Ugo Giorgetti e o porão da sociedade

Por Gabriel Carneiro

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O cineasta Ugo Giorgetti começou na publicidade nos anos 1960 e experimentou no curta-metragem documental nos anos 1970, mas só estreou em longas de ficção em 1985, com Jogo Duro (Brasil, 1985), filme que aponta certas tendências de seu cinema. Giorgetti as consolida em Festa (Brasil, 1989), grande vencedor do Festival de Gramado de seu ano e o filme que o popularizou no meio.

Mas não é só o confinamento num espaço único ou a ausência de nomes próprios dos personagens que pontuam essa primeira fase de Girogetti. Tanto Jogo Duro quanto Festa fazem um retrato bastante peculiar sobre os diferentes extratos da população paulistana, tomando o ponto de vista dos marginalizados. Com um humor ácido e crítico, por diversas vezes cínico, Giorgetti explora justamente essa exclusão social dando a esses fodidos o protagonismo.

Em Jogo Duro, um corretor de imóveis leva um conhecido, um ex-pugilista, para um casarão abandonado. Ele mostra o local a esse sujeito mal ajambrado e lhe explica o serviço. Deve mostrar a casa para quem se interessar em conhecer o espaço, vendendo seus melhores atributos. Se ele quiser um lugar para ficar, é o preço a pagar. Na casa, o personagem interpretado por Jesse James descobre que uma mulher (Cininha de Paula) e sua filha habitam-na clandestinamente, colocadas lá pelo vigia da rua (Cacá de Carvalho).

No longa, o microcosmo em questão é o Pacaembu, bairro de classe alta, formado por enormes casarões, em franca decadência. Com o aumento da criminalidade no local, bem como a falta de dinheiro dos outrora ricaços que não conseguem mais se manter no mesmo patamar, o Pacaembu viu seus terrenos abandonados. É nesse contexto que acontece Jogo Duro. A maior ocupação do baixo se dá, justamente, nos dias de jogos de futebol que acontecem no estádio vizinho. Esse ponto de partida permite Giorgetti reunir (quase) sob o mesmo teto três figuras bastante próximas no espectro social. Logo se inicia um triângulo amoroso que descamba para um lado passional que o diretor abdicaria em Festa.

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Ali, o cineasta explora, de maneira espontânea, quase antropológica – ainda que o roteiro seja completamente construído -, as diferenças entre os protagonistas do filme e a alta ordem social. As discussões giram em torno de uma certa malandragem recatada, em que o importante é se garantir, ou seja, saber exatamente o que fazer para conseguir melhorar sua vida; em que o individualismo vem da necessidade de sobrevivência. Interessa ao personagem de Jesse James que a casa não seja vendida, assim como deixar transparecer a ideia de que a mulher só tem casa porque ele a deixa fica, e ele batalha para isso.

Em Festa, um jogador de sinuca (Adriano Stuart), seu ajudante (Antônio Abujamra) e um gaiteiro (Jorge Mautner) são contratados para entreter os convidados de uma festança na mansão de um senador, porém devem esperar na parte debaixo, até serem chamados.

Enquanto, em Jogo Duro, os protagonistas buscam ocupar o espaço deixado pela nobreza decadente, em Festa, Giorgetti se debruça sobre a riqueza contemporânea, os mandantes de hoje – no caso, de 1989. Ali, é a festa de um senador da Nova República, cheio da grana, com uma casa moderna, enorme, com um jardim gigantesco. Os fodidos da vez não se esgueiram por onde não foram chamados. Foram chamados sim, contratados para entreter um monte de gente rica. A espera é eterna. Pouco importa se serão chamados para fazer algo, mas devem estar à disposição e é por isso que são pagos. Para sobreviverem, precisam se vender. Uma regra logo lhes é imposta: não devem sair daquela sala, onde há a mesa de bilhar. Descobrem também que comes e bebes são restritos aos convidados de verdade. São os antigos serviçais com uma nova roupagem.

Entre uma aparição e outra (os garçons, a babá, a filha do dono, um convidado bêbado, a patota que vai jogar sinuca), os personagens tentam tirar o melhor proveito daquele evento, para eles, falido. Surgem, assim, as conversas cotidianas, insignificantes, em que a intenção de cada personagem é delineada. Todos querem se dar bem.

Nesse contexto, aparece um personagem um tanto inusitado. Um ator global, interpretado por Ney Latorraca, aparece para fazer um discurso pró-senador, que será novamente candidato. Está ali como os outros, contratado, para entreter os convidados. Mas ele é famoso, reconhecível, e, portanto, já ascendeu daquele porão de obscurantismo. Como proclama diversas vezes o personagem de Abujamra: “Esse é alguém”.

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