Graça e fúria

Por Álvaro André Zeini Cruz

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À bordo de um trem de passageiros, o extenso plano inicial de Singularidades de uma rapariga loura (idem, Portugal, 2009) é já um mistério: afinal, a qual daqueles ocupantes pertence a história que será contada? Será ao cobrador, único personagem a agir minimamente (ainda que para o cumprimento do trabalho)? Ou será a um daqueles passageiros, inertes no tempo ocioso da viagem, semi-velados pelos assentos do vagão? A permanência do plano sugere que o protagonista está ali presente, mas a inação dos corpos e a composição do quadro mantêm sua identidade em suspenso. Há, entretanto, um único rosto livre de qualquer obstáculo, emoldurado pela abertura entre dois bancos – uma mulher que observa a paisagem pela janela. Ela não é a dona da história, mas a integridade do rosto a torna dentro do plano um ponto de escoamento do olhar (o quadro é centrípeto). A força da face, por sua vez, faz com que nosso olhar paire pelos arredores, pela tela (a tela é centrífuga) e nos leva a um outro olhar inquieto – o do passageiro ao lado, que a olha incisivamente; os olhos sublinhados pelo encosto do banco da frente. Até que Macário, o protagonista, se revele, vão-se quase quatro minutos de olhares ansiosos que buscam um par de orelhas para a história que será narrada.

Macário então narra sua história. Trabalhava no comércio do tio quando seu olhar desviou-se para a janela do outro lado da rua. É o instante em que tal janela – contundente moldura de hastes largas e sólidas instaurada dentro do quadro – passa por uma troca de ocupantes: sai a senhora que sacudia uma toalha, entra Luísa, a rapariga loura do título, e seu leque chinês, que vira e revira numa das mãos. É inescapável: se no plano descrito no parágrafo acima, o olhar recai sobre a passageira por esta ser o único rosto não velado; neste de agora, tudo constrói-se rigorosamente para que não haja olhares fugidios – da composição em moldura aos suaves rodopios do leque, que só para para velar a boca de Luísa, que já tem o rosto parcialmente coberto pelos cabelos. A Macário (e a nós, consequentemente) é dado o olhar privilegiado dessa face que se mascara do mais absoluto mistério. Ele é ali desafiado, mas encontra-se desarmado, enquanto Luísa empunha o leque, a arma letal. Pego de surpresa nesta cena de bang-bang, resta a Macário a única resposta possível: o olhar embasbacado.

Manoel de Oliveira filma o sublime. Luísa é uma força da natureza, descomunal e inacessível, que se retroalimenta: à janela, um abismo a separa de Macário, mas ela o instiga – fecha as cortinas em camadas e torna-se um vulto, um enigma que o encara para, em seguida, se retirar, como se iniciasse um jogo de pega-pega. Na troca de olhares seguinte, volta ainda mais habilidosa com o leque; Macário até tenta encobrir o rosto com os papéis que tem em mãos, mas, reles mortal que é, entrega-se logo.

O primeiro encontro entre os dois não poderia ser mais representativo da trajetória que se segue: conhecem-se, finalmente, num sarau, entre acordes de harpa e versos de poesia. Seguem, no entanto, para algo mais mundano: um jogo de pôquer. Um incidente – o desaparecimento de uma ficha – é a largada simbólica para uma série de infortúnios financeiros que recaem sobre Macário, e que, para ele, o impedem de viver esse amor. Tal juízo será sua perdição.

A cada tombo, Macário se reergue, até que julga estar numa posição confortável para casar-se com Luísa. Numa joalheria, outro incidente, desta vez decisivo: Luísa tenta furtar um anel e é apanhada pelo funcionário da loja. Na rua, Macário, desolado, a dispensa, e ela, antes única, singular, desaparece no meio da multidão. Ainda que não pareça, se há alguém inocente nesta história, este alguém é Luísa; Macário, por sua vez, traçara a má sorte: amou, mas amou de forma regrada, material, buscando um amor que recompensa aqueles que são merecedores sob as rédeas sociais, ou seja, os que trabalham, os que têm. Ao tocar Luísa, profanou-a, trazendo-a para o mundo dos mortais de carne, osso e mesquinhez. Justo ela, outrora potência espiritual incógnita e indomável que transcendia a beleza (essa coisa corpórea) com seu leque a girar no beiral da janela. Em toda sua graça e fúria.

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