Oslo, 31 de agosto

por Marcella Grecco

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Com os bolsos do casaco cheios de pedras e agarrado a uma grande, Anders (Anders Danielsen Lie) caminha em direção ao lago. Ele passara então sua primeira noite afastado da clínica de reabilitação, mas, pela manhã, é para o lago que caminha com convicção. Impiedosas, as pedras o fazem afundar. Sedento por oxigênio, Anders reage, emergindo abruptamente.

O dia é 31 de agosto. De volta à clínica, Anders se prepara para uma entrevista de emprego, espécie de condição para o término do programa de reabilitação.  Assim que chega a Oslo, vai ao encontro de um velho amigo. Thomas (Hans Olav Brenner) tem um bom emprego, uma linda esposa e duas filhas. Ele abandonara a vida de festas e parece feliz com o pacato cotidiano que leva. Aos 30 e poucos anos, entretanto, Anders não tem nada. Os pais aproveitam a aposentadoria viajando e já não dão mais tanta atenção a ele, especialmente depois de tudo que aprontara. Sua irmã também não parece querer saber dele, inclusive, recusa-se a reencontrá-lo em 31 de agosto, pois não quer mais sofrer com suas loucuras e agressividade. Anders não tem emprego, namorada e não quer saber das antigas amizades. A falta de perspectiva é tanta, que ele desabafa com o amigo sobre a vontade de pôr um fim a tudo.

Apesar da temática, o segundo longa-metragem de Joachim Trier – sim, ele é parente distante de Lars von Trier – não fala necessariamente sobre o uso abusivo de drogas. Não é um filme como Trainspotting, por exemplo, sobre os altos e baixos de um vício. Oslo, 31 de agosto (Oslo, 31. August, Noruega, 2011) é um filme sobre estar deslocado.  Anders não tem vínculo com nada nem ninguém, mas ele quis assim. A heroína é, para ele, um refúgio que o separa de um mundo do qual ele não quer fazer parte.

Em 31 de agosto, seu primeiro dia pelas ruas de Oslo após um bom tempo na clínica de reabilitação, Anders tenta estabelecer vínculos com o mundo. Ele vai ao encontro do amigo, à entrevista de emprego, tenta conversar com a irmã, vai a uma festa com a expectativa de viver como antigamente, conhece uma garota para por ela se apaixonar, tudo na esperança de que algo o despertasse para a vida. Mas é em vão.

A sua incongruência com o mundo é vez ou outra enfatizada pela fotografia através de um engenhoso jogo com o foco que torna o fundo nítido e o primeiro plano desfocado. Ao caminhar pela cidade Anders fica fora de foco; literalmente destoando do todo, como uma peça sem encaixe. A reabilitação de que ele precisa é, acima de tudo, social. Já no final do filme, Anders caminha em direção à casa de seus pais, o local em que cresceu. Ao entrar, pouca coisa encontra, apenas algumas fotos e móveis cobertos de poeira. Não há ninguém, não há vínculos; laços. Ao sentar em um antigo piano, ele mesmo toca o tema de sua morte. Após o anúncio, tira o cinto da calça, amarra no braço e recorre à última opção de reabilitação social. A heroína que mantinha no bolso desde o começo da noite, enfim o encaixa em outra realidade. No entanto, o laço em seu braço, apesar de firme, inevitavelmente também será desfeito.

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