Uma cartografia de Trancoso segundo Augusto Sevá

Por Gabriel Carneiro

A Caminho das Índias (1982)

A Caminho das Índias (1982)

O cineasta paulista Augusto Sevá tem pouco longas em seu currículo de diretor, apesar dos quase 40 anos de carreira. Atualmente, termina as filmagens de seu quinto longa, Taís & Taiane. Sevá foi aluno do curso de cinema da ECA/USP nos anos 1970, rodando seus primeiros curtas, todos documentários, no final da década. O número de filmes tem uma explicação lógica dentro do perfil do cinema brasileiro: no momento auge dessa geração, o chamado Jovem Cinema Paulista, os anos 1980, o cinema tupiniquim se desmoronou com as políticas do então presidente Fernando Collor de Mello, que fechou a Embrafilme e o Concine. Foram muitos anos até esses cineastas se reerguerem. Boa parte dessa geração, entre os que permaneceram no cinema, só voltaria a filmar nos anos 2000, com a Retomada mais do que estabelecida. É o caso de Sevá.

Dos quatro filmes já realizados – A Caminho das Índias (1978-1982), dirigido com Isa Castro, Real Desejo (1990), Estórias de Trancoso (2007) e Fala Sério! (2011) -, três são ambientados em Trancoso, distrito de Porto Seguro, que fica no sul da Bahia. Essa possível obsessão de Sevá com o tema se desdobra numa obra que cartografa Trancoso ao longo das últimas décadas. Cada um dos três filmes se debruça sobre uma cronologia específica do local, representando as transformações sofridas no distrito desde o final dos anos 1970. Cada qual com seu estilo e contexto de criação, a trilogia é o que mais próximo temos de uma epopeia sobre um local na cinematografia brasileira.

A Caminho das Índias acompanha a descoberta de Trancoso por forasteiros, encantados com as belezas naturais do local, que se assentam lá para fins turísticos e mercadológicos, no final dos anos 1970. O distrito, que até então mantinha características da época colonial, sem grandes alterações desde o descobrimento, com pequenas casinhas uma ao lado da outra, dispostas ao redor de um gramado (Quadrado), e uma igreja ao fundo, começa a ser modificado com a chegada de diversos estranhos, que trazem várias promessas. Fazendo um paralelo do evento contemporâneo com a descoberta do Brasil – Trancoso foi o local em que a esquadra de Pedro Álvares Cabral desembarcou em 1500 -, A Caminho das Índias aponta o caráter acidental prontamente subvertido desses episódios. Híbrido de ficção e documentário – na linha do que Jorge Bodanzky e Orlando Senna já tinham feito em Iracema, uma Transa Amazônica (1974) -, o longa traz Zé Celso e Cacá Rosset interpretando dois forasteiros que compram terras em Trancoso e se mudam pra localidade, interagindo com os nativos, enquanto vemos as transformações no terreno original.

Para os diretores, Trancoso passa por uma nova colonização e isso é que buscam esmiuçar. Utilizando-se de tons experimentais e teatrais, Sevá e Castro provocam a população local para o paralelo de subserviência que aquela nova descoberta de Trancoso pode ter. Evocam, assim, textos da chegada portuguesa, como a carta de Pero Vaz de Caminha, usados como voz over, e, entre outros, colocam Cacá Rosset trajado de colonizador do século XVI falando sobre os degredados a uma sala de aula. Em determinado momento, Zé Celso se coloca como salvação de Trancoso, aviltando uma verve política, dizendo que a presença deles é boa, ao propor um escambo com os nativos: prometem modernidades como luz, gás e o próprio cinema, em troca de terras e das nativas. Os personagens influenciam na realidade, vestindo a carapuça de um personagem para influir na narrativa e nas pessoas locais. A herança da colonização portuguesa é bastante presente na obra de Sevá, para além desses filmes, como em seus trabalhos para a TV, caso da minissérie Arquipélago de Abrolhos (1998) e do documentário Ilha Grande e as visões do paraíso (2001).

Filme mais político de Sevá – mais experimental, com direito a Zé Celso defecando na praia -, A Caminho das Índias se coaduna com seus personagens fabricados, levando cinema a Trancoso. Nele, por exemplo, vemos a projeção de trechos de A Caminhos das Índias (num procedimento bastante utilizado futuramente por Eduardo Cotunho).

Sevá voltaria a abordar Trancoso depois da Retomada, nos filmes-irmãos Estórias de Trancoso e Fala Sério!, ambos se utilizando de estética e procedimentos bastante similares. Os filmes foram pensados a partir de histórias coletadas com os habitantes locais para compor o roteiro e de atores não profissionais escolhidos dentro da população, reforçando o caráter da beleza natural, em histórias que pendem para a comédia e para o romance, buscando uma chave muito mais popular de acesso.

Estórias de Trancoso (2007)

Estórias de Trancoso (2007)

Estórias de Trancoso começou a ser pensado ainda nos anos 1990, recebendo prêmios de roteiro em 1996 e de 1997. Por falta de verba, demorou a ser produzido e finalizado, ficando pronto e sendo lançado apenas em 2007 – comercialmente em 2009. O filme é o que se estende por um maior período de tempo e recria o imaginário do distrito entre os anos 1980 e os 1990, quando passa de uma província rural a um pequeno paraíso turístico. O longa apresenta a morte da figura do índio, a urbanização, a especulação imobiliária, a alcoolização, o engraçamento com forasteiros, e a mundanização da população a partir do contato com eles. Centrado em vários personagens com suas histórias de idas e vindas amorosas, o filme usa da modernização de Trancoso como pano de fundo e mote para muitas das ações.

Muito menos ousado narrativa ou esteticamente do que A Caminho das Índias, Estórias de Trancoso foge do padrão convencional da Retomada de contar histórias buscando uma estética de cinemão. A raiz do filme é essencialmente popular, local, sem medo de suas falhas – o que talvez realmente prejudique o filme nisso seja o uso de diversos atores para um mesmo personagem, em alguns casos, podendo confundir o espectador. É, assim, bastante autêntico na sua proposta de cinema, que busca respirar – assim como o cineasta dentro da história que se encanta com o local e permanece por lá, interpretado por Hermano Penna – e transmitir a essência do distrito, por mais prosaico que possa nos parecer, assim como a arte de um dos protagonistas. Naïf por escolha.

Justamente por cobrir uma cronologia maior de Trancoso, seja o que mais sintetize a ideia da epopeia sobre a cidade, buscando acompanhar, ainda que brevemente, as principais mudanças do local. A interferência de fora é bem grande. Estórias de Trancoso, assim, reforça algo bem forte em A Caminho das Índias: a cidade esquecida pelo tempo é pura e ingênua; a colonização (a descoberta pelos brancos portugueses/forasteiros) e o auto aproveitamento da terra para ganhar dinheiro transformou Trancoso em apenas um lugar a mais, tirando vantagem dos locais. Nesse aspecto, só os nativos preservam o que de melhor há em Trancoso, sendo que a manutenção da cultura local (artes, paisagem, culinária etc) é o que salva.

Fala Sério!, por sua vez, se debruça sobre o presente de Trancoso. Após as transformações sociais, econômicas, urbanísticas etc, o distrito já se acostumou com sua nova realidade. O longa acompanha três amigas no começo da juventude, nascidas já com as modernizações. A ingenuidade permanece, porém, nos nativos. As três amigas caem nas lábias masculinas e, quase ao mesmo tempo, engravidam. Sevá acompanha o mundo dessas três moças, numa busca por fazer uma comédia juvenil trancosense, distante das grandes metrópoles, versando sobre os dramas de querer sair da cidade, a esperança de amor do forasteiro e os prazeres carnais furtivos, com bastante praia, música, sexo, álcool etc, e a consequência desses atos. É o mais fraco dos três, talvez, justamente, por ser o mais similar a outros filmes do gênero.

A trilogia de Trancoso de Augusto Sevá forma, assim, um interessante arco dramático sobre as mudanças do distrito. Numa continuidade de história que lembra a narrativa bíblica, os filmes demonstram como o paraíso terreno é transformado (perdendo a inocência e a ingenuidade e, talvez, sua autenticidade) pela cobiça do homem, que conquista Trancoso visando, acima de tudo,  seu próprio bem, nem que, para isso, tenha que se aproveitar dos outros.

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