilmes Cultura”, no fim de 2009.

Dessa maneira, o quarto personagem presente no roteiro original foi cortado (“Jonas, um taxista viciado em corridas de jockey”, como define Paolo Gregori), e através de uma nova montagem e articulação das cenas dos três personagens remanescentes foi finalmente edificada a montagem final do longa-metragem, com seus 75 minutos de duração, tendo estreado no circuito comercial já em 2013.

Mas, ao fim, o que realmente surpreende é a unidade estética e narrativa que o filme demonstra, certamente pautadas na firmeza de ideias e propostas da dupla de diretores, bem como na apurada e enxuta fotografia de Aloysio Raulino.

Nas palavras de Gregori, Corpo Presente “é um filme que foi feito para ser visto por um público que gosta de cinema, mas um filme que não encontrou o seu espaço, pois este já não existe. Um tipo de cinema diferente, mas autêntico, para um público não elitizado.”

Fica a sensação de que em outros tempos, antes da massificação exercida pela televisão, quando o público brasileiro ainda efetivamente frequentava as salas de cinema para assistir aos filmes brasileiros, Corpo Presente e outros filmes com potencial popular – mas que fracassaram nas bilheterias -, como Falsa Loura (2007, Carlos Reichenbach), certamente encontrariam seu lugar ao sol.

Marat Descartes - CORPO PRESENTE

 

 

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