Corpo em cólera

por Álvaro André Zeini Cruz

 

Nada das superproduções dos clipes de Kate Perry ou Rihanna, nem dos figurinos bizarros de Gaga; é o corpo que está em voga em Chandelier (2014), videoclipe da australiana Sia, dirigido pela própria cantora e pelo artista Daniel Askill, que teve cerca de 10 milhões de acessos em sua primeira semana. Não que ele – o corpo – estivesse ausente nos trabalhos das demais citadas, mas sua presença aqui se faz intensa justamente por ser elemento alicerçante.

A música composta por Sia (que, por sua vez, já compôs para nomes como Rihanna, Beyoncé e Britney Spears) fala de uma garota entorpecida, que pouco sente e, quando sente, é porque está sob o efeito do álcool. Uma garota que, como diz a letra, “está aguentando firme pela vida”, uma vida provavelmente vazia. Talvez a tal moça seja a própria cantora, que pelo que se sabe, teve problemas com drogas e bebidas, além de ter sido demovida da ideia de suicídio. Pouco importa: o que está em questão não é o passado de Sia, mas o agora, o vídeo e o corpo como representação.

No clipe, Sia é representada por Maddie Ziegler, uma dançarina de doze anos, que veste um collant e uma peruca loura de franja reta, emulando o penteado da própria cantora. Quando a melodia começa, Ziegler, então suspensa entre as molduras da abertura de uma porta, salta ao chão. É como se se desprendesse do próprio cenário, deixasse de ser peça inanimada para agora, como corpo, ganhar vida. Vida esta que está ligada ao movimento, à dança, que, por sua vez, testará os limites do corpo.

A garota então se espalha pelo cenário, um apartamento antigo equipado com pouca mobília. Seus gestos, no entanto, são dos mais curiosos: das caretas assustadoras enfatizando os olhos arregalados, passando pelos movimentos geométricos no tempo da contagem (“one, two, three, drink”), até chegar aos rodopios e piruetas mais fluidos, há uma certa anarquia coreográfica. Nunca se pode prever qual será o próximo movimento ou como aquele corpo tomará o espaço. Tudo é possível a partir do momento em que ele passa a se mexer.

Ziegler se atira sobre os móveis, se arrasta e rodopia pelo piso, se contorce ancorada nas paredes, desce ao chão num espacate, transforma o corpo em silhueta ao colocar-se no contraluz da janela. Além da imprevisibilidade dos gestos, há em comum apenas a intensidade furiosa com que são realizados, mesmo nos momentos de graça. As constantes mudanças de direção propiciam pausas muito bem demarcadas e criam assim um ritmo tão intenso quanto o próprio movimento corporal. Potência que se mantém nos motivos que dominam o corpo (e que são apresentados sem muita lógica): letargia, robotização, cólera e beleza.

O corpo da bailarina é espasmódico: ora se contorce num aparente ataque de cólera, ora se geometriza em gestos robóticos, como, por exemplo, no momento em que ela senta à mesa. A câmera opta por planos longos e abertos para conseguir captá-lo (e sempre que Ziegler se aproxima demais, trabalha duro para não perdê-la de vista). Entre esses dois motivos predominantes, a coreografia corporal atinge à beleza nos instantes em que os movimentos se tornam mais fluidos. O clipe se polariza entre o fascínio provocado pelo registro da dança (algo que se faz presente desde os primórdios da história da imagem em movimento, como em Annabelle Butterfly Dance (1894), de Thomas Edison) e o estranhamento por parte da coreografia imprevisível. A letargia, no entanto, é uma constante: ainda que pareça ausente, afinal, o corpo se movimenta o tempo todo, ela é tema que parte da canção e encontra na dança uma resposta. Talvez Sia fale da letargia dessa geração de “party girls”, como diz a música; talvez da colocação de si própria diante de seus problemas passados. Pouco importa: o estado de inércia (o corpo preso à porta) se desdobra nessa ambiguidade de movimentos, ora simulacros potencializados de ações cotidianas (mais uma vez o sentar-se à mesa; o “escovar” dos dentes), ora resposta real – a mais pura cólera de quem sai do entorpecimento para a dor. Movimentos que têm a potência como única constante.

A questão do corpo (e do rosto como parte dele), no entanto, vai além: ao se apresentar no programa de Ellen Degeneres, Sia se colocou no palco o tempo todo de costas para o público e para as câmeras, enquanto Ziegler realizava a coreografia. No Late Night de Seth Meyers, foi a vez de Lena Dunham, estrela do seriado Girls, realizar a performance, enquanto Sia se manteve deitada de bruços no topo de um beliche (e a presença de Dunham é sintomática, já que Girls era, pelo menos no início, uma trama sobre garotas um tanto quanto entorpecidas). Ao se apresentar com o Coral Gay de Nova York, Sia mais uma vez se pôs de costas, enquanto os integrantes do coral, de frente, se apresentaram trajando a peruca loura. Capa da Billboard, a cantora posou com um saco de papel sobre a cabeça, no qual, entre outros dizeres, havia a pontuação de que ela não quer a fama.

Sia faz com que todos sejam representações de seu corpo, enquanto ela própria é um corpo parcial, sem face. Não que seu rosto seja um completo enigma, como é o caso da dupla do Daft Punk, mas a negação em mostra-lo é curiosa, sobretudo pelo fato de só podermos patinar sobre os motivos. Questionamento artístico ou pura jogada de marketing? O fato é que a peruca loura de corte reto emoldura rostos e corpos diversos, e Sia os explora ao limite enquanto ela própria se mantém “a salvo”, apresentada em parcelas nas performances, completamente invisível no videoclipe. Talvez a questão em Chandelier seja essa: a visibilidade através da potencialização e da estranheza, a representação como forma de ilusão. Uma coisa é certa: trouxe o corpo e a dança de volta ao cerne da música pop, principalmente quando as outras pareciam se atentar apenas para cenários, figurinos e efeitos computadorizados. Ou seja, se preocupavam com perfumaria.

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