Uma análise genérica sobre A Marvada Carne

Por Gabriel Carneiro

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Formado na ECA/USP, o cineasta André Klotzel estreou em longas em 1985, com A Marvada Carne, após ter passagens como assistente de produção e de direção na Boca do Lixo e também com Nelson Pereira dos Santos. Diferentemente de boa parte de seus contemporâneos, que trabalhavam com gêneros consagrados mundialmente, como o policial, o horror, o melodrama, o suspense etc, Klotzel preferiu se debruçar sobre um gênero tipicamente brasileiro e muito pouco refletido e formulado enquanto conjunto, o filme caipira/sertanejo. A Marvada Carne parte de Cornélio Pires para fazer uma comédia caipira. O cineasta já chegou a afirmar que “foi nas mesmas raízes do Jeca do Mazzaropi que surgiu A Marvada Carne. A busca do humor popular, caipira”. Que o filme é caipira, não se contesta. A questão é tentar entender um pouco mais como ele se filia a esse gênero. O longa narra a história de Nhô Quim (Adilson Barros), que busca uma noiva e comer carne de vaca, até conhecer Carula (Fernanda Torres), que parece ser a solução para seus dois problemas – que, interessada nele, promete-lhe a carne do bicho. Ambientado no interior de São Paulo, A Marvada Carne recria, desde o cenário até à música, o ideal do universo caipira para sua comédia irônica.

A Marvada Carne traz a figura do caipira, o sujeito interiorano paulista, membro de uma comunidade rural, todo voltado à terra, em geral avesso a modernidades, muito inspirado na formulação linguística da fala do caipira e dos causos populares, com todo seu folclore, provindos de Cornélio Pires – e também de Antônio Cândido. O cineasta, porém, se afasta dos predecessores do cinema caipira, como, por exemplo, o ator, diretor e produtor Amácio Mazzaropi, que não só com o personagem Jeca moldou o imaginário popular para a figura do caipira, ou o diretor Jeremias Moreira Filho, responsável por filmes como O Menino da Porteira (1976) e Mágoa do Boiadeiro (1977) – todos grandes sucessos de bilheteria.

A representação do caipira em Mazzaropi reforça o estereotipo do homem ingênuo, preguiçoso, acomodado, maltrapilho e indiferente às normas da língua portuguesa, mas a favor da moral e dos bons costumes, em que o humor vem da sensação de absurdo frente ao comportamento do personagem – o que pode parecer um riso do ridículo do caipira para quem o vê nitidamente como um sujeito atrasado, mas que traz toda uma particularidade da composição do Mazzaropi, egresso do circo e rádio, com um humor calcado no exagero. Nos seus filmes, porém, é evidente a noção de que esses sujeitos estão presos a um passado que não existe mais. O caipira nos filmes Jeremias Moreira Filho são homens do campo trabalhadores, com identidade própria, mas longe de reforçar um estereotipo. Moreira Filho olha para a cultura caipira com enorme nostalgia e seus melodramas sempre trazem uma aflição e uma lugubridade frente à iminente modernidade que toma conta do campo – isso é bastante forte em Mágoa do Boiadeiro, em que a profissão é substituída pela de caminhoneiros.

A Marvada Carne segue outra linha. Há ali o retrato do matuto, com uma caracterização costumeira, entre o maltrapilho do Jeca e o vestual de Moreira Filho, a própria lógica linguística, o senso de comunidade, e o mundo essencialmente rural em contraste com o urbano. Para Klotzel, porém, esse universo que retrata não é visto como nostalgia de um bom passado, tampouco como atraso, e a mudança do rural para o urbano faz parte de um decorrer da adaptação do próprio ser humano às coisas que o afligem. O rural e o urbano se opõem apenas como choque fronteiriço inicial entre as duas diferentes realidades, mas a transição para o que vemos no final do filme parece natural para seus personagens, como mais um estágio de suas vidas. Não é uma oposição propriamente, mas sim uma completude. O senso de nostalgia que povoa os filmes caipiras em geral – mesmo em Mazzaropi, a inocência daquela realidade é vista como alternativa à urbanidade e ao caráter predatório dos endinheirados – não está presente em A Marvada Carne.

Carneiro Gabriel - Artigo - Imagem 1Carneiro Gabriel - Artigo - Imagem 2

O filme trabalha com gags convencionais de filmes de comédias, como o uso da repetição da mesma frase de efeito cômico (“Ah é… me passou.”), e também com a ironia lúdica, como nas cenas com o Santo Antônio. Sá Carula conversa bastante com a estátua do santo, pedindo a ele um homem para se casar, ora amável, ora irritada, chegando inclusive a afogá-lo. Klotzel filma longos planos de Sá Carula falando e, em seguida, encaixa um plano do santo, que muda de expressão conforme o ocorrido, ora sério, ora sarcástico.

O filme é pouco calcado no realismo pleno – a encenação parece emular uma ideia real do mundo caipira, mas se abre completamente ao lúdico do folclore -, mas o que parece mais curioso é como se relaciona com o fantástico. Todo o desenrolar do filme é mostrado meio como acaso e a explicação tende a ser bastante fantasiosa. Por mais que os personagens aceitem e acreditem nessa característica como parte daquela realidade diegética, eles mesmos acenam a um tempo imaginário. A questão é que o tempo, em A Marvada Carne, se liga a uma realidade própria do filme, pois não nos diz respeito. Se aquela vida rural parece o passado para nós – e o próprio protagonista se refere a como se fosse -, a vida urbana é completamente presentificada, descontruindo a lógica temporal do filme, pois entre o começo e o fim do filme mal deve ter passado dez anos. Se transpusermos o longa para a nossa realidade, o tempo nele não faz sentido algum. Por isso o fantástico parece se ligar a um tempo imaginário, lúdico como as próprias fábulas – que vão além da inserção de figuras como o Curupira e o diabo.

Esse tom irônico dado à comédia permite um novo tratamento ao material caipira que, quando trabalha o humor, aponta muito mais ao pastelão e ao excesso. Novas maneiras de se perpetrar um gênero.

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