O Vídeo de Benny

Por Marcella Grecco

benny

(contém spoilers)

É com a morte de um porco que o filme começa. Antes mesmo dos créditos iniciais, acompanhamos o abatimento do animal com uma arma de ar comprimido, que cai tremendo e agonizante à espera de sua morte. Assistimos a tudo de perto, no entanto, para a nossa surpresa, o vídeo é rebobinado até o momento do tiro e então solto em câmera lenta. Alguém está manipulando a imagem e percebemos que ainda não estamos vendo realmente o filme de Haneke. É um vídeo dentro do filme; é o vídeo de Benny.

O segundo longa metragem de Michael Haneke faz parte de uma trilogia chamada por alguns de “trilogia da incomunicabilidade” e por outros de “trilogia da Era do Gelo Emocional”. Esta teve início no ano de 1989 com o lançamento do primeiro filme do diretor, O Sétimo Continente, no qual acompanhamos a rotina de uma família de classe média até o momento em que os pais matam a pequena filha e se suicidam. Em certa medida, um filme que fala sobre a perda de sentido da vida contemporânea, onde o dinheiro é o mediador das relações e não há mais espaço para relações afetivas. Vivemos em uma espécie de Era do Gelo Emocional, pautada em um vazio existencial e na qual predomina a incomunicabilidade.

O Vídeo de Benny (Benny’s Video, Áustria/Suíça, 1992) é a continuação da trilogia, que termina com o filme 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1994). Neste último, Haneke monta uma espécie de quebra-cabeça com fragmentos da vida dos personagens. A alienação social, temática que retornaria em outros filmes como Código Desconhecido (2000), Caché (2005) e A Fita Branca (2009), assim como reflexões acerca do que nos torna humanos, como veríamos posteriormente em O Tempo do Lobo (2003), são alguns dos pontos trabalhados. Nos filmes da trilogia da incomunicabilidade, a televisão é uma das peças centrais. Ademais, o estatuto da imagem é freqüentemente discutido no cinema de Haneke – vide Caché, em que já no início assistimos a algo que achávamos ser o filme em si e descobrimos ser uma gravação inserida dentro do filme. Ou, ainda, Violência Gratuita (1997) quando, em determinado momento, a mãe consegue matar um dos vilões e para que tudo não termine bem vemos o filme ser parado, rebobinado e a história tomar um rumo diferente.

Em O Vídeo de Benny – aparentemente é inevitável falar sobre um filme de Haneke sem mencionar outros –, encontramos o primeiro dos muitos personagens psicologicamente bem construídos que entrariam para a filmografia do diretor. Benny, interpretado por Arno Frisch, é um menino de 14 anos que tem o seu mundo traduzido por telas. Ele assiste a vídeos o dia todo e, em seu quarto, ele possui duas televisões, um monitor, uma câmera e uma série de fitas em VHS. As janelas do quarto estão sempre fechadas, sendo que é através do monitor, ligado a uma câmera de vigilância, que ele observa o que se passa lá fora. As experiências de Benny são mediadas pela televisão e pelos vídeos, os quais muitas vezes ele mesmo produz.

Benny quase não conversa com os seus pais e quando quer comunicar algo ele mostra um de seus vídeos. Os pais também não parecem fazer muito esforço para ter uma relação com o garoto. Foram as imagens que criaram Benny e pouca diferença faz para ele estar assistindo a um noticiário, a um programa de variedades ou ao mundo real.

Certo dia, Benny conhece uma garota e, como seus pais estavam viajando, ele a convida para ir até a sua casa. Na realidade, não escutamos uma palavra sequer da conversa deles, somente quando ela já está em seu quarto. Benny mostra com orgulho toda a parafernália eletrônica que possui à menina. Carente de uma relação afetiva concreta, ele parece não saber como agir. Em determinado momento, Benny liga a câmera no tripé e mostra à garota que estão sendo filmados. Por fim, ele decide que ambos deveriam ver um dos seus vídeos: o do abate do porco.

Se Benny foi criado pelas imagens e tudo o que ele assiste está permeado de violência, como seria este adolescente? Discutir a violência como forma de entretenimento para as massas é uma das questões centrais no cinema de Haneke. Entretanto, ele faz isso de uma forma bastante única. Talvez a razão pela qual tantas pessoas gostem de passar pela experiência que é ver um filme dele seja porque, quando o fazemos, não somos meros espectadores. Somos provocados, seqüestrados e jogados em situações que colocam em xeque a nossa integridade.

Ao final do vídeo do porco, Benny pega em sua gaveta uma arma de ar comprimido, a mesma da gravação, posiciona calmamente a garota em frente à câmera no tripé e dá um tiro. Ela cai agonizante e Haneke começa a jogar com o espectador, pois agora não é mais Benny que assiste a um vídeo violento, ele é o protagonista de seu próprio vídeo e nós somos pegos de surpresa ocupando o lugar que antes pertencia a ele. Nosso olhar é mediado pela câmera de Benny e assistimos à morte da garota através do seu monitor. Será que somos como Benny? Até que ponto vai a nossa escopofilia, ou seja, o nosso prazer em somente olhar? Aos poucos a menina sai de quadro e escutamos apenas os seus gritos. Benny ainda cruza a imagem na tela duas outras vezes para recarregar a arma.

Um dos artifícios do diretor para criticar a violência como entretenimento é fazer com que nós percebamos o quanto a sua representação já está banalizada em nosso cotidiano. Depois de a menina sair de quadro, por exemplo, o espectador nada mais vê, somente escuta os gritos e a movimentação. Tudo é criado pela imaginação de cada um, ou seja, Haneke deixa cada pessoa construir à sua maneira a morte da garota. Quando notamos, já o fizemos, e podemos assim considerar-nos também vítimas, só que da violência psicológica de Michael Haneke.

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