Martha Marcy May Marlene

por Marcella Grecco

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Assustada e desorientada, Martha (Elizabeth Olsen) corre para dentro da floresta. Ela passara os últimos anos de sua vida em uma espécie de seita/comunidade alternativa, onde todos vivem juntos e obedecem a um líder, Patrick (John Hawkes). A desorientação vem, em grande parte, da desconstrução identitária à qual foi submetida, de forma a garantir a sua integração ao grupo. É da efetiva integração àquela comunidade que Martha passa a ter medo, a ponto de fugir em direção à realidade que antes abandonara.

Após a fuga, Martha liga para a irmã, Lucy (Sarah Paulson), sua única parente viva. Lucy está passando uns dias em uma casa de campo com o marido, Ted (Hugh Dancy), e implora para buscar Martha, onde quer que ela estivesse, afinal, ela não tinha notícias da irmã há anos. Com o passar dos dias, Lucy começa a estranhar o comportamento de Martha. Ela não come, não conversa com ninguém, está sempre com o olhar distante e às vezes fala sozinha.

Na comunidade, Martha era chamada de Marcy May. Ao contrário da casa em que está com a irmã, lá dormiam todos juntos, dividiam as mesmas roupas e cada um desempenhava uma tarefa. O que eles plantavam, eles comiam, e apenas uma vez por dia, depois de terminados todos os trabalhos na fazenda. “As pessoas não precisam de carreiras, elas devem apenas existir. Não é culpa sua, mas você aprendeu a medir o sucesso através do dinheiro e dos bens. Esta não é a maneira correta de viver.”, diz Martha em determinado momento para Ted. Certamente, foi esse ideal que levou Martha a ir para a comunidade, no entanto, passado certo tempo lá, ela começa a discordar do que vê.

Aos poucos, vamos ficando a par da realidade na seita. Todos comem o que plantam, mas os homens comem primeiro; as mulheres só são permitidas à mesa quando eles já a deixaram, após terminarem suas refeições. Apesar das mulheres não poderem sair da fazenda, os homens podem ir à cidade, principalmente para recrutarem mais mulheres para a comunidade. Como a fazenda ainda não é autossuficiente, os membros da seita fazem roubos noturnos, entrando em grandes casas sem que os moradores os notem. Além disso, as mulheres podem fazer sexo com todos os homens, entretanto, antes elas necessitam passar por um ritual com Patrick, no qual, desacordadas, são estupradas por ele. Igualmente perturbador é o fato de Patrick somente ter filhos homens com as mulheres, o que deixa subentendido que as filhas são mortas ao nascerem.

Martha, ou Marcy May, é também Marlene, pois, todas as mulheres respondem pelo nome de Marlene Lewis ao atenderem ao telefone, apesar dos homens responderem cada um pelo seu próprio nome. Certo dia, Martha acompanha Patrick e outros membros da comunidade a uma casa para um dos roubos noturnos, todavia, este dá errado e termina com a morte de um dos moradores.

A partir do assassinato, Martha começa a considerar a fuga. Ela se desvincula da identidade coletiva da qual vinha fazendo parte e passa a questionar tudo o que fizera e vivenciara até então. Desorientada, parece não mais saber o que é certo e o que é errado, nem mesmo se o que ela lembra realmente aconteceu. O clima do filme é de constante paranoia, intensificada pela trilha sonora, que faz uso somente de sons e ruídos, e pelos repetidos zoom in/zoom out, que fazem com que nos sintamos atordoados, imersos em uma realidade flutuante; incerta.

Já na casa de Lucy, Martha começa a achar que Patrick está por perto e que ela seria levada de volta para a fazenda. Ela age de forma estranha para Lucy e Ted, pois se recusa a contar onde estivera e o que acontecera. O que sabemos do seu dia a dia na seita é dado através de flashbacks, que vão sendo sutilmente costurados com os acontecimentos presentes através de uma engenhosa montagem.

O filme foi editado de tal forma que, vez ou outra, passado e presente se fundem, pois, mantido o mesmo enquadramento ou movimento de câmera, um corte se liga ao outro e as cenas dão impressão de continuidade, apesar de não fazerem parte da mesma realidade. Martha está quase sempre com a mesma roupa, o que deixa o espectador ainda mais atordoado por não conseguir identificar de primeira se é uma lembrança ou o tempo presente. Com o decorrer da trama, os enquadramentos ficam cada vez mais fechados, tornando ainda mais difícil a tarefa do espectador de entender o que se passa com Martha.

Martha Marcy May Marlene (Martha Marcy May Marlene, EUA, 2011) deixou alguns espectadores indignados. Muitos disseram que o filme não tem fim- como se precisasse-, ou ainda, que não entenderam o final. Mérito do diretor, Sean Durkin, que, utilizando-se de uma construção formal, buscou submeter o espectador à mesma desorientação de Martha, a ponto de torná-lo tão paranoico quanto a protagonista, considerando um retorno forçado à comunidade. Para os que, envolvidos pela diegese, não conseguiram entender o final, deixo aqui as minhas considerações sobre o mesmo. (Caso ainda não tenha visto o filme, aconselho interromper a leitura e assistir a ele).

Nos últimos minutos, Lucy avisa Martha que irá levá-la a uma consulta no dia seguinte pela manhã, pois ela precisa da ajuda de um profissional. Martha vai nadar no lago, enquanto Lucy e Ted vão à cidade. Nadando no lago, Martha avista Patrick na margem oposta, observando-a. A cena seguinte mostra Martha no carro indo para algum lugar. A câmera focaliza apenas Martha no banco traseiro, não vemos quem dirige. No entanto, devido aos artifícios utilizados pelo diretor, parece que estão a levando de volta para a fazenda, até porque Patrick aparecera alguns instantes antes (inclusive, ele passa em frente ao carro em movimento, o que gera ainda mais confusão). Porém, Martha está apenas indo passear com Lucy e Ted, sendo que é este quem dirige o carro no qual ela está e não é por acaso que, após brecar devido à passagem de Patrick, o sotaque de quem fala, assustado, é britânico, assim como o de Ted. O filme termina, portanto, com Martha deixando Marcy May Marlene definitivamente no passado, com a esperança de se recuperar dos traumas sofridos naquele local.

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