Nebraska, a boa vida

Por Phillippe Watanabe

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(contém spoilers)

Um idoso anda decididamente à beira de uma movimentada avenida. Suas pernas, que, pesadas, parecem ser trabalhosamente arrastadas, não o seguram, e ele segue seu caminho, mesmo este sendo difícil de percorrer, impróprio pra caminhadas, cheio de neve que pode levá-lo a escorregões. Um policial, ao passar pelo idoso, estaciona, preocupado com a possibilidade dele estar perdido. O policial pergunta: “Para onde está indo?”; “De onde veio?”. Respondendo às perguntas, o idoso, Woody, aponta para frente e para trás.

O gesto de Woody Grant, vivido por Bruce Dern, indica precisamente o que impele o protagonista: a tentativa de sair da estagnação, do passado que parece não o abandonar. A relação entre Woody e sua própria história é muito interessante. Enquanto alguns fatos teoricamente banais são lembrados com frequência, outros, que poderiam ser considerados mais relevantes, como o nome da namorada de seu filho, são praticamente ignorados.

Em vários momentos, tanto para o espectador quanto para as próprias personagens, fica uma dúvida sobre a saúde mental de Woody. No começo do filme, quase toda conversa com alguém da família Grant termina com a ideia de colocar Woody em uma casa de repouso. A partir disso, vemos o tema principal do filme – a família. Kate Grant, esposa de Woody, e Ross Grant, filho do idoso, mostram-se, de início, totalmente insensíveis às questões relativas ao protagonista. Em todos os momentos em que a ideia de um asilo é, de modo descuidado, colocada, ignora-se a presença do idoso, como se, mesmo estando no ambiente da conversa, logo ao lado, ele não tivesse capacidade de entender o que está sendo dito. Isso, de certa forma, reflete um pouco o comportamento da sociedade ocidental para com os mais velhos, pessoas vistas, basicamente, como um peso econômico para os Estados, e como uma obrigação inconveniente para os familiares. Nessa questão, mais um ponto pode ser destacado: Bruce Dern relatou em uma entrevista que esse é o primeiro papel de destaque, em um filme grande, que ele conseguiu nos últimos 25 anos, data que, de alguma forma, acaba o aproximando da busca do protagonista. Lembrando que Dern já foi indicado a um Oscar e trabalhou com diretores como Hitchcock e Elia Kazan. Relacionar o ator, sua idade e a quantidade de filmes em que aparece acaba se tornando um caminho natural, considerando que são poucos os filmes comerciais que apresentam personagens de destaque idosos.

Além do personagem principal na terceira idade, a fotografia é outro elemento que diferencia Nebraska (EUA, 2013). Filmes em preto e branco, em geral, mesmo com a recente boa aceitação de O Artista, ainda são considerados apostas arriscadas. O diretor do filme, Alexander Payne, ao falar sobre o assunto, comentou brevemente sobre as discussões que teve com o estúdio para que conseguisse a aprovação de um orçamento que possibilitasse a execução do filme. Payne diz que o tom austero da história combinava com o preto e branco, um estilo visual, segundo ele, tão austero quanto a vida das pessoas retratadas, o que parece ter sido uma decisão acertada e consonante com o filme.

O mundo retratado em Nebraska é seco e quase imóvel. As pessoas não se movimentam e nada acontece, seja por vontade própria ou com ajuda do meio que as cercam. Em uma realidade como essa, comportamentos cotidianos só são abalados em situações extremas, com, normalmente, acontecimentos que vem de fora. No filme, a situação que consegue quebrar o marasmo da vida das pessoas, e as fazer iniciar a viagem que acompanhamos, é uma carta que daria um prêmio de 1 milhão de dólares para Woody, o que o faz começar a caminhar em direção a Nebraska. A falta de ação encontrada em todas as personagens se transfigura em comportamentos psicologicamente violentos – que ficam cômicos ao se transformarem em físicos, como no momento em que dois primos da família Grant, roubam o bilhete que supostamente possibilitaria o resgate do dinheiro ganho. A violência se dá no tratamento com o próximo, nas respostas grossas ou descuidadas, na insistência em apontar as falhas (ou supostas falhas) do outro, enquanto se esquece do próprio teto frágil. Contudo, há uma personagem que parece escapar, pelo menos na maior parte do tempo, da violência generalizada.

David Grant, interpretado por Will Forte, enquadra-se em tudo o que foi dito sobre as outras personagens. Possui um emprego que aparenta não possibilitar grandes chances de crescimento profissional, a namorada o largou, aparentemente por sua imobilidade emocional, e a única coisa que, de alguma forma, coloca-o em movimento são as constantes fugas, caminhadas rumo a Nebraska de seu pai. David é a única personagem que, inicialmente, demonstra o mínimo de consideração e real preocupação com Woody. David passa, então, a tentar, com muita dificuldade, entender o que está guiando seu pai. O processo é longo e cansativo, e, em inúmeros momentos, as diferenças entre os dois parecem irremediáveis. Contudo, a partir de alguns dias de carro na estrada, com eventuais paradas para necessidades básicas, um reencontro direto com a família Grant e o passado, acaba revelando novas facetas de Woody, até então desconhecidas pelo filho.

Somos apontados para uma figura embriagada, ranzinza e egoísta de Woody, porém, com o desenvolvimento da história, sua personalidade vai sendo exposta, até o ponto em que nos deparamos com um homem preocupado com sua própria finitude e com o pouco que conseguirá, talvez, deixar para trás. Ao fim, vemos um homem preocupado com sua família, ao mesmo tempo em que ela se preocupa com ele. E a mesma boca que falava em possíveis asilos, beija cuidadosamente o rosto do idoso em um leito hospitalar.

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