O Horror Não Está No Horror*

Por Renato Coelho

Filmado durante o 11º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em julho de 1978, o média-metragem rodado em Super-8 Horror Palace Hotel ou O Gênio Total, acompanha os bastidores da mostra paralela O Horror Nacional, que ocorreu no festival daquele ano. Jairo Ferreira viajou para cobrir o evento como repórter da Folha de S.Paulo, e rodou o filme quase todo no Hotel Nacional, com a participação de vários de seus comparsas do cinema experimental brasileiro. Mais conhecido enquanto crítico de cinema e autor do seminal livro Cinema de Invenção, Jairo Ferreira foi também realizador, tendo rodado oito filmes entre 1973 e 1980, seis destes na bitola Super-8, filmes experimentais e realizados de maneira artesanal.

Naquela edição do festival, enquanto a seleção da competição oficial privilegiou o chamado “cinemão”, com filmes financiados pela Embrafilme, a mostra paralela exibiu uma apanhado de doze filmes pouco vistos ou interditados pela censura do governo militar. Filmes como Sem Essa Aranha (1970), de Rogério Sganzerla, Agonia (1978), de Júlio Bressane, Os Monstros de Babaloo (1971), de Elyseu Visconti, e A Sina do Aventureiro (1958), de José Mojica Marins.

Durante os quarenta minutos de Horror Palace Hotel, podemos assistir, em clima de descontração, depoimentos de cineastas que integraram o evento paralelo, como Sganzerla, Mojica Marins, Bressane e Visconti, além da participação de personalidades como Ivan Cardoso, Neville de Almeida, Dilma Lóes, Renato Consorte, Satã (ator e segurança de Mojica), Bernardo Vorobow, Rudá de Andrade, entre outros. Significativa e generosa é a presença do crítico Francisco Luís de Almeida Salles, conhecido como o “presidente”, já que durante anos presidiu instituições ligadas ao cinema, como a Cinemateca Brasileira, da qual foi um dos fundadores.

A maior parte do filme se passa nos espaços do Hotel Nacional, que tradicionalmente abriga os convidados do Festival de Brasília. A câmera de Jairo Ferreira transita por espaços como o bar e a piscina, deflagrando momentos de camaradagem e encontros da turma do cinema experimental e outras personalidades, bem como percorre o interior de quartos do hotel, especialmente os de Mojica e Sganzerla, em ocasiões de papos mais intimistas. A costumeira narração over empreendida por Jairo Ferreira em seus filmes, em intervenções momentâneas, se alterna com as predominantes sequências em som direto, que captam o ambiente e as conversas.

No documentário, Jairo contou com a colaboração de Rogério Sganzerla como “entrevistador”, que por vezes empunha o microfone da câmera Super-8, simulando um repórter; Sganzerla ainda assume a câmera em algumas cenas. Os entrevistados que mais participam do filme são Mojica Marins / Zé do Caixão, o “gênio total” a que se refere o subtítulo, presença-signo do “horror”; e Almeida Salles, o “presidente da amizade”, que personifica certo sentimento de companheirismo inerente ao filme.

Em cenas no quarto do Hotel Nacional, numa atmosfera de total informalidade, Sganzerla entrevista Mojica, que está recostado na cama e fumando uma cigarrilha, tranquilo. “Eu tenho a impressão que você é um gênio total”, diz para o criador de Zé do Caixão. O assunto é recorrente no filme, Mojica representando “o gênio nato, que já nasce sabendo”: a certa altura conclui, melancólico, “eu sou um tipo em extinção”.

Naquele contexto, Jairo Ferreira se aproveita antropofagicamente do gênero horror para tratar da situação de “horror” em que jazia o cinema brasileiro e, mais amplamente, a cultura e a situação política do país de maneira geral. Mas ali, a presença de Mojica, além de remeter à discussão acerca do “horror nacional” presente no filme, alude ainda a um tipo de cinema / genialidade “de invenção” abandonada e repudiada pelo oficialismo predominante naquele período, o que ali se percebia na seleção oficial do Festival de Brasília e na atuação da Embrafilme. “Uma raça de rebeldes da América”, diz Sganzerla a certa altura; não por acaso filmes como o seu Abismu, e Agonia, de Bressane, ficaram excluídos da competição oficial daquele ano. A presença de Mojica / Zé do Caixão, gênio e besta, como precursor do cinema marginal (ou de invenção), traduz ali um sentimento de resistência e certa revolta com o cinemão, visto por Jairo Ferreira e pela turma experimental como um tipo de cinema acomodado e retrógrado.

Tal atmosfera de protesto é exprimida em diversas frases de efeito, que se utilizam do termo “horror” enquanto metáfora, ouvidas da voz de vários cineastas, como “o horror não está no horror” (Bressane), “viva a vitória do horror poético e generoso”, “chega de importar o horror estrangeiro, nós já temos horror de mais por aqui” (Mojica), “a gente usa o horror contra o horror”, “é por isso que eles são horrorosos e nós somos ótimos” (Sganzerla), entre outras.

A referência ao gênero clássico de ficção, o horror, é completada pela trilha sonora, com temas em clima de suspense e terror, bem como pelos aspectos luxuosos do hotel, seus quartos, corredores, o bar. Tal atmosfera se extrapola ainda para a própria forma do filme, com a por vezes imprecisa e precária imagem da película Super-8, muito escura e granulada em cenas noturnas no interior do hotel, mas de certa maneira adequada ao contexto e ao conjunto de assuntos abordados pelo filme.

Trecho simbólico e que evidencia as tensões presentes no cinema brasileiro é quando, em uma brincadeira, Mojica empurra Arnaldo Jabor, que venceria o festival naquele ano com o filme Tudo Bem, na piscina. Na voz over de Jairo, ouvimos “o horror… Arnaldo Jabor!”, e logo depois “o cinema novo”. Fica explícito a insatisfação por parte dos experimentais, do udigrudi, com os remanescentes do Cinema Novo que, em geral, aderiam a política cinematográfica da Embrafilme naqueles anos.

Em certo momento, Rogério Sganzerla é flagrado no bar do Hotel Nacional, tarde da noite e já transparecendo estar um tanto alterado pelo álcool, em diálogo com Jairo e sua câmera. O cineasta, que em 1968 venceu o Festival de Brasília com O Bandido da Luz Vermelha, critica veementemente a situação política e cinematográfica no Brasil. Entre estilhaços expressivos de sua fala, articula que “eles estão adormecidos, e o cinema brasileiro está tão mal que só pode piorar, ainda bem, porque é só à partir de uma autocrítica que pode haver um boom mundial do nosso cinema”. E emenda, com ironia: “Eu estou bem, acordado, vivo e de pé. E como diz o presidente Geisel, em seu discurso presidencial, é preciso revalorizar o homem. Quanto a mim, eu sou o homem do cinema brasileiro, e não estou só”.

Afora o certo clima de ressentimento com a condição do cinema brasileiro, há também momentos de descontração, como nas cenas de confraternização da turma do cinema experimental na piscina do hotel, durante o dia. Vemos reunidos na piscina Mojica, Bressane, Neville, entre outros. Ivan Cardoso fala do descaso e falta de comprometimento dos curta-metragistas da ABD com o cinema de invenção. No saguão do hotel, Rudá de Andrade fala para Rogério Sganzerla sobre seu último encontro com o pai, Oswald de Andrade. A presença de Rudá remete a Oswald, numa evocação da antropofagia, conceito que marca intrinsecamente a concepção do filme.

Sobre a questão da antropofagia, há também os momentos em que Jairo Ferreira “filma filmes” diretamente da projeção na sala de cinema, durante a mostra O Horror Nacional. Utilizando a câmera como uma caneta, na sua ambivalência de crítico e cineasta, narra asserções e opiniões sobre os filmes em voz over. Nesse ritual antropófago-cinematográfico direto, reenquadra, reedita ou musica trechos de filmes como Sem Essa Aranha, Os Monstros de Babaloo e Agonia.

Há que se destacar, ainda, a generosa participação de Francisco Luís de Almeida Salles, que aparece em depoimentos e conversas durante boa parte de Horror Palace Hotel. No filme, constata-se que “o homem é grande e se impõe pela presença de ideias, voz grave, firme, da melhor eloquência, culta, ao mesmo tempo efetiva e afetiva”, como relatou Jairo Ferreira em artigo sobre o presidente da amizade, em 1979.

Dentre vários temas, Almeida Salles é questionado por Sganzerla sobre a “genialidade” e sobre sua atuação na preservação do cinema brasileiro, “atitude contra o vandalismo e o extermínio, característica da posição governamental brasileira”. Do alto de vasta cultura e simpatia, discursa sobre assuntos como “a metafísica do bar”, enquanto conversam no bar do Hotel Nacional, sobre o companheirismo, e sobre o “negócio”, que caracterizaria a “negação do ócio”.

Intermediados por Sganzerla, Almeida Salles (“o amigo da amizade, o culto da cultura”, como define no filme o ator Renato Consorte) e Mojica Marins (Zé do Caixão, o gênio bestial) conversam frente a frente no bar. O crítico fala sobre a capacidade de exorcismo de São Miguel Arcanjo. Mojica, que transmutado em Zé do Caixão realizou um exorcismo da situação política do Brasil na praça dos três poderes, naqueles dias de festival, responde “quem sabe pode ter alguma coisa dele encarnada em mim e eu não sei, é uma questão de analisar”. Os diálogos que se seguem, no clima simpático da conversa, beiram o absurdo.

Ao final, o presidente Almeida Salles embarca no clima do horror, refletindo “que a coisa que mais existe no cinema brasileiro, realmente, é o horror. É horripilante!” E prossegue, articulando que “é preciso horrificar as pessoas, para perturbá-las, para elas adquirirem a visão”, frase que sintetiza bem o espírito de Horror Palace Hotel.

* Prévia de trecho do livro O cinema e a crítica de Jairo Ferreira, de Renato Coelho, a ser lançado pela Alameda Editorial no início de 2015.

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