O solar maldito

Por Juliana Maués

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O Solar Maldito (House of Usher, EUA, 1960) é o primeiro de uma série de filmes dirigidos por Roger Corman a partir de adaptações de obras (contos e poemas) de Edgar Allan Poe, a maioria dos quais têm parceria de Richard Matheson no roteiro e trazem Vincent Price como protagonista. Como no conto original (A queda da casa de Usher), a narrativa conta a ruína da família Usher, então reduzida a um casal de irmãos, Roderick e Madeline, alojados na antiga mansão da família e ambos portadores de um mal que lhes hipersensibiliza os sentidos. No lugar do narrador amigo de Roderick do conto de Poe, o filme insere a figura de Philip, um noivo apaixonado que vem resgatar Madeline da ruína representada pelo irmão e pela casa.

A casa de Usher está impregnada pelas vidas pecaminosas de gerações anteriores, pelas quais, acredita Roderick, ele e a irmã estão amaldiçoados e devem pagar com a vida. Mais do que a sensação cármica, a maldição se manifesta fisicamente pela presença das figuras malditas em pinturas que ocupam as paredes de uma sala. Enormes e vazios, os olhares dos retratos quase expressionistas pairam opressivamente sobre Roderick. Mais do que as suas histórias de vida, são estas imagens que o oprimem e acusam. É nelas que cada uma das figuras vive e a sua presença pictórica é tão ou mais marcante do que as narrativas que Roderick conta a Philip ao explicar-lhe por que é impossível que Madeline deixe a casa. É nestas imagens, materializações de seus próprios pesadelos, que o último dos Usher acredita.

A cena do visitante incauto que, confrontado com lendas locais, mostra-se incrédulo é comum em filmes de horror que flertam com o elemento fantástico. Quase sempre, é retratada com um forasteiro em seu caminho para um destino final, geralmente um castelo mal afamado, tendo que fazer uma pausa em uma taverna ou pensão, onde é alertado dos perigos, o que solenemente ignora. Em uma adaptação anterior deste mesmo conto de Poe, a que Jean Epstein dirigiu em 1928, há uma cena do tipo. Na versão de Corman, entretanto, ela não existe neste formato: é o próprio Usher quem alerta sobre os perigos da casa. Na cena em questão, Roderick tenta confrontar Philip com as imagens dos seus nefastos antepassados e lhe pede que acredite e deixe o local. O jovem, todavia, segue o padrão: não acredita. E a descrença leva à ruína.

Não à toa, é deste mesmo visitante incrédulo que o espectador é convidado a assumir a perspectiva. Para além da diegese, uma metáfora é válida: o que o filme faz é nos convidar a acreditar – postura que faz toda a diferença na experiência de assistir a uma obra de ficção (ao menos, quando não tem o distanciamento como proposta), mas ainda mais em se tratando de um filme de gênero, como é o caso da obra em questão. Insistir em apontar os vícios da narrativa genérica, da iconografia recorrente, a previsibilidade do roteiro, as falhas do baixo orçamento etc. ao invés de persistir na trama; tudo isso é não acreditar. E quem não acredita é sempre punido.

Nesse sentido, O Solar Maldito, do mesmo modo que todos os filmes da série à qual pertence, é genérico ao extremo: nos cenários, nos figurinos, na atuação afetada, nas situações familiares (o mordomo que desaparece no meio de um diálogo; a ameaça que espera atrás da porta que o mocinho está a abrir; o quarto trancado no momento crucial e que se abre misteriosamente logo após). O baixo orçamento marca presença nos cenários, sobretudo nas visões externas da casa, alvos fáceis da milícia da verossimilhança. O estilo de atuação do elenco (Mark Damon, Myrna Fahey e Harry Ellerbe, além do já citado Vincent Price) passa longe do naturalista. É apenas muito fácil não acreditar. É como se estivessem nos dizendo que o cliente que nos espera na residência mais adiante é, na verdade, um monstro chupador de sangue. Do extremo da credulidade do primeiro espectador de cinema, aquele de A chegada do trem à Ciotat, parece que vamos rumo a um cada vez mais arrogante em relação ao filme. A busca é por não deixar-se enganar, mas é aí que mais se engana: a maior ingenuidade está em não acreditar além do que se vê.

Quando o fim se aproxima para a casa de Usher, um incêndio se alastra pelo edifício. Nele, os retratos são consumidos pelo fogo. A sua essência, porém, migra da bidimensionalidade das telas e encarna na outrora doce Madeline. Ensandecida, traz nos olhos esbugalhados – conscientemente destacados em primeiríssimo plano por Corman – todo o mal prenunciado nos retratos. É quase a operação contrária do que faz Epstein na versão de 1928 a partir da junção com outro conto de Poe, O Retrato Oval, em que a vida migra da modelo ao retrato. É apenas então que Philip entende que a situação está fora de seu controle – ela, que sempre esteve. Finalmente, ele assume o seu papel de espectador da narrativa. Enquanto deixa, enfim, o lugar, em busca de salvar a própria vida, é pelos seus olhos que vemos a anunciada queda das fundações e a casa de Usher ser engolida pelo pântano ao redor. Nesta narrativa sem personagens bem aventurados, é a fabulação quem vence no final.

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