Os maiores heróis

Por Marcella Grecco

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(pode conter spoilers)

O primeiro longa-metragem de Thomas Vinterberg não possui título em português. The Biggest Heroes (De Største Helte, Dinamarca, 1996) foi lançado antes mesmo de Festa de Família, quando o diretor ganhou renome internacional ao apresentar seu primeiro filme segundo as diretrizes do Dogma 95, manifesto cinematográfico criado junto de Lars von Trier. O filme é sobre um carismático e desajeitado ladrão de bancos, Karsten (Thomas Bo Larsen), que descobre certo dia a existência da filha adolescente, Louise (Mia Maria Back). Em um final de semana de condicional, junto de seu amigo de infância e companheiro de crimes, Peter (Ulrich Thomsen), Karsten leva a menina a um parque de diversões. À noite, ao deixá-la em casa, encontram um padrasto bêbado em um ambiente nada convidativo. No dia seguinte, Karsten deveria voltar à prisão, no entanto, Louise telefona dizendo que o padrasto havia batido nela e que sua mãe sumira. Karsten e Peter vão ao encontro de Louise. Os três partem, então, para a Suécia, a fim de fugir da polícia, do padrasto e de caçar alguns alces. Apesar de não terem dinheiro, os amigos tentam cuidar de Louise durante toda a trama. Eles a levam para comer fora, dormir em hotéis bonitos e comprar roupas. Para tanto, fazem uso de cartões de crédito roubados e de nomes falsos. Karsten anda armado e Peter detesta quando ele perde a cabeça, pois acaba atirando a esmo. Já Peter é esquizofrênico e, vez ou outra, tem alguns ataques bem particulares.

Após ganhar uma série de prêmios com o seu curta-metragem de graduação na Danish Film School, Last Round, em 1993, e com o curta posterior The Boy Who Walked Backwards, em 1994, Vinterberg lança, no ano seguinte, o Dogma 95. Ele conta em uma entrevista que ficou meio atordoado com os prêmios, indicações e, especialmente, com a pressão para o lançamento de algo que suprisse as expectativas do público e da crítica. Foi por este e outros motivos que ele e Lars von Trier apostaram em um movimento contrário à padronização estética e favorável a filmes mais realistas, ainda que, paradoxalmente, o próprio Dogma 95 tenha criado uma padronização por meio das leis que conferiam às obras o certificado de participação no movimento.

The Biggest Heroes não foi um filme realizado segundo as regras do Dogma 95 e, pelo contrário, ele quebra todas elas. De fato, o filme é sobre quebrar regras, afinal, quem foi o responsável por inventá-las? É uma espécie de road movie com toques de comédia, drama e thriller; sem muito glamour, como o próprio Vinterberg afirma. Em um carro caindo aos pedaços, os três personagens percorrem o interior da Suécia praticando roubos e hospedando-se nos melhores hotéis. Durante o percurso, eles são perseguidos pelo padrasto, que quer levar Louise com ele. Quedas de energia, sombras na parede e música de suspense dão ao filme um aspecto de thriller. O conflito interno de Karsten, que sabe estar praticando atos criminosos e envolvendo sua filha neles, dá ao longa um aspecto dramático. Já quando Peter deixa de tomar os seus remédios, o tom passa a ser o do humor – ele chega até mesmo a arremessar um cachorro para fora de uma balsa.

O filme tem uma cena belíssima de redenção, sobre a qual é inevitável comentar. Instantes após tentar largar Louise em uma estação de trem, os três entram no carro e decidem continuar a viagem juntos. Na noite anterior, Karsten matara o padrasto de Louise acidentalmente, em legítima defesa. O clima é bem pesado na cena da estação de trem; chove torrencialmente. Em seguida, já no carro, Louise dorme e Karsten, para esfriar a cabeça, pede alguns comprimidos a Peter. Aos poucos, o sol volta a brilhar e os amigos começam a alucinar sob efeito dos remédios. “Nós dois temos uma boa e velha amizade, Karsten. Obrigado.”, diz Peter. Karsten fecha os olhos, lentamente solta o volante e diz: “Olhe só. Ele vai por conta própria.”. Então, Karsten roda a manivela do teto solar e, ao som de uma guitarra, ele e Peter continuam a viagem em pé no teto do carro, que segue sem ninguém na direção.

Karsten tenta conduzir a própria vida depois que se torna um pai, mas, no final, larga a mão da direção. Em determinado momento do filme, Louise lê uma carta que escrevera para ele: “Quando penso nos maiores heróis, meu coração começa a derreter. Eles ajudam garotas em perigo, onde a fome é a morte mais terrível. Tal herói, eu sei, ele é tão franzino quanto junco, mas forte. Ele é a maior estrela. Eu o chamo de… pai.”. Ser um herói não está necessariamente relacionado a fazer tudo certo. Não é preciso agarrar com firmeza a direção. É a vida que nos guia, e não o contrário. Para Louise, Karsten é seu herói, independente das atitudes.

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