Fiscalização no Mercado de Notícias

Por Phillippe de C. T. Watanabe

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Jorge Furtado, roteirista e diretor do documentário “O Mercado de Notícias”, possui um toque muito característico. Cada filme seu apresenta sensibilidade e entendimento quanto às personagens apresentadas. Por exemplo, em “Saneamento Básico, O Filme”, título que também já aponta para outra característica marcante do diretor, a metalinguagem, vemos a luta de pessoas simples em busca de direitos básicos. Situações que, nas mãos de outros diretores, poderiam beirar o ridículo, tornam-se ações simpáticas ao público, que ri junto às personagens, e não delas. Tudo isso é reafirmado em “O Homem que Copiava”, no qual até mesmo uma pequena galinha possui importância na história. Além dessa intensa sensibilidade narrativa, um importante ponto atravessa toda a obra de Jorge Furtado: a questão social.

“Ilha das Flores” vem logo à mente ao falarmos de engajamento social. Em um curta-metragem aparentemente despretensioso somos jogados, literalmente, em um lixão. O trajeto é cuidadosamente costurado, o que torna o filme extremamente impactante e relevante.

É sobre a questão social, mais uma vez, que Jorge Furtado se debruça em “O Mercado de Notícias”, filme, como o título, de certa forma, já aponta, mergulhado em parcialidades. Não a questão propriamente dita, mas de uma forma derivativa, afinal, mídia e sociedade são pares inseparáveis. O documentário de Furtado trata do jornalismo atual e, para isso, volta ao início do mesmo através da peça inglesa de 1625 “O Mercado de Notícias” (The Staple of News), de Ben Jonson, contemporâneo a Shakespeare e um dos maiores dramaturgos britânicos. O diretor poderia simplesmente adaptar a peça aos dias atuais, simplificando, talvez, seu trabalho e alcançando, ainda assim, um resultado satisfatório. Contudo, a visão de Furtado, como já poderia se esperar a partir de seus trabalhos anteriores, vai além: ele monta a peça e a entrelaça com entrevistas de figuras importantes do jornalismo nacional. A representação passa, então, a dialogar com o que os entrevistados falam, demonstrando, dessa forma, o quanto ela pode ser tomada como atual e a quantidade de questionamentos éticos trazidos por ela.

O diretor, já logo de início, deixa clara a ideia de que chamou jornalistas considerados, por ele mesmo, bons e relevantes, o que propositalmente expõe a subjetividade de tudo que será visto. As entrevistas decorrem como na maioria dos documentários aos quais estamos acostumados: pessoas sentadas de frente para uma câmera e um entrevistador respondendo perguntas e falando sobre um determinado assunto. Parte da história, inúmeros dilemas e novidades relacionadas ao jornalismo são tratados. Alguns temas, dependendo de sua importância, ocupam um espaço maior, como é o caso da ligação entre jornalismo e política, algo que ganha ainda mais destaque em um ano de corrida presidencial.

A parte do documentário que trata da realidade política do país e sua relação com a mídia poderia, talvez, ser resumida com a ótima fala de Millôr Fernandes “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”. Tal pensamento, inclusive, é mostrado no filme e discutido pelos entrevistados. Enquanto, alguns deles riem da ideia, outros apontam que, dependendo do contexto, essa frase, atualmente, momento de forte distensão político-ideológica, seria mal compreendida. Isso, dentro do documentário, acaba levando a uma reflexão mais ampla sobre a esquerda e a direita, a situação e a oposição no país, sobre como, após o início do governo Lula, as atitudes da mídia em relação ao poder executivo mudaram bastante, como escândalos são construídos a partir de trechos de depoimentos reinterpretados, e como isso se torna prejudicial para a própria imagem do jornalismo.

Finalmente, pensando em tudo o que é dito, discutido e criticado durante o filme, Furtado apresenta uma interessante . Isso, contudo, não significa que todos os que assistirem ao filme verão as entrevistas, porém, a disponibilização delas já demonstra um certo compromisso ético, um olhar aberto ao debate.

Um ponto que se deve destacar no documentário é sua definição de posicionamento. Desde as primeiras cenas, Furtado nos revela jornalistas e atores sentados em uma roda de cadeiras ouvindo o diretor falar sobre o projeto do filme que estamos assistindo. Mais uma vez, o processo metalinguístico é escancarado. Além disso, em vários momentos, câmeras que estão filmando o documentário são mostradas, mais um modo de revelar o caminho seguido por um material até chegar às mãos do público, demonstrar sua imparcialidade. . O filme continua a seguir essa dinâmica e, em vários momentos da encenação da peça, vemos operadores de áudio e câmera, assistentes e o próprio Jorge Furtado em ação, reforçando o caráter de irrealidade, de montagem.

“O Mercado de Notícias”, pelo tema tratado, refere-se a mídias importantes no nosso cotidiano, como os jornais e a televisão. Tudo o que ali é dito, para ser coerente, precisa ser relacionado com a nossa realidade e História recente. O documentário, nesse ponto, é totalmente didático, deixando claro o histórico dos eventos – ou a parte deles que o diretor considera interessante mostrar – e, desse modo, não exigindo que o espectador tenha conhecimento prévio de quase nada do que é mostrado.

O filme atinge seu ápice ao colocar em prática atos que, muitas vezes, são deixados de lado, seja por preguiça, falta de tempo ou por interesses, por parte dos jornalistas. Furtado analisa, a partir de dados e imagens disponíveis na internet nos sites de grandes agências de mídia, um famoso incidente da última eleição presidencial no qual um dos candidatos teria sido atingido por uma bolinha de papel, fato que foi alardeado como uma ultrajante agressão com pedras ou qualquer outro objeto mais letal que um papel amassado. O desfecho do caso no documentário é cômico, porém, levanta uma assustadora questão sobre os posicionamentos, oficialmente ocultos, mas logicamente visíveis, da grande mídia. Além desse caso, a estranha notícia de um famoso quadro “abandonado” em mãos erradas em órgãos do governo federal é analisada, discutida e mostrada aos entrevistados, os quais parecem não acreditar no absurdo construído. Mais uma vez, a situação termina de forma cômica, rindo-se do ridículo papel desempenhado pelo jornalismo de baixa qualidade, seja ela técnica ou moral.

Assim como nos filmes anteriores de Jorge Furtado, “O Mercado de Notícias” produz, mesmo em meio a situações complexas, perigosas e negativas, risadas. Rimos de nós mesmos, dos papéis distribuídos e aceitos na sociedade, do quanto nos deixamos enganar. É a famosa risada que castiga, mesmo que você não perceba.

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