Um mundo perfeito?

Por Álvaro André Zeini Cruz

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A violência se instaura desde o início em O Mundo Perfeito (A Perfect World, EUA, 1993), de Clint Eastwood. O pequeno Phillip (T.J. Lowther) assiste às comemorações de Halloween da janela de sua casa. Não pode participar da festa; a religião materna o proíbe. É o primeiro ato de violência presente no filme, uma violência que cerceia a infância. Mas outro surge logo em seguida: o sequestro, que tira Philip do seio familiar e o expõe ao mundo. É a violência contra a violência.

Um dos sequestradores é Robert “Butch” Haynes (Kevin Costner), que cria um vínculo imediato com Phillip. Ele mata seu parceiro, caricatura de criminoso malvado, para proteger o garoto. As parcerias se reestruturam e essa dupla improvável cai na estrada (“Eu sou o capitão, você o navegador”, Butch diz a Phillip). É quando ocorre um importante diálogo entre os dois: Butch pergunta a Phillip sobre seu pai e o garoto responde que “ele não está muito por perto”. Butch então pergunta quando foi a última vez que Phillip o viu, e o menino dá um triste levantar de ombros. Butch coloca que ambos têm muito em comum: os dois são bonitos, gostam de Coca-cola, e nenhum deles teve um pai que valesse alguma coisa. Caras como eles têm que se virar sozinhos, pontua Butch, seguido de um olhar abrupto e assustado de Phillip. É a constatação de uma infância sacrificada, que será, em partes, readquirida até certo ponto da aventura.

Phillip rouba uma fantasia de “Gasparzinho” e é com ela, essa vestimenta proibida pela mãe, que ele continua a jornada. Phillip conta a Butch que jamais festejou um Halloween, aniversário, nem comeu algodão doce ou andou numa montanha-russa, e o outro decreta: “Você tem o maldito direito de comer algodão-doce e andar de montanha-russa”. Na cena seguinte, vemos o pequeno divertindo-se com os braços para o alto, amarrado ao teto do carro, numa montanha-russa improvisada.

A infância é restaurada, mas não se sustenta sem que a violência volte a despontar. Butch leva Phillip para brincar de “gostosuras ou travessuras”, e ainda que o menino não note, uma arma entrecorta a brincadeira, fazendo a dona-de-casa atender mais do que depressa o pedido da criança. Na cena em que pegam carona com uma família, a mãe é agressiva com os filhos quando uma das crianças suja o banco do carro. É o suficiente para que Butch deixe a família a pé e leve o carro.

A violência volta a se instaurar definitivamente na longa cena que acontece na casa de um velho empregado de uma fazenda, por quem a dupla é acolhida. Butch conversa com a Lottie, a esposa do homem, e brinca com o netinho dos dois, ainda mais novo que Phillip. O garoto se diverte ao ser girado em cambalhotas no ar. Em seguida, Butch vai até uma velha vitrola, coloca um vinil e tira Lottie para dançar. Os garotos riem e os acompanham na dança. Ao final, todas aplaudem e a câmera avança sublinhando o rosto de completa felicidade de Phillip.

Mas o som do rádio noticiando o sequestro interrompe a cena. Butch e o dono da casa se encaram e a tensão surge. Butch chama Phillip para que partam, e o garotinho, neto do casal, pede para ser rodado de novo. O avô, que já se mostrara agressivo antes com o menino, lhe acerta um audível tapa na nuca, que puxa o corte para a feição assustada de Phillip, a outra criança na cena. A violência explode e a encenação se reordena. Os cortes, antes mais longos, aumentam o ritmo e a intensidade. A brincadeira de girar no ar é refeita, mas agora vem dotada de uma violência, sublinhada pelo forte estampido dos pés que batem no chão. A música, antes elemento de descontração, volta a ser usada para o extremo oposto, na construção da tensão. A família é feita refém e Butch, por um instante, se descuida da arma para amarrá-los e amordaçá-los. O revólver para nas mãos de Phillip, o garoto cuja infância fora restaurada, mas que agora se esvai novamente, algo que é contundente no plano composto por Eastwood: o menino empunha a arma de costas para a câmera; sob a nuca, a máscara de Gasparzinho – a infância novamente perdida, deixada para trás.

Phillip atira e a partir daí se desenrola a captura pelo xerife vivido por Eastwood. Mas o garoto não abandona seu sequestrador, e, mais uma vez, a infância roubada de Butch, informação que aparece esparsa pelo filme, é reiterada. E Butch resolve negociar a infância de Phillip: diz que só entrega o garoto se a mãe prometer levá-lo a andar de montanha-russa e deixá-lo comer algodão doce (um blefe, já que nem arma mais ele tem). Acordo aceito, Phillip continua de mãos dadas com o sequestrador, e assim permanecerá quase até o momento em que ele é erroneamente alvejado pela justiça pré-fabricada de um policial estúpido (ato que desencadeia o grito de horror da policial correta vivida por Laura Dern). O corpo de Butch é visto por Phillip pelo vidro do helicóptero; ao lado, no gramado, está a máscara de Gasparzinho. Infância e violência/morte num único plano. A violência é a educação e herança desse “mundo perfeito” retratado por Eastwood.

Violência e infância atravessam a obra de Eastwood. A violência é proeminente, por exemplo, em Josey Wales (1876), Rota Suicida (1977) e Impacto Fulminante (1984), um dos capítulos da série Dirty Harry. Em Honkytonk Man (1982), a infância comprometida é, como aqui, recuperada estrada a fora. Esses dois elementos, no entanto, têm se alinhado com maior recorrência na filmografia do cineasta desde a década passada: de Sobre Meninos e Lobos (2002), passando por A Troca (2008) e Gran Torino (2008), até sua mais recente obra-prima, Além da Vida (2012).

Contudo, talvez a tangente e, ao mesmo tempo, antítese desse protagonista vivido por Costner seja a personagem de Hilary Swank em Menina de Ouro (2004). Tal qual Butch, Maggie é fruto de um ambiente familiar brutal e responde ao mundo da mesma forma (só que através da violência lícita e ordenada do boxe). Mas há nela um otimismo que não há aqui (embora ele também desapareça). Na cena em um posto de gasolina, Maggie é confrontada pela infância – uma garotinha brincando com o cachorrinho no carro. E ela abre um sorriso largo e genuíno, que ganha força através da interpretação desconcertante de Swank. A consciência de que o mundo sempre foi e sempre será imperfeito faz com que Butch não seja um homem de sorrisos abertos. Para ele, resta apreciar os instantes efêmeros de leveza/beleza, e é esse o mais precioso conselho que dá a Phillip durante a viagem: “Este é o presente, Phillip. Desfrute dele enquanto dura”.

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