Se o mundo fosse justo

Por Gabriel Carneiro

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Frank Capra (1897-1991) foi um dos principais nomes do cinema clássico hollywoodiano, que atingiu seu ápice nos anos 1930. Dirigiu uma série de filmes marcantes, sendo oscarizado como melhor diretor por três vezes – com a comédia maluca Aconteceu Naquela Noite (1934) e com os dramas O Galante Mr. Deeds (1936) e Do Mundo Nada se Leva (1938). Sua fase referenciada vai justamente de 1934 a 1946, com A Felicidade Não se Compra, que inclui ainda A Mulher Faz o Homem (1939) e Adorável Vagabundo (1941).

Seu trabalho mais lembrado – e possivelmente seu melhor filme – é justamente A Felicidade Não se Compra (It’s a Wonderful Life), clássico natalino que invade os televisores ianques no final do ano. O longa também parece o ápice desse tom que Capra alcançou. No filme, na noite de Natal, George Bailey (James Stewart) está prestes a se matar. Seu tio e sócio numa pequena firma de créditos, a única que afronta o banqueiro que controla toda a cidadela de Bedford Falls, perdeu muito dinheiro, e Bailey, após dedicar-se toda a vida a uma empresa que nunca foi uma realização pessoal, descobre que vale mais morto do que vivo. É quando entra em ação Clarence, um anjo sem asas, incumbido de salvar George. Em flashbacks, Clarence passa a conhecer, assim como nós, a trajetória de George e o porquê de estar naquele momento.

Capra foi um sujeito que entendeu muito bem seu contexto histórico. Imigrante italiano, o diretor compreendeu como poucos o efeito que o Crack da Bolsa de 1929 e a subsequente Depressão na população de forma geral. Chegou a fazer filmes sobre isso, como Loucura Americana (1931), mas dedica-se à moral norte-americana a partir de 1936. Seus dramas de cunho social eram perfeitas fantasias, quase lúdicas, visto o momento histórico, mas que trabalhavam com o registro clássico do real. Eram longas que retratavam o mundo caso ele fosse justo, em que os personagens sucedem porque se esforçam e se dedicam a uma realidade harmônica, em que todos têm seu espaço e seu quinhão, em que o sacrifício pelo outro é valorizado. Tais filmes funcionavam, assim, como um perfeito escape a uma população sofrida, que perdeu tudo, mas enxergava, neles, uma esperança, uma possibilidade de redenção.

Assim como outros filmes de Capra nessa linha, A Felicidade Não se Compra é um melodrama que se apoia na reação emotiva do espectador, colocando a catarse da redenção após os muitos sacrifícios, e terminando justamente no ápice. Tal fórmula seria repetida à exaustão em Hollywood, por bons e maus diretores, dando uma conotação negativa a esses filmes choráveis, tidos como chantagistas e manipuladores. Pode até ser. Capra sabe como conduzir sua trama, carregar o espectador através de emoções, sabe provocar o riso, assim como sabe provocar o choro. Era um diretor meticuloso, a par da narrativa cinematográfica. Poucos foram elegantes como ele, porém. Seu sentimentalismo não é barato, é fundamentado em dramas humanos, muito bem construídos e amarrados, não tendo como único objetivo manipular os sentimentos dos espectadores para propósitos mesquinhos ou desnecessários. Capra era, acima de tudo, um humanista, e ressaltava isso em seus filmes.

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George Bailey se mantém no cargo de presidente da firma – mesmo tendo passado a juventude inteira querendo conquistar o mundo e ser arquiteto – porque é a única oposição ao banqueiro sedento por lucro e por controlar uma cidade, um sujeito mesquinho que não se importa com os outros. George sempre quis fazer coisas grandes, e uma das mensagens do filme é justamente de que fazer coisas grandes não é ser imortalizado pela história, e sim os pequenos gestos que transformam uma sociedade.

George deseja nunca ter nascido e seu desejo é atendido por Clarence. Vemos assim Bedford Falls transformado em Pottersville, uma cidade insalubre, repleta de pessoas infelizes por não terem o mínimo de condição de vida. Pottersville é o mundo real; Capra filma o mundo esperando que os Georges espalhados por aí não perdessem a esperança, justamente.

A Felicidade Não se Compra, porém, foi lançado em 1946, quando a economia dos EUA já estava recuperada, por conta da 2ª Guerra Mundial, com a indústria a todo vapor, empregos sendo gerados etc. Os EUA não necessitavam mais dessas histórias cheias de esperança. O filme decepcionou no mercado, estando longe das marcas alcançadas pelos trabalhos anteriores de Capra, teve recepção morna da crítica e recebeu cinco indicações ao Oscar, não convertendo nenhuma. Seria seu último filme indicado. Fazer filmes ficou cada vez mais difícil, tendo cada vez menos repercussão. Aposentou-se em 1961.

O filme foi ainda vigiado pelo FBI, que o considerou perigoso e comunista; justamente Capra que, dez anos antes, era tido como um dos grandes propagandistas americanos, capaz de elevar a moral do país e de seus cidadãos. O mundo, realmente, não é nada como os filmes de Capra.

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